Num certo dia, em Lagoa da Italianinha, um homem que trabalhava com vendas apareceu ali e viu Mimi e seu filho Tontom na lanchonete de Marlene, na rodoviária. Ele idsse:
- Michelly Fernanda? É você?
- Sim, sou eu.
- Mas como você está diferente.
- Sei, meu visual te surpreendeu...
- Você está lembrada de mim?
- Sim, nós estudamos juntos.
Ele se sentou à mesa, com a permissão dela, e pediu um lanche. Ele disse:
- Tô morando em Gravatá, aqui pertinho, e trabalhando com vendas. E você?
- Eu sou feirante, e estou com uma barraca na feira, já fui líder sem terra e candidata a cargo eletivo, até a prefeita, e tive mais de 23 mil votos na eleição passada.
- Mas que mal lhe pergunte, Michelly... porque tu está careca?
- Eu que quis. Raspei a cabeça já faz tempo. E me sinto bem feliz.
- Mas... me lembro quando estudávamos juntos. Você era a menina mais bonita da classe, tinha os cabelos bonitos...
- Bom, esse teu padrão de beleza consumista não é o meu forte. Meu padrão de beleza é esse, ser quem eu sempre quis ser.
- Me perdoe perguntar, e porque tu só anda com um pé calçado e outro descalço?
- Porque é o símbolo da minha rebeldia, amo ser diferente.
- Mas na época que estudávamos, você usava calçados nos dois pés, como qualquer pessoa normal.
- Mas eu odiava. Tão logo fiz 18 anos, abandonei os calçados do pé esquerdo.
- E teu filho também só usa sapato em um pé.
- Claro, ele puxou a mim, tem que ser.
- Bem, é bem... excêntrico.
Mimi disse:
- Eu não tenho vocação pra ser madame patricinha chique, odeio vestidos caros, gosto de ser assim, simples e bem diferente dos demais. Eu nasci no meio rico, mas nunca tive essas frescuras, não.
- Mas dizem por aí que tu é doida, né?
- Oxe, ser doida pra mim é elogio. Se ser "normal" é fazer parte da sociedade hipócrita, sou louca, doida, maluca, com muito orgulho.
- Bom... tu pretende deixar o cabelo crescer de novo?
- Sinceramente? Nem estou com vontade.
- Está bem, desculpe as perguntas enxeridas.
- Não se preocupe, amigo. Bom, preciso ir.
Mimi e seu filho Tontom pagaram seus lanches e saíram. Marlene e sua funcionária Deinha observavam a conversa. Em dado momento, ele disse:
- Confesso que já fui apaixonado por ela na minha infância... mas hoje eu acharia tão esquisito. Se ela fosse minha esposa, jamais eu deixaria ela raspar a cabeça nem andar com um pé calçado e outro descalço, aliás, nem descalça ela andaria.
- Mas é o jeito dela, com certeza, ela ia querer se separar de tu - disse Marlene.
- Será?
Deinha disse:
- Conhecendo Mimi como conheço, ela tem gênio forte. Ela não ia ceder aos teus caprichos, não.
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