quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A resistência de Alessandra

 

Os seis anos que Alessandra passou em um campo de concentração - os mesmos anos da Segunda Guerra Mundial - foram os mais terríveis na vida de jovem alemã descendente de indianos. Além de sua etnia, ela ainda era militante comunista e era perseguida pela ditadura. 

Alessandra tornou-se um símbolo de resistência, que não se entregou fácil. Ela emagreceu, ficou careca, adoeceu diversas vezes, viu a morte de perto em vários momentos. Chegou a ser condenada a execução, mas que foi suspensa por causa do mau tempo. 

Certo dia, em 1942, um dos soldados a viu toda magra, pálida e sem forças, e disse:

- Eita, que tu vai morrer logo, viu? Já está morta, só falta enterrar. 

- Cuidado, tu pode morrer antes de mim...

- Isso é impossível. Sou um dos melhores atiradores da Alemanha, e minha saúde é de ferro. Jamais isso nem passa pela minha cabeça. 

Ele saiu, não sem antes provocar:

- Fica aí, morimbunda, vou gozar de minha vida longa. 

Alessandra resistiu. Em 1945, esse soldado acabou morto em uma batalha contra os soviéticos, enquanto Alessandra sobreviveu ao campo, foi salva, e foi morar em Maceió, no Brasil, onde conseguiu viver até o começo da década de 90, passando dos 90 anos de idade e testemunhando até mesmo a unificação da Alemanha. 

O dia que Bianca foi jogada na lama


O ano era 1949, e a imigrante italiana Bianca estava prestes a ir embora do Brasil. Ela nunca se acostumou com o interior de Pernambuco, para onde foi com seus pais Hélio e Suzana, e seu irmão mais novo Kayque, em 1935. 

Bianca, porém, diferente de seus pais e seu irmão, era muito detestada no sítio Maniçoba, atual Lagoa da Italianinha. Bianca sempre falava mal do povo local, e era muito antipática. 

Pouco antes de ir embora, começou a provocar a camponesa Maria Clara, dizendo:

- Uma louca suja, do pé sujo, olha que tipinho que vive por aqui. 

- Tu se acha muita coisa, né, Bianca? 

- Eu não me acho! Eu sou! 

- Olha, se eu caisse naquele chiqueiro de porcos, eu ficaria suja. E você... também. 

- Ah, não venha com suas filosofias...

- Quer apostar?

Maria Clara começou a empurra Bianca, que disse:

- Pra onde está indo? Me solta!

Maria Clara jogou Bianca entre os porcos, na lama. Alguns viram e riram bastante. Bianca disse:

- Tu vai me pagar, sua fedida. 

- Vá embora, antes que eu afunde mais ainda sua cara na lama!

Bianca saiu dali, vaiada. Maria Clara disse:

- Ela é assim, mas a família dela é maravilhosa. Ainda bem que ela vai embora. Mas os pais e o irmão vão ficar. 

- Já vai tarde essa abusada! - disse um dos que ali estavam. 

Bianca chegou em casa, e sua mãe Suzana disse:

- O que aconteceu?

- Não interessa, quero tomar banho, eu tô fedendo a chiqueiro! Aquela camponesa pé sujo me paga! 

Bianca tomou um banho e se limpou. Suzana repreendeu a filha por tratar mal as pessoas que os acolheram no sítio. No dia seguinte, Bianca arrumou as malas e voltou para a Itália, indo morar em Tirano, perto da fronteira com a Suíça. Hoje, é a neta de Bianca, Nonna, quem vive lá. 

O plano sujo de Wéllia

 


Numa certa tarde, na agência de publicidade, Wéllia estava ali, com olhar maldoso, fumando, e rindo muito. Geisy, a sua ajudante, vendo a cena, disse:

- O que aconteceu, dona Wéllia? Não me diga que a senhora está feliz por ter.. é... feito isso nas calças, se é que me entende. 

- Também, querida, mas aqueles que riem de mim por eu fazer cocô nas calças estão fazendo o mesmo agora. 

- Como assim?????

- Eu coloquei purgante na mesa de algumas pessoas... minha irmã Malu, minha filha Alice, minha mãe Selma nós tomamos café juntas e aproveitei pra elas fazerem o que eu faço... 

- O que???? 

- Sim, ahahahah, eles devem estar experimentando o quanto é bom. 

Naquela hora, chegou Malu, a irmã gêmea de Wéllia, e disse:

- Wéllia, explica isso, como é que tu colocou purgante na minha comida quando eu tomei café na sua casa hoje? Tu me convida pra tomar café pra me aprontar uma dessas? Eu devia ter desconfiado! 

- Calma, irmãzinha... você viu como é maravilhoso isso?

- Não achei nem um pouco bom, minha saia tá suja de...não precisa dizer de que, né? Ah, e lá no colégio, me contaram que Alice também está com a calça suja, pois é, riram dela porque ela cagou nas calças. 

- Não é nada demais, é muito bom. 

Malu disse:

- Wéllia, sinceramente? Tu precisa se tratar. Tu não é normal, mesmo. Tu tem esse costume nojento e quer que outros também tenham. 

- Não acho nada disso nojento, ao contrário...

`Pouco depois, apareceu Alice e disse:

- Mãe, porque tu fez isso com a gente? Tô com a calça melada de... merda. 

- Ué, o que tem demais?

- Ficaram rindo de mim, mãe, por isso. 

Wéllia disse:

- E a minha mãe Selma?

- Com ela não aconteceu nada, porque ela correu logo pro banheiro. Mas eu espero que isso não se repita, Wéllia. Se tu quiser bancar a ridícula fazendo cocô nas calças, é um direito seu, mas não queira que outros sejam igual a tu, não. E vamos embora, Alice. 

- Pra onde tu vai levar minha filha?

- Pra minha casa. Tu não está normal, Wéllia. E se isso se repetir, eu não respondo por mim!

Malu e Alice saíram, e Wéllia disse:

- Voltem aqui!

Geisy disse:

- Wéllia, tu não acha que exagerou?

- Não. Não exagerei e não me arrependo. 

Geisy começou a ficar assustada com Wéllia. 

Warlla enfrenta outros mendigos

 

Numa certa madrugada, alguns moradores de rua estavam em um beco em uma das principais vias centrais de Lagoa da Italianinha, e em conflito com Warlla, a "mendiga chique". Warlla, como se sabe, já foi rica, mas perdeu tudo, menos a pose, e hoje vive nas ruas andando como se fosse uma madame chique. Ela é rejeitada também por outros moradores de rua, sem contar que a própria Warlla os rejeita, chamando-os de "pobres nojentos", mesmo ela estando entre eles. 

Rita de Cássia, Solange, Deza, Guilherme, Warlla, Fábia, Renata e Esvalda estavam ali por volta de 2 da manhã, e brigando. Renata, entre os mendigos, era a quem mais enfrentava Warlla. Rita e Solange estavam sentadas observando, Deza e Guilherme também enfrentavam Warlla, Fábia, mesmo sentada, também a enftentava, e Esvalda ficava observando. 

Warlla disse:

- Vocês são uns pobres, nojentos, tudo inútil, não tem como, eu jamais poderia me misturar a vocês!

- Deixa de tua besteira, doida, que tu mora nas rua feito a gente, tu não tem onde dormir e fica aqui nas calçadas! - disse Renata. 

- Mas eu sou uma mendiga chique!

- Tu é muito metida a besta, isso sim! - disse Fábia. 

Warlla disse:

- Eu não sou igual a vocês, entendam. Eu sou melhor, superior. Eu ando pelas ruas, as pessoas me olham, eu chamo atenção. 

- Deve ser pela sua besteira e teu nariz empinado - disse Guilherme. 

Deza retrucou: 

- Essa daí é muito sem noção. 

- Sem noção são vocês! - disse Warlla. 

- Tu se acha melhor que a gente, mas tu tá suja, fedendo, por sinal, só eu estou fedendo mais que você - disse Esvalda. 

- Não falo com mendigas encardidas. Fica na tua! 

Solange se levantou e disse:

- Sabe o que eu faço com uma besta feito tu? Eu meto um tabefe!

Rita se levantou, tirou a chupeta da boca e disse pra Solange:

- Deixa, dona Solange. Não vale a pena se sujar por essa bruaca! 

Warlla disse:

- Vocês morrem de inveja de mim, isso sim. 

Renata perdeu a paciência e empurrou Warlla, dizendo:

- Saia daqui! Saia!

Warlla foi empurrada por todos os outros sete mendigos, e ela dizia:

- Vocês me pagam!

Warlla foi dormir em outro beco, escuro e deserto, enquanto os outros mendigos se sentiram aliviados após a saída dela. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

De volta ás aulas


 De volta às aulas, os amigos Samuel, Alice, Mateus e Tontom novamente se encontraram no colégio onde os quatro estudam, no Colégio de Freiras Irmã Renata Augusta, dirigido pela Irmã Alcineia. 

Tontom na verdade é novo no colégio, tendo sido matriculado agora. Mas os outros três já estudam lá há algum tempo. 

Samuel, filho de Valéria, é amigo inseparável de Alice, a filha de Wéllia, apaixonado por ela, mas o Mateus, filho da prefeita Myllena, também quer namorar com ela. Mas Alice rejeita ambos, pois quer priorizar o estudo em detrimento do namoro. 

Tontom, o filho de Mimi, se juntou a esses amigos e tem se divertido muito com eles. Mas apenas os três primeiros estudam numa mesma classe, e Tontom estuda em outra classe, fazendo com que eles se vejam apenas no recreio. 

Giovanna rumo à chefia da Prefeitura

 

Vice-prefeita de Lagoa da Italianinha, Giovanna Victórya já está se preparando para assumir o cargo de prefeita quando sua mãe Myllena renunciar para disputar o mandato de deputada estadual. Giovanna, inclusive, já dá algumas ordens na Prefeitura, e ela é obedecida. 

A expectativa na cidade com Giovanna é muito grande. Inclusive, até mesmo a deputada federal Sandra Valéria, adversária de Myllena, já se rendeu ao carisma de Giovanna e anda tentando convencer Myllena a voltar a seu grupo político depois de 13 anos, de olho em um apoio à Giovanna em 2028, quando poderá tentar um mandato completo. 

Até mesmo algumas pessoas que não votam em Myllena estão tendo expectativas positivas com Giovanna, acreditando que ela fará um trabalho ainda melhor que a mãe descalça. Giovanna, inclusive, já é presidente do partido na cidade, secretária de Governo e tem estudado cursos de formação política e de gestão para governar bem Lagoa da Italianinha. 

Apesar das preocupações e dos medos de Myllena, Giovanna anda provando que está muito preparada e vai querer fazer a diferença. Uma das grandes diferenças entre a mãe e a filha é que Myllena tem um gênio muito forte, ás vezes explosiva, enquanto Giovanna costuma calcular melhor as emoções e tomar decisão sempre de cabeça fria. 

A proposta ousada de Sandra Valéria


Decidida a disputar mais um mandato de deputada federal, Sandra Valéria convocou as três principais lideranças de Lagoa da Italianinha para seu escritório de Recife. Longe dos holofotes, ela recebeu o deputado estadual Moab, a prefeita Myllena e a deputada estadual Janayna. 

A expectativa era pela presença da prefeita Myllena, que atualmente, é adversária ferrenha da deputada. Mas a prefeita descalça compareceu ao encontro. Myllena é pré-candidata a deputada estadual, e Janayna, pré-candidata a deputada federal. 

Mas Sandra Valéria quer o apoio dos três à sua candidatura. Ela disse:

- Eu recebo vocês aqui, com muita alegria, e não precisam dar a resposta. Mas estive fazendo as contas, se vocês três forem candidatos a deputados estaduais, poderão ser eleitos os três juntos. Como se sabem, o atual deputado federal Arinaldo, meu amigo, está deixando a vida pública e vai me apoiar. 

- Mas Janayna não será candidata a deputada federal? - quis saber Myllena. 

- Janayna já está recebendo convites para tentar uma vaga na Assembleia Legislativa. 

- Sim, é verdade, Myllena. - disse Janayna - e as chances de chegar são grandes. Federal é algo muito grande. 

Moab disse:

- Confesso que sua proposta é muito ousada, amiga. 

- Sim, mas é possível conseguir. Além do mais, vocês são majoritários em algumas cidades próximas. Você, por exemplo, é majoritário em Serra Grande, Myllena é majoritária em Vila Dourada e Janayna é majoritária em Nova Humaitá. 

Myllena disse:

- Sandra, eu e você somos adversárias políticas. 

- Sim, e daí? O atual presidente e o vice-presidente foram adversários políticos. E olha, Myllena, eu estou disposta a esquecer tudo que aconteceu, vamos voltar ao tempo que fomos aliadas, como você, chegou a ser minha vice quando eu fui prefeita, e eu estou disposta a ajudar sua filha Giovanna quando ela te substituir na Prefeitura. Eu já orientei ao meu grupo não fazer oposição contra ela. 

- Bom, isso é algo muito sério... o povo não vai entender. 

- Desde quando tu se preocupa com a opinião das pessoas, Myllena? 

Moab disse:

- Bom, eu já escutei aqui em Recife que Mimi, que foi candidata a prefeita, deverá ser convidada pra ser candidata a deputada estadual. 

- Sério? - disse Janayna. 

- Sim, e se isso acontecer, não vou impedir. Acho que precisamos deixar nossas diferenças de lado e fortalecer Sandra Valéria. Temos nós três chances reais de sairmos vitoriosos. 

- Bom, eu preciso realmente pensar mais um pouco - disse Myllena. 

- Pense direitinho. O tempo tá passando - disse Sandra Valéria. 

A deputada federal serviu um almoço para os convidados e depois eles voltaram para Lagoa da Italianinha. 

Mimi recebe convite para se candidatar a deputada estadual


Numa certa tarde, Mimi estava em sua casa quando recebeu representantes de um partido que foram procurá-la onde mora, no sítio Mandacaru, na zona rural de Lagoa da Italianinha. Um deles disse:

- Mimi, nós viemos aqui pra lhe fazer um convite.

- Convite para que?

- Viemos do Recife agora e vemos que seu nome está bem cotado para uma possível candidatura a deputada estadual. 

Mimi levou um susto:

- Eu???? Mas eu não ganhei nem pra vereadora. 

- Mas teve 23 mil votos para prefeita na última eleição. 

Mimi se levantou e disse:

- Olha, eu estou praticamente fechando com Moab para apoiá-lo. 

- Mas Moab é de direita, querida. Nós o conhecemos muito bem. 

- Eu sei, mas ele abraçou minha candidatura a prefeita, avalizou meu nome quando muitos que me apoiaram ainda resistiam. Ele acreditou em mim, na minha força, no meu potencial. Eu sou tão grata a ele que essa questão da visão ideológica dele diferente da minha fica em segundo plano. 

O homem disse:

- Mimi, entendemos sua gratidão a ele, mas precisamos de uma representante do nosso partido para nos representar nessa disputa. Você tem potencial, você tem votos em Lagoa da Italianinha, Vila Dourada, Serra Grande do Agreste, Nova Humaitá, Cumaru, Passira, Bezerros, Gravatá...

- Tá, tá. Olha, preciso pensar, ok? E preciso falar com Moab. Não vou ser ingrata com ele. 

- Está bem, como quiser. Mas seja rápida. 

Eles saíram, e Mimi pensava consigo mesma:

- Eu acho que eles estão tentando preencher a cota feminina... 

Passeio na praia


Num certo domingo, saindo sozinho de Lagoa da Italianinha, Valdenes quis se aventurar em uma praia lá para os lados de Paulista. Pegando um ônibus muito cedo saindo da cidade, passando por Limoeiro e Carpina, chegou em Recife, e de lá, conseguiu ir para Paulista. 

Ao chegar na praia do Janga, procurou uma praia que tivesse poucas pessoas, pois poderia chamar atenção por entrar de roupa e tudo. E assim, ele foi logo entrando no mar, onde nadou por mais de uma hora. 

Alguns o olhavam de longe, e diziam coisas, chamando-o de "matuto". Mas ele mergulhou na água e se divertia bastante. 

Após sair da água, foi caminhar pela areia, enquanto sua roupa secava. Só assim, ele pôde pegar um carro para voltar para o Recife, e de lá, pegar um ônibus voltando para Lagoa da Italianinha. 

O novo professor


 No colégio em Vitalba, na Toscana, os alunos foram para mais uma aula. Vitório, o aluno descalço, estava mais uma vez chamando atenção. O professor era novo e ficou surpreso. Ele perguntou:

- Por que não estás de sapatos?

- Não gosto de usar. Gosto de viver assim de pés no chão...

- Não sei como tu aguenta... 

- Sim, eu e aquela aluna careca, a Sara Sofia, também... mas algum problema com isso?

- Não, nada contra. Mas me conta outra coisa, me disseram que tu sabe muito sobre História e Geografia da Itália, né?

- Bom, eu...

Jolanda disse:

- Ele sabe, sim, professor. Nomes de todos os reis, presidentes e primeiros-ministros da Itália decorados. 

- Não exagera, Jolanda... - disse Vitório, tentando parecer modesto. 

O professor disse:

- Muito bem, então me diga qual primeiro-ministro da Itália ocupava o cargo quando terminou a monarquia e começou a república, e me diga quando ele governou, e quando nasceu e morreu. 

Vitório disse:

- Alcide de Gasperi, primeiro-ministro de 1945 a 1953, que nasceu em 1881 e faleceu em 1954. 

- Nossa, é isso mesmo. Vou facilitar agora. Qual era o primeiro-ministro quando o atual presidente Sergio Mattarella assumiu a presidência em 2015?

- Matteo Renzi, primeiro-ministro de 2014 a 2016. 

- Impressionante. Gostei desse aluno. 

O professor deu início à sua aula. 

As Esquisitices de Gilvânia

 

Irmã do vereador Marco Aurélio, Gilvânia é conhecida por ser altamente excêntrica e estranha. Mesmo sem ser uma vampira, gosta de dormir dentro de um caixão que ela mesma comprou, e é muito temida por esse hábito sinistro. Ela ri daqueles que a chamam de "bruxa" ou "vampira". Costuma andar sempre descalça - não tem um calçado sequer - e usar touca na sua cabeça, além de comer insetos. 

Gilvânia, que mora em uma grande mansão em Lagoa da Italianinha com seus irmãos, é uma grande inimiga de sua prima Danúzia, com quem nutre forte antipatia. Na cidade, Gilvânia é tida como antipática e antissocial, tem aversão a festas e vida social, preferindo ficar no seu quarto isolada. Apesar de odiar se vestir como madame, também menospreza pobres, principalmente mendigos. 

Marco Aurélio tenta levar sua irmã para a sociedade, sem sucesso. Quando Gilvânia vai para alguma festa, ela acaba criando uma situação que a faz ser até mesmo expulsa. 

Chamada de "maloqueira" por Danúzia, ela costuma falar mal da sua prima madame. Curiosamente, Gilvânia se dá bem com Cíntia, a irmã cadeirante de Danúzia, que é vereadora, e que por sinal, também odeia Danúzia. Gilvânia e Cíntia costumam planejar maldades juntas. Gilvânia ainda ridiculariza as pessoas da cidade que tomam banho de roupa e tudo - incluindo sua prima Danúzia, chamando-os de "matutos". 

Odiada por quase tudo e por quase todos na cidade, Gilvâna nem se importa com isso. Aliás, ela até faz questão de não ser amada...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O dilema de Myllena

 

Cada vez mais que vai se aproximando o dia de sua possível renúncia para disputar o mandato de deputada estadual, a prefeita Myllena vai ficando cada vez mais uma pilha de nervos. Isso porque ela anda se preocupando com o futuro de sua filha Giovanna Victórya, que é a vice-prefeita e é quem vai sucedê-la. Ainda muito jovem, Giovanna poderá ter a responsabilidade de governar Lagoa da Italianinha e decidir os destinos da cidade. 

Ao contrário do que se pensava na cidade, Myllena nunca quis a filha na política. Ela só colocou-a como sua vice a pedido dos partidos que enxergavam em Giovanna um grande potencial. O filho mais novo, Mateus, que ainda é adolescente, também anda querendo entrar na política, mas sua mãe nunca o estimula. 

Myllena é muito preocupada em jogar sua filha em uma "cova de leões". Myllena vem procurando alertar sua filha sobre as negociatas e traições que costumam acontecer nesse meio. O alerta que mais a prefeita descalça repete pra sua filha é esse:

- Cuidado com aqueles que dão tapinha nas suas costas dizendo "tamo junto", lá na frente, poderá ser o primeiro a lhe apunhalar pelas costas se tu não der o que eles quiserem. Hoje, ficam lambendo seus sapatos, amanhã vão querer destruir sua carreira política. 

Além do mais, Myllena anda conversando nos bastidores uma possível aliança com a deputada federal Sandra Valéria, sua maior inimiga. Ela quer garantir mais governabilidade para sua filha. Mas para complicar, Myllena, em dado momento, também tem pensado em desistir da candidatura a deputada estadual e cumprir seu mandato de prefeita até o fim, descartando Giovanna como sua sucessora. 

Isso não significa que Myllena não veja talento político na filha: ao contrário, ela nutre um orgulho grande da capacidade de Giovanna. Mas se preocupa com o que poderá acontecer com a filha estando no meio do balaio da politicagem. 


Danúzia recorre a Dani Cruel


 Num certo dia, Danúzia foi ao Alto do Cruzeiro conversar com sua aliada Dani Cruel, que estava em sua casa. Em dado momento, Dani disse:

- A que devo a honra da visita de uma madame tão fina a meu humilde barraquinho?

- Dispenso o puxa-saquismo, criatura. Temos que falar de algo sério. 

- O que? Desembucha!

Danúzia disse:

- Minha prima Gilvânia está solta. 

- Sério? - disse Dani Cruel. 

- Sim, e ela sabe de muitas coisas sobre eu e você, e que se for descoberto, podemos ir presas. Eu, acho que não, que eu sou rica, mas tu é uma pobre pé sujo, acho que...

- Também não precisa esculhambar, não é? Vamos pensar o que podemos fazer com relação à Gilvânia. Eu quero acabar com ela há muitooooo tempo, já. 

- Sim, vamos conversar. 

Entraram na casa, e ficaram conversando horas e horas. 

A estafa de Suely


Num certo dia, enquanto a juíza Suely trabalhava em seu escritório, ela se sentiu um pouco cansada, e seu funcionário Valdenes, bem preocupado, lhe ofereceu água. Valdenes disse:

- O que a senhora tem, doutora?

- Só cansaço mesmo. Tô trabalhando mais do que deveria. 

Suely, depois de deixar o escritório, foi para um médico fazer uma consulta, e constatou que era estafa. Além da rotina de trabalho excessiva, Suely tem grande atividade na igreja onde congrega, e pouco tem tempo para suas filhas Sara, que já é adulta, e Diná, que ainda é adolescente e sofre muito com a ausência da mãe. 

Suely disse ao Valdenes:

- Vou ligar para o desembargador para enviar um juiz ou juíza pra ficar em meu lugar, como titular, eu fico como auxiliar, mesmo. Eu preciso ter mais tempo pra família e lazer. 

- Faz bem, dona Suely. 

- Eu vejo minha filha Diná, carequinha feito eu, linda e crescendo, e eu quero ver ela adulta, quero estar mais ao lado dela. Claro que não vou deixar de trabalhar, mas eu quero ter mais tempo pra família. 

Suely, naquele dia, foi pra casa mais cedo e disse:

- Eu vou pra casa, tu fica aí, quando for 4 horas, pode ir embora. 

- Certo, doutora. 

Suely chegou em casa e viu que Sara tinha trazido Diná do colégio, e Suely abraçou sua filha mais nova, a quem prometeu se dedicar mais. Sara disse:

- Mãe, a senhora em casa agora? O que aconteceu?

- Nada, filha. Apenas aconteceu algo que me fez tomar uma decisão. Eu preciso me dedicar melhor à minha família. Eu preciso dividir mais meu tempo entre meu trabalho e minha família. 

- A senhora teve algum problema, mãe? - disse Diná.

- Estresse em nível elevado. Só isso. Não se preocupem, minha saúde está boa, mas se eu não me cuidar, pode não ficar boa lá na frente. 

- Isso é verdade - disse Sara. 

Suely abraçou suas duas filhas e passou a tarde e a noite com elas. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Um dia terrível para Maria Clara

 

O ano era 1973, e o Brasil vivia o período do Regime Militar. Lagoa da Italianinha, cidade do agreste de Pernambuco que tinha dez anos de emancipada, entrou no alvo de investigações. O comunista Estêvão Villegagnon, chegou a ser preso com sua esposa japonesa Naksu. 

Nessa época, o prefeito de Lagoa da Italianinha era o coronel Pontes Florêncio, pai do atual deputado estadual Moab. Ele mandou perseguir a oposição na cidade. 

Maria Clara, simples camponesa casada com o italiano Fausto e mãe de Leda, entrou na mira das investigações sob suspeitas de supostamente esconder comunistas em sua cabana simples. 

Nessa época, Maria Clara, que já tinha 55 anos, foi levada a uma delegacia em Lagoa da Italianinha, para depor. Fausto, seu esposo, estava em Vila Dourada e voltou correndo quando soube da prisão de sua esposa. 

Maria Clara negou envolvimento com política de qualquer natureza. A família, porém, havia entrado na mira de investigação por causa de Leda, a filha, que era do movimento hippie e andava com Lídia, a feminista que também estava na mira. 

Maria Clara chegou a ficar detida, e presenciou sessões de tortura. No fim das contas, não foi comprovada nenhuma ligação dela com comunistas. Muito abalada após ser solta e voltar pra sua cabana, ela nunca mais teve boa saúde depois de viver essa terrível experiência. 


Mimi reencontra um amigo de infância


Num certo dia, em Lagoa da Italianinha, um homem que trabalhava com vendas apareceu ali e viu Mimi e seu filho Tontom na lanchonete de Marlene, na rodoviária. Ele idsse:

- Michelly Fernanda? É você?

- Sim, sou eu. 

- Mas como você está diferente. 

- Sei, meu visual te surpreendeu...

- Você está lembrada de mim?

- Sim, nós estudamos juntos. 

Ele se sentou à mesa, com a permissão dela, e pediu um lanche. Ele disse:

- Tô morando em Gravatá, aqui pertinho, e trabalhando com vendas. E você?

- Eu sou feirante, e estou com uma barraca na feira, já fui líder sem terra e candidata a cargo eletivo, até a prefeita, e tive mais de 23 mil votos na eleição passada. 

- Mas que mal lhe pergunte, Michelly... porque tu está careca? 

- Eu que quis. Raspei a cabeça já faz tempo. E me sinto bem feliz. 

- Mas... me lembro quando estudávamos juntos. Você era a menina mais bonita da classe, tinha os cabelos bonitos...

- Bom, esse teu padrão de beleza consumista não é o meu forte. Meu padrão de beleza é esse, ser quem eu sempre quis ser. 

- Me perdoe perguntar, e porque tu só anda com um pé calçado e outro descalço? 

- Porque é o símbolo da minha rebeldia, amo ser diferente. 

- Mas na época que estudávamos, você usava calçados nos dois pés, como qualquer pessoa normal. 

- Mas eu odiava. Tão logo fiz 18 anos, abandonei os calçados do pé esquerdo. 

- E teu filho também só usa sapato em um pé. 

- Claro, ele puxou a mim, tem que ser. 

- Bem, é bem... excêntrico. 

Mimi disse:

- Eu não tenho vocação pra ser madame patricinha chique, odeio vestidos caros, gosto de ser assim, simples e bem diferente dos demais. Eu nasci no meio rico, mas nunca tive essas frescuras, não. 

- Mas dizem por aí que tu é doida, né?

- Oxe, ser doida pra mim é elogio. Se ser "normal" é fazer parte da sociedade hipócrita, sou louca, doida, maluca, com muito orgulho. 

- Bom... tu pretende deixar o cabelo crescer de novo?

- Sinceramente? Nem estou com vontade. 

- Está bem, desculpe as perguntas enxeridas. 

- Não se preocupe, amigo. Bom, preciso ir. 

Mimi e seu filho Tontom pagaram seus lanches e saíram. Marlene e sua funcionária Deinha observavam a conversa. Em dado momento, ele disse:

- Confesso que já fui apaixonado por ela na minha infância... mas hoje eu acharia tão esquisito. Se ela fosse minha esposa, jamais eu deixaria ela raspar a cabeça nem andar com um pé calçado e outro descalço, aliás, nem descalça ela andaria. 

- Mas é o jeito dela, com certeza, ela ia querer se separar de tu - disse Marlene.

- Será?

Deinha disse:

- Conhecendo Mimi como conheço, ela tem gênio forte. Ela não ia ceder aos teus caprichos, não. 

A resistência de Alessandra

  Os seis anos que Alessandra passou em um campo de concentração - os mesmos anos da Segunda Guerra Mundial - foram os mais terríveis na vid...