quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Myllena e Mateus: café, terno e conversa de futuro em Lagoa da Italianinha

Cafeteria tranquila. Mesa pequena, café na xícara, livro em cima da mesa. Luz amarela.

De um lado Myllena. 

Ex-prefeita da cidade, hoje candidata a deputada estadual. Blazer preto, blusa amarela, cabelo solto. Sorriso calmo, mas olhar de quem já carregou prefeitura nas costas.

Do outro Mateus.

14 anos, terno azul-marinho, gravata, livro debaixo do braço. Postura séria demais pra idade. Filho caçula.

E os dois... descalços. Porque em casa e nos lugares que importam, Myllena ensinou: "a gente conversa melhor com o pé no chão."

Na cidade todo mundo comenta: "A prefeita atual é a Giovanna Victorya, filha dela. Por que Myllena fala tanto do Mateus?"

A resposta veio nessa tarde de café.

"Filha, a Giovanna tá fazendo um ótimo trabalho", Myllena disse, mexendo o café. "Ela tem cabeça, tem pulso. Eu tenho orgulho."

Mateus ficou quieto.

"Mas mãe, por que você me chama pra essas reuniões então?"

Myllena olhou pra ele. 

"Porque eu te vejo, filho. Eu vejo em você a vontade de perguntar o 'porquê' de tudo. A Giovanna executa. Você questiona. E política precisa dos dois."

"Mas eu sou só adolescente, mãe."

"E eu fui prefeita com 28. Idade não é crachá, Mateus. É responsabilidade."

O povo de Lagoa da Italianinha torce, critica, opina. 

Mas dentro daquela mesa, era só mãe e filho planejando. Sem câmera, sem discurso.

Myllena quer ser deputada pra levar a voz da cidade pro estado. 

E no fundo, ela já sonha alto: "Se um dia Mateus quiser, que ele entre na política não por sobrenome. Mas porque ele escolheu."

Mateus fechou o livro e sorriu. "Tá bom. Mas primeiro eu termino a escola, combinado?"

"Combinado", ela respondeu, e bateu o pé descalço no dele por baixo da mesa.

Porque legado não é empurrar. É preparar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Flávia e Gigi: duas descalças, duas histórias, um terminal



Fim de tarde no terminal de Lagoa da Italianinha. Terra no chão, ônibus parados, e duas mulheres frente a frente. Descalças.

De um lado, Flávia. 

Hoje advogada e vereadora. Camisa vermelha, calça preta suja de barro. O povo esquece, mas Flávia já dormiu nesse mesmo chão. Já foi mendiga. Já comeu do que achava. Já ficou sem banho, sem porta, sem nome. Estudou de madrugada, passou na OAB, entrou na política. E nunca tirou o pé do chão. Literalmente.

Do outro, Gigi. 

Jardineira jeans e camiseta branca suja. Cabelo solto, mão aberta falando. Gigi também vive na rua. Mas diferente de Flávia, ela não quer sair.

E foi por isso que a conversa ficou tensa.

"Gigi, vem pro abrigo pelo menos enquanto chove", disse Flávia, a voz baixa. "Eu consegui verba. Tem cama, tem comida, tem banheiro. Você não precisa mais passar por isso."

Gigi balançou a cabeça e deu um passo pra trás.

"Flávia, eu te respeito. Você saiu e deu certo. Mas eu não quero casa. Eu não quero regra. Eu quero a rua. É aqui que eu sou livre. É aqui que ninguém manda em mim."

Silêncio. 

Flávia entendeu. Porque ela sabe como é. Sabe o frio, a fome, a humilhação. E sabe também o peso de ter que se encaixar.

"Então me deixa te ajudar do seu jeito", Flávia respondeu. "Banho quando quiser. Documento. Atendimento. Sem te tirar da rua. Só pra rua não te matar."

Gigi olhou nos olhos dela. Duas mulheres que já dividiram o mesmo barro, agora em lados diferentes da mesma luta.

"Tá. Mas sem promessa de abrigo, viu?"

E as duas ficaram ali. Uma querendo tirar a outra da rua. A outra escolhendo ficar.

Lagoa da Italianinha viu essa cena e entendeu: nem todo mundo que está na rua quer sair. E nem toda vereadora esquece de onde veio.

Flávia virou as costas e foi pro gabinete. Gigi ajeitou a jardineira e seguiu pro viaduto. 

Mesmo chão. Caminhos diferentes.


Alice, o cachorro e as duas irmãs: Wellia e Malu

 


Na foto, fim de tarde. Rua tranquila, folhas no chão e sol batendo de lado. 

Alice vai correndo, blusa rosa, jeans e sorriso aberto. Do lado dela, o cachorro que ganhou de presente. Lingua pra fora, rabo abanando, coleira na mão dela. Leveza total.

Só que por trás dessa cena simples tem uma história de família.

O presente veio de Wellia. 

A mãe. A vilã da cidade. Mulher de negócio frio, olhar duro e fama de não perdoar. Wellia deu o cachorro pra Alice. Dizem que foi pra "educar a menina pra responsabilidade". Dizem que foi pra mostrar que até vilã tem coração. Ninguém sabe.

O que todo mundo sabe é que Alice se dá melhor com a tia Malu. 

Malu é irmã gêmea de Wellia. Mesma cara, alma diferente. 

Enquanto Wellia fecha contrato, Malu abre a porta da cozinha. Enquanto Wellia cobra, Malu abraça.

É na casa da tia que Alice conta os segredos. É Malu quem leva ela pra passear, quem compra ração, quem ensina o nome dos comandos pro cachorro. 

"Tia, por que mãe é assim?" Alice pergunta. 

"Porque sua mãe esqueceu de ser criança, filha. Mas você não vai esquecer."

E ali, no passeio da foto, está tudo. 

O presente da mãe que não sabe demonstrar. 

O carinho da tia que sabe cuidar. 

E Alice no meio, crescendo, correndo, escolhendo ser leve mesmo com duas mulheres tão diferentes criando ela.

O cachorro não escolhe lado. Ele só abana o rabo pros dois. E talvez seja isso que a casa precise.

Porque família é isso: gêmeas opostas, uma menina no meio, e um cachorro pra lembrar que amor também late.



O celular da mendiga chique



Se você anda pelo centro de Lagoa da Italianinha, cedo ou tarde vai trombar com ela.

Warlla. 

Sentada na calçada, óculos escuros, cigarro na mão e o celular na outra. 

Terno vermelho. Camisa branca. Scarpin vermelho. Bolsa vermelha do lado. Tudo sujo de barro e tempo. Mas tudo vermelho. Porque madame não perde a pose nem na queda.

O povo conta que Warlla já foi rica. Mansão, festa, nome na cidade. Perdeu tudo. Negócio que deu errado, gente que sumiu, porta que bateu e apostas. E ela foi parar na rua.

Mas tem coisa que rua não tira: a postura.

Ela não pede. Ela conversa. 

Não aceita qualquer roupa. Lava, costura, combina. 

E agora, como mostra a foto, está ali com o celular na mão. Respondendo mensagem, vendo notícia, dando like na foto da sobrinha. 

"Eu posso não ter casa, mas cabeça eu tenho", ela diz.

O cigarro é pausa. O celular é ponte. 

É através dele que Warlla ainda fala com o mundo que foi dela. 

Tem gente que olha torto. "Mendiga com iPhone?"

Tem gente que respeita. "Aquela ali já foi alguém e continua sendo."

Warlla ensina sem querer: dignidade não é ter dinheiro. É não deixar a vida te transformar em menos do que você é.

Barro na roupa? Tem. 

Mas o batom vermelho continua intacto. 

O salto continua alto. 

E o celular continua na mão.

Porque Warlla pode ter perdido tudo, menos ela mesma.


O encontro: Lidyanny e Anna Paula frente a frente na praça



A praça estava cheia de sol. Bancos vazios, cafés abertos, gente passando. Mas no meio do calçamento, o tempo parou.

De um lado, Lidyanny. 

Vestido preto longo, bota, batom escuro. Cabelo loiro curtinho e uma estrela marrom na lateral da cabeça como assinatura. O olhar frio, direto, sem piscar. Vilã assumida. Não grita, não ameaça. Só encara. E quando ela encara, a cidade treme.

Do outro lado, Anna Paula. 

Veterinária. Camisa rosa, saia azul, sandália baixa. Cabeça raspada, postura firme. E nos braços, um gato rajado, protegido como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.

Elas se encontraram ali. Sem querer. Ou será que foi de propósito?

O gato olhou pra Lidyanny e se encolheu. Anna Paula apertou mais o abraço.

"Solta o caso dos animais da prefeitura, Lidyanny", disse Anna Paula, baixo mas firme. "Já chega de licitação fraudada e canil fechado."

Lidyanny sorriu de canto. Só um canto.

"Anna Paula... sempre salvando todo mundo. Até quando?" 

"Até o dia em que você parar", respondeu a veterinária.

Ninguém gritou. Ninguém encostou na outra. 

Era só o silêncio tenso entre duas mulheres que representam tudo o que a outra odeia. 

Lidyanny: poder, jogo sujo, interesse. 

Anna Paula: cuidado, vida, verdade.

As pessoas ao redor fingiam não ver. Mas todo mundo sentiu. Aquela praça ficou menor por alguns segundos.

No fim, Lidyanny virou e foi embora, salto batendo na pedra. Anna Paula ficou. Ajeitou o gato no colo e respirou fundo.

Porque tem briga que não se resolve com grito. Se resolve com presença.

E Anna Paula estava ali. De pé. Protegendo quem não tem voz.



Rita de Cássia e Dalila: chuva, rua e um amor de criança



Dia chuvoso em Lagoa da Italianinha. O chão brilhando, as vitrines embaçadas e a rua cheia de pressa.

No meio da correria, passa Rita de Cássia. 

Descalça. Calça jeans suja de barro. Blusa preta molhada grudada no corpo. E nos braços, bem segura, a Dalila.

Dalila é a boneca dela. Não tem roupa, não tem sapato. Mas tem nome, tem história e tem colo.

Rita tem mente de criança. O povo da cidade já conhece. Ela conversa sozinha, canta baixinho e dá "mamá" pra Dalila como se fosse de verdade. Quando chove, ela não corre pra debaixo da marquise. Ela anda. Devagar. Sentindo a água no pé e no cabelo.

"Tem que proteger Dalila da chuva, né?" ela diz pra quem parar pra ouvir. E abraça mais forte a boneca.

Tem gente que desvia o olhar. Tem gente que oferece pão. Tem criança que aponta e pergunta: "Mãe, por que a tia tá com uma boneca?"

Rita só sorri. Pra ela, o mundo ainda é simples. É rua, é chuva, é boneca, é cuidado.

Em Lagoa da Italianinha, Rita de Cássia virou paisagem. Mas não é invisível. O padeiro guarda um pedaço de pão. A dona da loja empresta o banheiro quando ela pede "por favorzinho". E na praça, tem sempre alguém que pergunta: "E a Dalila, tá bem?"

Porque mesmo em dia de chuva, mesmo com a vida dura, Rita ensina uma coisa que adulto esquece: cuidar.

Cuidar de quem a gente ama, mesmo que seja uma boneca. 

Cuidar com a mão, com o colo, com a paciência de criança.

Rita e Dalila caminham juntas. Molhadas, descalças, mas juntas.

E talvez seja isso que falte pra gente: um pouco da mente de criança da Rita num dia de chuva.



O poder da aeromoça



Domingo no lago. Decisão rápida: "Bora se molhar, filho?"

Valéria, aeromoça, e Samuel entraram na água de roupa e tudo. Igual criança. Igual mãe e filho que não perdem a chance de brincar.

Só que quando saíram, aconteceu a parte que Samuel ainda não entende.

Ele saiu pingando. Camiseta encharcada, bermuda pesada, cabelo escorrendo. O menino típico depois do banho de lago.

Valéria? 

Saiu, balançou o cabelo, deu dois passos... e estava seca. 

Blazer preto impecável. Camisa azul sem uma marca d’água. Calça social e até o salto alto intacto. Como se nunca tivesse entrado no lago.

Samuel parou na margem e olhou pra mãe: 

"Mãe... como você faz isso?"

Valéria só riu e estendeu a mão pra ele.

"Filho, é o trabalho. Depois de anos entrando e saindo de avião, com conexão em cima da outra, a gente aprende a se virar. A água não pode me atrasar."

Ela chama de "poder da aeromoça". Samuel chama de magia.

A verdade é que Valéria aprendeu a resolver tudo rápido. Mala, voo, fuso horário, casa, filho. Se molhou? Seca. Se atrasou? Corre. Se sujou? Resolve. 

Agora os dois estão voltando pra casa pela estrada de barro. Ele todo lambuzado de lama e orgulho do banho. Ela limpa, sorrindo, olhando pra ele de lado.

"Mãe, me ensina esse poder?" 

"Te ensino sim. Começa secando essa roupa e deixando de pisar em poça."

E os dois riem.

Porque no fim, o verdadeiro poder da Valéria não é secar rápido. 

É transformar qualquer banho de lago em memória, e qualquer dia corrido em tempo com o filho.


A coragem de Sara Jéssica

 



7h da manhã. Diner antigo, banco vermelho, piso xadrez e cheiro de café passado.

Na mesa do canto está Sara Jéssica. 

Jardineira jeans, blusa branca, tênis limpo e uma caneca nas duas mãos. Cabeça raspada, postura reta. Antes de encarar o dia, ela toma o café dela em silêncio.

Filha da juíza Suely, Sara cresceu vendo a mãe dizer que beleza é escolha. E escolheu a dela: careca. Igual à mãe. Por opção. 

"Meu cabelo não me define. Minhas atitudes definem", ela costuma dizer.

E olha as atitudes dela...


Sara é modelo. Anda na passarela de cabeça raspada, batom forte e atitude. Quebra padrão e mostra que elegância não depende de peruca.

Sara é empresária. Tem uma marca de roupas autorais aqui em Lagoa da Italianinha. Peças simples, confortáveis e com caimento pra todo tipo de corpo. "Roupa tem que caber na vida da gente", diz ela.

E Sara é vereadora. A mais jovem da câmara. Chega cedo, ouve o povo, e não tem medo de votar contra quando precisa. Herdou da mãe o senso de justiça e o jeito direto de falar.

Na foto ela está só tomando café. Mas é nesse intervalo que ela se prepara pra três trabalhos. 

Pra desfilar e representar mulheres que não se veem nas revistas. 

Pra abrir a loja e gerar emprego. 

Pra ir pra câmara e cobrar escola, saúde e respeito.

O garçom já sabe: "o de sempre, Sara?". Ela sorri, agradece, e sai. Jardineira, tênis e cabeça erguida.

Sara Jéssica prova que dá pra ser muitas coisas ao mesmo tempo. E que ser careca, ser mulher e ser jovem na política não é frescura. É escolha. É força.

É café antes da luta.

Amizade que a vida aprova



Em Lagoa da Italianinha tem amizade que não cabe em rótulo.

É a amizade de Valdenes e Branquinha.

Valdenes foi morador de rua por anos. Hoje anda pela cidade descalço, com a camisa sempre na mão e um sorriso que já viu muita coisa. Conhece cada pedra da lagoa, cada trilha da cachoeira, cada canto onde a água é mais fria.

Branquinha é o oposto no papel: jovem, publicitária, família rica. Anda de chinelo, cabelo solto, e largou a agência da capital pra abrir um estúdio pequeno aqui na cidade. Podia viver de salto e reunião. Mas prefere reunião descalça ou de chinelos. 

E foi assim que os dois se encontraram.

Numa tarde de calor, os dois estavam na lagoa. Branquinha tinha largado os chinelos na margem. Valdenes já estava na água. Começaram a conversar. De água, de vida, de livro, de política, de nada.

De lá pra cá virou rotina. 

Quando a cabeça pesa, eles se encontram na lagoa ou na cachoeira. Entram de roupa e tudo. Ele de camisa verde, ela de preto. Ficam ali, na altura do peito, deixando a correnteza levar o que não presta.

E conversam. Muito.

Branquinha conta sobre cliente difícil e campanha nova. Valdenes conta história da rua, de gente, de como sobreviver com pouco e ser feliz com menos ainda. 

Ninguém dá palestra. Ninguém salva ninguém. Eles só trocam.

O povo da cidade no começo estranhou. "O que uma menina rica quer com ele?" "O que ele tem pra ensinar pra ela?"

Hoje ninguém pergunta mais. Porque quem vê os dois rindo na água entende: amizade sincera não mede conta bancária, nem passado, nem sobrenome.

Os dois têm hábitos simples. 

Ele anda descalço porque diz que "pé no chão lembra de onde a gente veio". 

Ela usa chinelo porque "vida boa é vida leve". 

E os dois mergulham juntos porque a água é o único lugar onde todo mundo é igual.

Valdenes e Branquinha provam que Lagoa da Italianinha é pequena, mas o coração do povo é grande.

Aqui amizade não escolhe classe. Escolhe verdade.


*

Wrialle e Fabiana: uma história de dois países, um só amor



Na foto, Filadélfia, 1827. Luz entrando pela janela, móveis de madeira, retratos na parede. Sentados no sofá, lado a lado, estão Wrialle, 73 anos, e Fabiana, 70.

Mas a história deles começa muito antes e cruza o Atlântico duas vezes.

Wrialle era jovem quando pegou em armas. Lutou na Revolução Americana pela independência dos Estados Unidos. Depois da guerra, com o coração inquieto, decidiu atravessar o oceano. Veio parar em Vila Rica, no Brasil. Minas Gerais, ouro, igrejas barrocas e uma vida completamente diferente da que ele conhecia.

Foi lá que ele conheceu Fabiana, uma simples camponesa. 

Dizem que foi num baile, dizem que foi na porta da igreja. O que importa é que os dois se acharam. Ele com o sotaque estrangeiro e as histórias de batalha. Ela com a força das mulheres de Vila Rica. Casaram, construíram família e criaram raízes.

O tempo passou. Filhos cresceram. 

Alguns ficaram no Brasil, em Vila Dourada, uma cidade recém emancipada em Pernambuco. Plantaram chão, formaram família e deram continuidade ao sobrenome por aqui.

E Wrialle e Fabiana? 

Em 1824, já idosos, decidiram voltar. Pegaram a estrada de volta para os *EUA*. Aos 73 e 70 anos, como mostra essa foto, eles estavam em Filadélfia novamente. Cansados? Talvez. Mas com o olhar de quem viveu duas vidas em uma só.

Olha pra eles na imagem. Ele de casaca, sério, mas com a mão perto da dela. Ela de vestido de seda, postura firme, olhando pra ele como quem diz: "a gente conseguiu".

São duas cabeças brancas, dois países no currículo e uma família espalhada entre Pernambuco e a América.

Wrialle e Fabiana provam que lar não é um lugar. Lar é com quem você escolhe envelhecer.

E que história cabe numa única fotografia, né?


Fabíola e seus livros


Se você for ao centro de Lagoa da Italianinha num sábado de manhã, é capaz de ver ela.

Vestido rodado até o joelho. Luvas brancas. Chapéu com véu. Salto impecável. E nos braços, uma pilha de livros antigos que ela jura que "não se lê em Kindle".

Essa é a Fabíola. A vintage maluca da cidade.

Fabíola vive como se fosse 1955. De propósito.  

Enquanto todo mundo corre de tênis, fone e mochila, ela atravessa a rua com a postura de quem saiu de um filme em preto e branco. Cumprimenta o padeiro de "bom dia, senhor". Pede "por obséquio" na farmácia. E paga tudo com dinheiro trocado, guardado numa carteira de couro, dirige fusca e só escreve em uma máquina de escrever. 

“Eu não sou doida, eu sou de outra época”, ela diz rindo.

O contraste fica mais bonito ainda aqui. Porque Lagoa da Italianinha é moderna. Tem food truck, tem Wi-Fi na praça, tem grafite no muro da escola. E no meio disso tudo, Fabíola. 

Um vestido branco cortando o calor, os livros debaixo do braço, e aquele batom vermelho que não borra nem com o vento da serra.

As crianças acham que ela é personagem. Os idosos chamam ela de "minha senhora". E os jovens? Os jovens param pra tirar foto. Porque Fabíola lembra todo mundo de uma coisa que a gente esqueceu: elegância não sai de moda.

Ela carrega livros porque diz que "ideia boa precisa de peso". Carrega chapéu porque "cabeça merece coroa". E carrega essa personalidade porque "viver é chato demais pra ser igual".

Fabíola não está presa no passado. Ela trouxe o melhor do passado pra hoje.

E Lagoa da Italianinha ficou mais bonita por causa disso.



Ilene, Isaías, Dina e Suely: beleza é escolha


 

Na casa de Suely teve visita da irmã Ilene com o filho Isaías.

No meio da conversa, Isaías olhou pra prima *Dina* e zombou:

“Você parece um ET”.

Dina e Suely são carecas. Mas não por tratamento. Por opção mesmo. Elas gostam assim. Se acham lindas, práticas e livres.

O rosto de Suely, que é juíza, ficou sério na hora.

“Irmã, educa teu filho. Aqui em casa a gente respeita a escolha do outro.”

Ilene ficou sem graça. Puxou Isaías e foi embora.

Depois que as duas saíram, Suely sentou com Dina. Brincando, disse:

“E aí, que tal deixar crescer um pouquinho o cabelo?”

Dina riu, passou a mão na cabeça e respondeu:

“De jeito nenhum, mãe. Eu amo ser careca. E linda. Igual você.”

E as duas se olharam e sorriram. Porque pra elas, beleza não é padrão. É escolha.

Mais tarde Ilene ligou. Disse que conversou com Isaías sobre respeito. Sobre não zoar o corpo e as decisões dos outros. Porque o que é diferente pra uns, é autoestima pra outros.

Dina continua a mesma: vaidosa, de brinco grande, batom vermelho e cabeça raspadinha.  

Suely também. Duas mulheres que decidiram que careca é poder.


Fica a reflexão:

Zoar não educa. Respeitar educa.  

E ser feliz do seu jeito incomoda quem ainda não se encontrou.


Lúcia e Cássia: uma conversa no centro de Lagoa da Italianinha



O centro de Lagoa da Italianinha num fim de tarde tem disso: movimento, gente passando, e no meio de tudo, histórias que acontecem bem ali, sentadas no meio-fio.

Foi assim que Lúcia encontrou a irmã Cássia.

Lúcia viu Cássia de longe, sentada na calçada, descalça, com a calça cheia de lama nos joelhos. Cássia estava quieta, chupando o dedo, olhando pro chão. É um jeito que ela tem desde pequena quando o mundo fica barulhento demais.

Lúcia não gritou. Não fez cena. Só sentou do lado.

“Oi, mana. O que aconteceu?”

Cássia tem transtorno mental. E junto com isso vem o jeito dela de se acalmar: tomar banho de chuva quando o céu abre, se molhar no rio, brincar no chafariz da praça, e às vezes se sujar de lama. Pra muita gente isso parece “estranho”. Pra Cássia é jeito de sentir o mundo, de esfriar a cabeça, de ser livre.

Naquele dia Lúcia precisava conversar sério. Conversar de irmã mais velha que se preocupa, que carrega medo junto. Conversar sobre remédio, sobre consulta, sobre voltar pra casa antes de escurecer. 

Cássia ouvia. De vez em quando tirava o dedo da boca só pra balançar a cabeça. Não respondia com muitas palavras, mas ficava ali. Presente.

A conversa não resolveu tudo. Conversa séria com quem a gente ama raramente resolve tudo num dia só. Mas resolveu o mais importante: as duas ficaram juntas.

Lúcia sabe que cuidar de Cássia não é sobre “consertar”. É sobre caminhar junto. É sobre entender que o banho de chuva acalma, que a lama não é sujeira é sensorial, que o chafariz é terapia. E também é sobre limite, cuidado, e rede de apoio.

Quando terminaram de conversar, Lúcia esticou a mão. 

“Vamo pra casa, mana? Te empresto uma sandália.”

Cássia sorriu. Se levantou. E as duas foram embora lado a lado pelo centro, com o sol já se pondo atrás das casas de Lagoa da Italianinha.


Sobre saúde mental: 

Cuidar é também acolher os jeitos diferentes de cada pessoa. Se você conhece alguém que precisa de apoio, procure um CAPS, UBS ou profissional de saúde. Conversar e não abandonar faz diferença.



Danuzia, a banheira e o convite mais divertido do mundo



Na casa da família tem sempre aquela pessoa que quebra o gelo. Que transforma o comum em história pra contar depois.

Na casa da tia Ana Patrícia, essa pessoa é a *Danuzia*.

Era uma tarde quente. Aquelas tardes de domingo que só pedem água, risada e nada de fformalidade. Ana Patricia queria tomar banho. Ela disse:

"Vou tirar a roupa pra ir para a banheira!"

Danuzia disse:

“Oxe, tia, tirar a roupa pra que? Entra de roupa feito eu! É muito bom!” 

Ana Patrícia parou na porta do banheiro e riu. Estranhou, claro. Quem é que entra na banheira vestida? Mas Danuzia fazia aquilo direto. Pra ela, tomar banho de roupa era bonito. Era liberdade. Era se jogar sem se preocupar se o cabelo ia molhar ou se a blusa ia grudar.

“Mas Danu, a roupa vai ficar toda molhada...”  

“E daí, tia? Depois a senhora estende no varal!”

E foi assim que, entre um “tô com vergonha” e outro “para com isso Danu”, Ana Patrícia acabou cedendo. Entrou na banheira. De roupa. Igual a Danuzia.

Nos primeiros segundos foi estranho. A água fria, a roupa pesada. Mas 30 segundos depois? Só tinha risada. Salpicos. Foto torta pro grupo da família. E uma lembrança que vai virar clássico nas festas.

Danuzia não estava ensinando ninguém a tomar banho. Ela estava ensinando a não levar a vida tão a sério. A achar bonito o que é diferente. A convidar mesmo quando a resposta pode ser “não”.

Hoje Ana Patrícia conta essa história e já fala: “Eu achei estranho no começo... mas com a Danuzia a gente acaba entrando na brincadeira”.

Porque tem gente que entra na banheira de roupa.  

E tem gente que te puxa junto, pra você descobrir que também é divertido.

Malu e o encontro que mudou uma tarde em Lagoa da Italianinha



Tem gente que passa pela vida correndo. E tem gente que para.

Malu é veterinária. Mas antes de qualquer diploma, CRMV ou jaleco branco, ela é daquelas pessoas que param.

Foi numa terça-feira comum que isso aconteceu em Lagoa da Italianinha. Malu estava voltando da clínica, com a cabeça cheia de consultas, vacinas e um plantão ainda pela frente. O sol já baixava e pintava o céu da serra de laranja.

No meio do caminho de terra, encostado na sombra de uma árvore, estava ele: um vira-lata caramelo, magro, com o pelo cheio de poeira e um olhar que misturava medo e cansaço.

A maioria só olha e segue. Malu parou o carro, que era digerido por seu namorado Vinícius. 

Ela desceu com a caixa de primeiros socorros que vive no porta-malas — porque veterinária nunca desliga de verdade. O cachorro recuou no começo, assustado. Malu não forçou. Sentou na terra, abriu um pacote de biscoito e começou a conversar com ele, como conversa com seus pacientes: com calma, com respeito.

“Oi, garoto... tá doendo? Vem cá...”

Aos poucos a confiança veio. Era desidratação, algumas feridas nas patas e muita fome. Malu limpou os machucados ali mesmo, deu água, ofereceu comida e o levou no banco de trás. Não tinha como deixar ele ali.

Na clínica, depois do expediente, ela fez curativo, vermífugo e uma boa tosa. Deu um nome pra ele: Italianinho. Em homenagem ao lugar onde se encontraram.


Italianinho ficou 15 dias em lar temporário na clínica da Malu. Ganhou peso, pelo brilhoso e um rabo que não parava de abanar. Hoje ele tem uma família. Dorme em cama, come todo dia e corre na Lagoa toda manhã.

Malu diz que não fez nada demais. "Eu só parei", ela fala, dando de ombros.

Mas é exatamente isso que faz a diferença.

Em Lagoa da Italianinha, onde todo mundo se conhece e a vida corre no ritmo da serra, a história da Malu e do Italianinho virou conversa de padaria. Porque às vezes o ato mais simples — parar pra cuidar — é o que transforma o dia de alguém. De um cachorro. E até o nosso.


Se você encontrar um animal de rua:

Água, comida e, se possível, ajuda veterinária. E se não puder adotar, compartilhe. Um lar pode estar a um post de distância.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Danuzia tenta humilhar Sayonara

 


Praça 27 de Dezembro, Lagoa da Italianinha. 9h da manhã. 

Sol batendo no banco da praça e cheiro de café vindo da padaria.

No banco, Sayonara. Conhecida na cidade como "mendiga limpa". 

Cabelo preso, roupa lavada no chafariz, descalça. Do lado dela, um lençol dobrado e uma sacola com sabonete, shampoo e toalha.

O povo dizia: "Sayonara dorme em cima de lençol e toma mais banho que muito casado".

Parou um carro preto. Desceu Danuzia. 

Madame. Salto alto, óculos escuros, bolsa de grife, colar de ouro no pescoço. Mesmo às 9h da manhã.

Ela vinha da reunião do comércio e passou pela praça só pra "ver o movimento".

Bateu o olho em Sayonara. Franziu a cara.

"Aí não. Isso é um absurdo. Isso é um atentado ao turismo da cidade."

Chegou perto. Parou na frente do banco.

Danuzia cruzou os braços. "Moça. Você. Levanta."

Sayonara olhou. Não levantou. "Bom dia, dona."

"Bom dia nada", Danuzia apontou pro lençol. "Isso aqui é praça pública. Não é quarto de hotel. E essa história de 'mendiga limpa'... pelo amor de Deus. Vocês são tudo igual. Sujeira é sujeira."

Pegou mais alto, pra todo mundo ouvir.

"Eu pago imposto. Eu gero emprego. E aí eu tenho que ver isso aqui? Dormindo em lençol como se fosse gente fina? Banho todo dia? Pra quê? Pra enganar os outros?"

Algumas pessoas pararam. Leila, uma vendedora de picolé, fingiu que não viu.

Sayonara continuou sentada. Ajeitou o lençol no colo.

"Eu tomo banho porque gosto, dona. E durmo em lençol porque minha mãe me ensinou. Mesmo na rua, cama limpa é dignidade."

Danuzia riu com deboche. "Dignidade? Dignidade é trabalhar. É ter casa. É ter nome. O teu é Sayonara? Nome de novela. Deve ser apelido de cadeia."

Sayonara levantou devagar. Esticou o lençol e dobrou com cuidado.

Guardou o sabonete na sacola.

Olhou pra Danuzia dos pés à cabeça. Do salto ao colar.

"E a senhora? Com esse ouro no pescoço às 9h na praça... tá com medo de alguém achar que tá pobre?"

O pessoal que tava ouvindo segurou o riso.

"Eu não peço nada pra senhora", Sayonara continuou. "Eu lavo minha roupa. Eu varro meu canto. Eu não sujo a praça. O que tá incomodando? É eu ser pobre ou é eu ser limpa?"

Danuzia ficou vermelha. "Você tá sendo insolente!"

"Insolente é achar que dinheiro dá o direito de humilhar", disse Sayonara, calma.

Pegou a sacola. Fez uma reverência irônica.

"Tenha um bom dia, madame. E se quiser, o chafariz tá funcionando. Banho faz bem até pra alma."

Virou e foi embora. Descalça, pisando devagar.

Danuzia ficou parada. Com o povo olhando. 

Leila, a vendedora de picolé soltou: "A mendiga deu aula, madame."

Danuzia entrou no carro batendo a porta. Mas não falou mais nada.

Naquela tarde, alguém escreveu com giz no banco da praça:

"Aqui senta Sayonara - A Mendiga Limpa. Respeito é pra quem tem."

E Danuzia nunca mais parou o carro ali às 9h.

Em Lagoa da Italianinha o povo aprendeu:  

Dignidade não tem endereço.  

E humilhar quem é limpo só mostra quem tá sujo por dentro...



Quer que eu transforme isso em crônica, em cena pra teatro ou em texto pra rede social?

Confusão na lanchonete da rodoviária


Wedja bebendo, Valdenes desenhando,  a mendiga Solange molhada porque tinha tomado banho no chafariz e Marlene tentando pôr ordem.

Wedja viu Solange molhada e apontou o dedo.

"Olha ela! Tomando banho no chafariz! Isso é falta de educação! Isso é coisa de..."

Solange sorriu, espremendo a blusa. "É coisa de quem tava com calor, minha filha. Quer um banho também? Tá de graça."

Wedja bufou e virou pro Valdenes. "E tu? Artista? Desenhando bêbada? Me desenha bonita!"

Chegou perto e derrubou o café de Valdenes com a bolsa.

O café preto espalhou no caderno dele. No chão. No pé dele.

Valdenes olhou pro café. Olhou pro desenho. Olhou pra Wedja.

Respirou fundo. "Pronto. Acabei de criar minha nova obra. Chama: 'Café Derramado Sobre a Hipocrisia'."

Wedja achou que era elogio. "É? Eu sou hipocrisia? Obrigada, lindo!"

Marlene bateu o rolo de massa no balcão. O barulho ecoou na rodoviária inteira.

Todo mundo parou.

"Solange, seca esse cabelo que tu vai gripar.  

Valdenes, limpa esse café e vende esse desenho que tá bonito.  

Wedja, senta ali e toma uma água. Bêbada não pega ônibus e não enche meu saco!"

Wedja fez biquinho. "Mas Marlene..."

"Mas nada! Ou tu senta ou eu te sirvo de pastel e tu paga dobrado."

Wedja sentou. Resmungando. 

Solange pegou uma toalha que Marlene jogou pra ela. 

Valdenes pegou outro copo de café. Olhou pra poça, pra Wedja bêbada, pra Solange pingando. 

E começou a desenhar de novo.

10 minutos depois o ônibus chegou.

Valdenes mostrou o desenho pra todo mundo: era a rodoviária. Solange saindo do chafariz, Wedja de braço aberto bêbada, Marlene com o rolo na mão igual juíza.

No canto, ele mesmo, descalço, tomando café.

Vendeu o desenho pro motorista por 30 reais e um café.

Marlene gritou: "Próximo pastel com 50% de desconto pra quem se comportar!"

E Valdenes ficou na plataforma. Pé no chão. Desenhando o ônibus indo embora. 

Depois da confusão, tudo normalizou. Valdenes levou Wedja pra casa dela, Solange foi perambular pelas ruas e Marlene foi cuidar de fechar sua lanchonete. 


Danuzia e seu colar de ouro


Na mansão da Danuzia, em Lagoa da Italianinha, o banheiro é do tamanho de uma sala. Banheira de mármore, espelho até o teto, torneira que solta água com cheiro de lavanda.

E lá dentro, na água, estava ela.

Danuzia. A vilã da cidade. Herdeira, empresária, invejada e temida.

Só que Danuzia não toma banho normal. 

Ela tomava banho "completa".

Dentro da banheira: blusa social preta, paletó preto, saia preta, sapato salto alto preto. Tudo molhado, grudado no corpo. A água subindo até o pescoço.

Na porta, encostada, a tia. Ana Patrícia. Irmã do pai dela. 

"Tia, chega mais", disse Danuzia, sem nem olhar. "Quero te mostrar uma coisa."

Ana Patrícia fez cara de nojo. "Filha, tu tá doida? Banho é pra tirar roupa. E tu com esse salto dentro d’água... vai escorregar."

Danuzia riu. Molhou a mão e jogou água no próprio paletó.

"Escorregar? Jamais. Eu sou chique até na água, tia. Eu só tomo banho assim."

Levantou um pouco na banheira. A saia boiou. O salto afundou e fez "ploc".

E aí ela puxou do pescoço. 

Um colar de ouro. Grosso. Brilhando mesmo molhado. Pingente grande, com as iniciais D.B.

"Olha isso aqui, tia", ostentou, erguendo o colar pra luz. A água escorria pelo ouro. "Acabei de comprar. 80 mil. À vista."

Ana Patrícia arregalou os olhos. "Danuzia! 80 mil num colar?! E tu usando pra tomar banho?!"

"Claro", Danuzia encostou na borda da banheira, como quem posa pra foto. "Ouro não desbota, tia. E eu não tiro nunca. Nem pra dormir, nem pra trabalhar, nem pra... me limpar."

Girou o pescoço devagar. O colar fez barulho de riqueza.

"Sabe por quê? Porque gente como eu não pode aparecer sem nada. Se eu tirar o colar, as pessoas vão achar que eu tô quebrada."

Ana Patrícia balançou a cabeça. "Ostentação até dentro da banheira. O povo tá passando fome lá fora e tu aqui, de salto, lavando ouro."

Danuzia deu de ombros. Pegou o sabonete líquido e passou por cima da blusa social.

"Problema do povo, tia. O meu problema é manter o padrão. É chique, é poder, é isso que intimida."

Levantou. A água desceu pelo paletó. O salto fez barulho no mármore molhado.

Parou na frente do espelho, ainda pingando.

"Viu, tia? Até saindo do banho eu pareço capa de revista. Com ou sem água."

Danuzia ficou sozinha. Se olhou no espelho. Ajeitou o colar de ouro no pescoço molhado.

Sorriu.


*_Porque pra Danuzia, vilã não descansa.  

Vilã ostenta. Até dentro da banheira._*


Quer que eu transforme isso em cena de novela, em crônica de humor ou em monólogo teatral da Danuzia?

Myllena barrada em restaurante por estar descalça




A estrada entre Vila Dourada e Lagoa da Italianinha é quente. Asfalto derretendo, caminhão passando, poeira subindo.

E bem no meio, inaugurou mês passado o Restaurante Sabor da Beira". Mesas de plástico, toalha xadrez, cheiro de galinha guisada. Recém-aberto. Placa nova.

Era meio-dia quando Myllena parou lá. 

Ex-prefeita de Lagoa da Italianinha. 5 anos de mandato. E agora pré-candidata a deputada estadual. Cabelo solto, blusa socal, calça social. 

E os pés. Os dois pés descalços no chão quente do estacionamento.

Myllena entrou direto. Sentou numa mesa perto da janela. Pediu: "Um sanduíche e um suco de acerola, por favor."

O gerente, rapaz novo, camisa do restaurante, chegou apressado.
"Moça... com licença. Aqui a gente tem uma regra. É obrigatório o uso de calçados."

Myllena olhou pra baixo. Olhou pros próprios pés. Olhou pra ele.
"Eu não uso."

O gerente ficou vermelho. "É norma da vigilância, da prefeitura... higiene. Se a senhora não calçar, eu não posso servir."

Na mesa do lado, um motorista de caminhão cochichou. Na cozinha, alguém parou de fritar.

Myllena ajeitou na cadeira. "Meu nome é Myllena. Fui prefeita de Lagoa da Italianinha por 5 anos. E sou pré-candidata a deputada. Nunca usei sapato na vida. Não quero. Pé no chão é minha escolha desde menina."

O gerente gaguejou. "Dona Myllena... desculpa, eu não sabia. Mas a regra é pra todo mundo. O restaurante é novo, a gente não pode arriscar multa."

"Então a regra é mais importante que a pessoa?", perguntou ela, calma.

Ele não respondeu. Só apontou pra porta. "Desculpa."

Myllena levantou. Sem brigar. Sem gritar. Pegou a bolsa e saiu. Os pés levantando poeira no estacionamento.

Duas horas depois o vídeo já estava no grupo de WhatsApp de Lagoa da Italianinha.

Uma cliente tinha filmado. "Barraram a ex-prefeita por estar descalça."

Os comentários explodiram. 
"Ela sempre foi assim!" 
"Respeito!" 
"Mas restaurante tem regra!"

Às 16h, Myllena fez uma live da calçada da casa dela. Pé no chão, no cimento frio.

"Gente, não é sobre comida. É sobre escolha. Eu não uso calçado porque não quero. Nunca usei. Minha mãe me criou assim na roça. O chão me ensina. Se eu for deputada, vou continuar entrando nas repartições, nas escolas, nas feiras do mesmo jeito."

Respirou fundo. 
"Eu não quero processar ninguém. O restaurante é novo, o rapaz tá com medo. Mas eu quero conversar. Porque se a gente barra uma mulher por causa do pé, amanhã barra por causa da roupa, da cor, da religião."

No fim da noite, o dono do "Sabor da Beira" ligou pra ela.
"Dona Myllena, me perdoa. A gente errou na forma. Quer vir almoçar aqui amanhã? Por nossa conta. E pode vir do jeito que a senhora quiser."

No outro dia Myllena voltou. Mesma roupa. E descalça.

Sentou na mesma mesa. Comeu o sanduíche. Pagou a conta.
"Eu pago", disse. "Porque respeito se compra, mas não se mendiga."

Tirou foto com o gerente. Ele sorrindo torto. Ela sorrindo de verdade.

Na saída, uma placa pequena apareceu na porta do restaurante, escrita à mão:
_"Aqui entra gente. De sapato, de sandália ou descalça."_

E Myllena seguiu campanha afora. De pé no chão. 
Porque pra ela, política também se faz sentindo o chão que o povo pisa.


Malu, Alice e Wellia na lagoa



Sábado de sol em Lagoa da Italianinha. Calor de rachar.

Malu e a irmã gêmea Wellia combinaram cedo: "Bora pra lagoa?" 

Wellia levou a filha, Alice. Cabelo trançado e boia de unicórnio na mão.

As três chegaram na beira da água juntas. Mesmo rosto, jeitos diferentes.

Wellia tirou a canga e ficou de biquíni. Florido, amarelo. Coisa de mãe que ainda quer pegar um sol.

Alice já saiu correndo: "Tia Malu, vem! A água tá quentinha!" De maiô rosa, com brilho.

Aí foi a vez de Malu.

Ela olhou pra lagoa, olhou pra irmã de biquíni, olhou pra sobrinha de maiô... e entrou.

De blusa e saia hippie. Saia longa, estampada, rodando no vento. Blusa de algodão, com bordado e franja. Pé descalço.

Wellia parou na beira. "Malu?! Tu vai entrar assim?"

Malu riu e já foi pisando na água. A saia boiou igual flor. "Vou. Hippie entra de hippie."

Alice ficou parada olhando. Depois deu risada e gritou: "Tia Malu virou sereia da saia!"

Wellia e Alice nadaram. Mergulharam, fizeram castelinho na areia, espirraram água.

Malu não nadou. Ela flutuou. De saia aberta, braço aberto, deixando a lagoa levar. A blusa ficou transparente, grudada, mas ela nem ligou. 

"É assim que eu sinto a água", disse. "Na pele e na roupa. Sem pressa de secar."

O povo na lagoa olhou. Uns estranharam. Outros acharam bonito. Uma senhora até falou: "Essa aí entrou pra benzer a lagoa."

Wellia nadou até a irmã. "Cansou de ser diferente?"

Malu espirrou água nela. "Cansar? Gêmea que é gêmea tem que ser diferente, senão pra que duas?"

Alice subiu nas costas de Malu. "Tia, me leva pra passear de saia-barco."

E lá foi Malu, com Alice nas costas, rodando na água rasa. A saia virou vela.

Na hora de ir embora, Wellia e Alice se enxugaram na toalha em 2 minutos. 

Malu ficou espremendo a saia. A blusa pingando. Demorou o triplo.

"Valeu a pena?", perguntou Wellia.

Malu olhou pra lagoa, pra filha da irmã rindo, pro sol baixando.

"Valeu. Eu não entrei pra tomar banho. Eu entrei pra lembrar que dá pra ser feliz até de roupa."

No carro, Alice dormiu no banco de trás. Wellia dirigindo. Malu na janela, com a saia ainda úmida.

Duas gêmeas. Uma de biquíni. Outra de hippie.

E uma menina no meio que aprendeu que na lagoa cabe todo tipo de traje. 

Desde que tenha alegria junto.

Dr. Carneiro tenta namorar com Mimi


Em Lagoa da Italianinha, se tem um homem conhecido por não gastar nem a vírgula, é Dr. Carneiro. 

Empresário. Dono de 2 depósitos de material de construção e de uma fama: "pão duro que range". 

Toma café requentado, reaproveita barbante, e na última eleição pagou santinho só na frente pra economizar tinta.

Aos 66 anos, resolveu que estava na hora de "namorar". 

E escolheu Mimi.

Noite de quarta. Sala do Dr. Carneiro. Mesa de jantar com toalha de plástico.

Na frente dele, o filho. Vereador Marco Aurélio. Camisa social, gravata e cara de quem já se arrependeu de ter vindo.

Dr. Carneiro abriu a conversa com um caderno e uma calculadora.

"Marco, senta. É assunto sério. É sobre investimento afetivo."

Marco suspirou. "Pai, de novo?"

"É a Mimi." O pai ajeitou os óculos. "Aquela mulher careca que anda com um pé calçado e outro descalço. Mora no sitio e trabalha na feira."

Marco quase cuspiu a água. "Pai?! A Mimi tem quase minha idade! E ela é... diferente. Careca por opção, anda com um pé calçado e outro descalço..."

"Justamente!", bateu o Dr. Carneiro na mesa. "Pensa comigo, filho. É uma oportunidade. Vantagem dos dois lados."

Tirou a calculadora.

"Primeiro: careca. Não gasta com xampu, condicionador, creme, salão. Zero de gasto mensal com cabelo. 

Segundo: um pé calçado, outro descalço. Eu só compro UM sapato pra ela. Um! É 50% de economia no calçado. Em 10 anos a gente economiza 24 pares!"

Marco passou a mão no rosto.

"Pai, namoro não é planilha. A Mimi é gente. E ela é quase da minha idade. Além dela ser doida do juízo... Vai ficar feio."

"Feio é gastar", disse Dr. Carneiro. "Além disso ela é discreta. Não pede nada. Não vai querer viagem, não vai querer bolsa. Pé no chão é mulher pé no chão. Economiza até na energia, porque não usa secador."

Marco se levantou. "Eu não concordo com isso não, pai. Deixa a mulher em paz. E se cuide."

Saiu batendo a porta. Dr. Carneiro ficou lá, somando de novo na calculadora.

Praça 27 de Dezembro.

Mimi estava sentada no banco. Careca, brilhando no sol. Pé direito com um sapato. Pé esquerdo descalço no chão. Lendo um livro.

Dr. Carneiro chegou todo arrumado. Camisa nova - primeira vez no ano. Levou uma rosa de plástico, porque "flor natural murcha e dá despesa".

"Boa tarde, Mimi." 

Ela levantou os olhos do livro. "Boa, Dr. Carneiro."

Ele pigarreou. Sentou do lado, deixando um espaço de 3 palmos.

"Vim te fazer uma proposta. Uma proposta de vida a dois. Econômica."

Mimi fechou o livro devagar.

"Olha, eu sou homem trabalhador. Tu é mulher simples. Eu notei que tu não gasta com bobagem. Careca, um pé descalço... isso é sinal de inteligência financeira. Comigo tu não vai passar necessidade. E eu não vou passar aperto com gasto."

Ele esticou a rosa de plástico.

"Que tal a gente namorar? Eu compro teu sapato. Só um. E o xampu a gente risca da lista."

O silêncio ficou pesado. 

Mimi olhou pra ele. Dos 62 anos, da rosa de plástico.

Respirou fundo.

"Dr. Carneiro, o senhor é mais velho que meu pai. Quase da idade do pai do meu pai. E o senhor tá me pedindo em namoro por causa de economia de xampu e sapato?"

Ele assentiu, orgulhoso. "É visão, Mimi."

"Pois eu prefiro gastar meu tempo com alguém da minha idade. Rejeito sua proposta, seu pão duro."

Dr. Carneiro voltou pra casa e cortou o café da tarde pra compensar o prejuízo da rosa.

E Mimi continuou na praça.

Porque em Lagoa da Italianinha tem gente que economiza dinheiro.

E tem gente que economiza dignidade. E Mimi não abre mão de nenhuma das duas.


Taline, Teane e o sonho do Museu de Inalda



Em Lagoa da Italianinha tem uma casa grande, de janelas altas e portão de ferro. Casa antiga. Do século XX. 

Foi adquirida por duas irmãs gêmeas. Taline e Teane.

Mesmo rosto, cabelo igual, voz parecida. O que muda é o jeito. Taline fala baixo e cuida dos papéis. Teane fala alto e cuida dos quadros.

E os quadros são a herança delas. 

Foram pintados por Inalda. A bisavó. Pintora alemã judia que fugiu da Europa e veio parar em Lagoa da Italianinha. Chegou nos anos 1920, comprou a mansão, plantou roseira no quintal e passou 40 anos pintando a cidade, o Agreste, as mulheres na feira, o céu de agosto.

Atualmente a casa tem cerca de 37 quadros guardados. Alguns na parede, outros enrolados, outros embaixo da cama. Todos assinados: _Inalda, 1934. Inalda, 1941._

Taline e Teane cresceram ouvindo a história. "Sua bisavó pintava pra não esquecer de onde veio. E pintava a gente pra gente não esquecer de onde chegou."

Há anos elas guardam tudo. Limpam com pano, passam veneno contra cupim, anotam em caderno. 

Agora querem mais. Querem abrir as portas.

O plano: transformar a mansão de Inalda no "Museu da Cultura Alemã de Lagoa da Italianinha".

"Não é só sobre a Alemanha", explica Taline, ajeitando um quadro de 1938 onde Inalda pintou a praça 27 de Dezembro. "É sobre imigração. Sobre judia. Sobre mulher artista. Sobre como uma alemã se apaixonou pelo Agreste."

"A casa tem tudo", completa Teane. "Tem os quadros, tem os pincéis dela, tem as cartas em alemão, tem a cozinha onde ela fazia strudel. Só falta abrir pro povo."

Na semana passada as gêmeas foram no gabinete da *prefeita Giovanna Victorya. De salto, caderno na mão e um porta-retrato com a foto de Inalda.

"Prefeita, a gente quer ajuda", disse Taline.

"Pra fazer um museu", emendou Teane. "Sem cobrar entrada. Pra escola, pra turista, pra quem quiser conhecer."

Giovanna ouviu calada. Olhou os quadros na foto. Uma paisagem da Lagoa, outra da igreja matriz, outra de uma mulher descalça na roça. Tudo com traço europeu e cor de Nordeste.

"Minha mãe Myllena falava da Inalda", disse a prefeita. "Dizia que ela doava quadro pra festa da padroeira. Mas nunca vi pessoalmente."

A prefeita prometeu visitar a mansão. "Se a casa tá de pé e os quadros também, a gente tem que mostrar. Cultura alemã em Lagoa da Italianinha? O povo precisa saber que nossa história não é só de um povo."

Hoje a casa continua fechada. Mas Taline passa o dia limpando vidro. Teane corre atrás de documento, de lei de incentivo, de parceria com universidade.

O sonho delas é simples: abrir a porta. Colocar plaquinha. Deixar criança de escola entrar e perguntar "quem foi Inalda?"

Porque Inalda foi uma refugiada que virou lagoense. 

E Taline e Teane são duas gêmeas que não querem deixar a memória da bisavó morrer dentro de quatro paredes.

Lagoa da Italianinha já teve prefeita descalça e prefeita de sapato.  

Agora pode ganhar um museu de uma pintora alemã guardado por duas gêmeas.

Se depender de Taline e Teane, a mansão do século XX vai voltar a ter visita. E os quadros de Inalda vão sair do escuro pra contar que Lagoa da Italianinha sempre foi casa de quem veio de longe.


O Silêncio de Solange



Em Lagoa da Italianinha, todo mundo conhece Solange. 

E ninguém conhece Solange.

Ela mora na rua. Há anos. Não tem barraca, não pede, não fala alto. Escolhe uma calçada diferente a cada noite. Dorme enrolada num lençol surrado, com uma sacola do lado servindo de travesseiro.

É conhecida por duas coisas: ser misteriosa e ser discreta. 

Não dá bom dia. Não conta história. Não briga. Passa o dia sentada na praça 27 de Dezembro, olhando o chafariz. Quando chove, some. Quando o sol volta, ela tá lá de novo. Como se tivesse brotado do chão.

O povo respeita. Deixa marmita na porta da igreja. Deixa água na calçada. Ela pega de noite, quando ninguém vê.

Foi numa terça-feira. Madrugada fria.

Alguém deixou uma marmita de alumínio na calçada da padaria, bem do lado onde Solange dormia. Arroz, feijão, frango e um pedaço de laranja por cima. Tava tampada, com um bilhete: "Pra quem precisar. Deus abençoe."

Solange dormia. Não viu quem deixou.

Quando o sol raiou, umas 5h30, ela abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi a marmita. Fria. Com orvalho em cima.

O povo que passava pra trabalhar parou e olhou. "Será que ela vai comer?"

Solange não olhou pra ninguém. Sentou na calçada mesmo. Tirou a tampa devagar, como se tivesse medo de assustar a comida.

Comeu com a mão. Devagar. Um grão de arroz de cada vez. Mastigava olhando pro chão. 

Não agradeceu em voz alta. Não chorou. Não fez discurso.

Só comeu. Até a última colherada de feijão. Até chupar o osso do frango. Até guardar a casca da laranja no bolso.

Quando terminou, lavou a marmita na torneira da praça. Devolveu limpa, do lado do lixo da padaria. Pra quem deixou, saber que foi usada.

Dona Claudines da padaria perguntou: "Solange, tava bom?"

Ela balançou a cabeça. Só isso. Um sim com os olhos.

Seu Zé do táxi disse: "Quem deixou comida pra tu, Solange?"

Ela encolheu os ombros. Continuou sentada.

Ninguém sabe de onde Solange veio. Ninguém sabe por que está na rua. Ninguém sabe se tem família.

O que o povo sabe é que naquela manhã ela comeu sem fazer cena. Sem humilhar quem deu e sem se humilhar por receber.

É isso que faz ela ser misteriosa. 

Porque em Lagoa da Italianinha, pobre grita. Rico grita. Político grita. 

Solange não. Solange come calada.

E quando o prato esvazia, ela some de novo. Até a próxima madrugada. Até a próxima marmita. Até o próximo silêncio.

Na rua, Solange não pede nada.  

Mas ensina tudo sobre dignidade.

Warlla dorme na rodoviária


Warlla, a "mendiga chique", passou a noite dormindo no Terminal Rodoviário em Lagoa da Italianinha. 

A loira havia bebido excessivamente na noite anterior, e embora prefira dormir em becos, não aguentou permanecer em pé e sequer conseguiu sair da rodoviária, caindo no sono.

O vigia da rodoviária estava incomodado com a presença dela, mas como o local estava deserto, decidiu deixá-la por lá. 

Mas por volta das 3h30 da manhã, Warlla foi acordada pelo vigia, pois nessa hora ja estavam saindo os primeiros ônibus do dia. Warlla disse:

- Não pode esperar mais não? Inventa de me acordar agora?

- Eu te deixei aqui até agora, mas tu tem que ir embora!

Resmungando muito, Warlla saiu dali e foi dormir do lado de fora, no pátio da rodoviária. 

Samuel brinca no rio


O maluquinho Samuel, conhecido pelo seu jeito despojado, desafiou sua família e foi mergulhar no rio que passa pela cidade de Lagoa da Italianinha. 

Sua mãe Valéria, que vive em Londres, por ser aeromoça, não se importa muito com as maluquices do filho. Ele também sonha em conhecer a Inglaterra um dia.

Alguns que viram Samuel no rio zombavam dele, e Samuel gritava:

- Estão rindo do que? Vão procurar lavagem de roupa!

A notícia chegou a Alice, a melhor amiga de Samuel. Mateus, que também gosta de Alice, disse a ela:

- Não sei o que tu vê nesse maloqueiro. Ele não bate bem do juízo!

- Sei lá, é isso que eu mais gosto nele... 

Samuel só saiu do rio duas horas depois.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O dia que Giuliana chegou no Recife


 

O navio encostou no porto do Recife numa manhã quente de setembro de 1939. O mundo lá fora pegava fogo com a guerra, mas aqui o sol batia forte no cais e o cheiro era de sal, café e gente com pressa.

No meio dos passageiros de terno e chapéu, uma mulher chamou atenção.

Giuliana, 30 anos. Vinda de Nápoles. 

Vestido simples de chita, cabelo preso num coque, mala de papelão na mão. E os pés. Os pés descalços no chão quente do cais.

O fiscal da imigração estranhou.

"A senhora perdeu o sapato?"

Giuliana sorriu, com aquele sotaque cantado do sul da Itália.

"Não perdi, moço. Eu não uso. Pé no chão é pra lembrar de onde eu venho."

Giuliana não era senhora. Era camponesa. Filha de quem plantava tomate e azeitona nas colinas perto de Nápoles.

Cresceu descalça na terra. Subia morro, carregava água, colhia no sol. Quando a guerra começou na Europa em 1939, o medo chegou primeiro que as bombas. O pai foi chamado. A casa ficou sem homem. O medo de fome ficou maior que o medo do mar.

Pegou o pouco que tinha, um endereço de um primo que já morava no Brasil e embarcou. Sozinha. Valente.

"Na Itália o chão era pedra e frio", ela contava depois. "Aqui o chão é quente. Então eu ando. Pra agradecer."

Chegar era difícil. Mulher, sozinha, sem dinheiro, sem sapato e falando italiano misturado com um português que aprendia no navio.

Mas Giuliana tinha duas coisas: coragem e mão pra trabalho.

Foi morar num cortiço na Boa Vista com outras famílias de imigrantes. No primeiro dia já arrumou serviço lavando roupa. No segundo, já estava na feira da Madalena vendendo macarrão que ela mesma fazia. Pouco depois arrumou emprego em uma casa de família. 

O povo olhava: "Aquela italiana anda descalça!".

As patroas diziam: "Menina, calça um sapato".

Ela respondia: "Sapato é pra quem esquece a terra. Eu não esqueço."

E andava. Descalça na Ladeira da Misericórdia, descalça no Mercado de São José, descalça na areia de Boa Viagem no domingo.

Em 1940, um homem tentou tomar a banca dela na feira. Giuliana não gritou. Pegou a vassoura e botou ele pra correr. 

"Na minha terra a gente espanta lobo e soldado. Tu acha que eu vou ter medo de valentão de feira?"

Virou conhecida. "A italiana descalça". 

Cozinhava pra 10 famílias. Ensinava as vizinhas a fazer molho de tomate. Costurava, remendava, partejava. Nunca cobrou de quem não tinha.

Dizia que tinha fugido da guerra pra não ver gente morrer de fome. Então aqui ela ia fazer o contrário: dar comida.

Em 1944, foi morar no agreste de Pernambuco,  no sítio Manicoba, atual Lagoa da Italianinha. 

Danuzia e Suely se enfrentam na rodoviária



A lanchonete da rodoviária de Lagoa da Italianinha às 14h continua sendo campo minado. Café fraco, cadeira de plástico e gente esperando ônibus com mala no colo.

Foi lá que Danuzia trombou com Suely.

Danuzia. A vilã. Madame de salto agulha, bolsa de marca, cabelo de salão e óculos escuros dentro do terminal. Filha do deputado estadual Moab. Não trabalha. "Vive de administrar os bens da família", segundo ela. Na prática, vive de cartão black e de apontar defeito nos outros.

Suely. A juíza. Careca por opção. Cabeça raspada, brilhando. Descalça. Pé no chão frio da rodoviária, saia longa e blusa social, esbanjando elegância mesmo na simplicidade. Sem batom, sem joia, sem pose. Acabava de sair de uma audiência itinerante e ia pegar o ônibus de volta pro fórum.

O encontro foi inevitável. Só tinha 2 mesas livres.

Danuzia chegou primeiro. Jogou a bolsa Gucci na cadeira, pediu água com gás importada e salada sem tempero. 

Quando viu Suely entrando descalça, torceu o nariz até a alma.

Suely sentou na mesa do lado. Pediu café e pão com manteiga. Colocou os pés descalços debaixo da mesa.

Danuzia não aguentou 2 minutos.

"Com licença", disse, com aquele veneno doce de quem nunca pegou no batente. "Aqui é lugar público, né? Mas tem um mínimo de higiene. Andar descalço em rodoviária... onde passa rato, barata... gente que não tem condição..."

Suely nem levantou os olhos do café. Soprou.

"O chão tá limpo. Meus pés também. E condição eu tenho de sobra pra escolher como ando."

Danuzia riu alto, olhando pros outros da lanchonete.

"É opção, né? Essa moda de careca... parece que saiu do SUS. Se tá doente, devia era tá em casa. Meu pai é deputado, sabe? Ele arruma hospital pra quem precisa."

Aí o silêncio caiu.

Suely levantou a cabeça. Olhos calmos.

"Careca é por opção, senhora. Raspo porque não devo satisfação de cabelo pra filha de deputado nem pra ninguém. E descalça é porque cansa carregar salto 12 horas julgando processo, Inclusive processo de gente que acha que lei é pra quem não tem sobrenome."

Danuzia arregalou os olhos. "Julgando? A senhora é...?"

"Sou a juíza Suely. Da comarca. E a senhora é a dona Danuzia, né? A filha do deputado Moab. Aquela que aparece na coluna social mas nunca apareceu numa carteira de trabalho."

O copo de água com gás da Danuzia suou na mão.

Danuzia tentou se recompor. Ajeitou o óculos de 2 mil reais.

"Ah, juíza... pensei que fosse... sei lá. Uma dessas mulher que vive de bolsa. Sem padrão."

Suely limpou a boca no guardanapo.

"Padrão? O seu padrão é salto, bolsa paga pelo pai e humilhar quem trabalha? O meu padrão é a lei. E a lei diz que discriminar por aparência e condição social dá problema, dona Danuzia. Até pra filha de deputado."

A atendente da lanchonete, Deinha, parou de limpar o balcão. O povo todo escutava.

Danuzia ficou vermelha, do salto à raiz. Pegou o celular, fingiu mandar mensagem pro pai e saiu batendo o salto.

Antes de ir, jogou: "Vou falar com meu pai sobre essa rodoviária. Tá abandonada."

Suely ficou. Terminou o café, e foi embora a pé. Descalça sempre.

O povo comentou por semanas.

"Viu a filha do Moab levar esporro da juíza careca?"

"A Suely não precisou citar lei. Só citou a verdade."

Danuzia postou story no Instagram reclamando da "falta de educação no serviço público". Apagou 2 horas depois.

Suely voltou a andar descalça no fórum. Disse que "pé no chão lembra que justiça não tem sobrenome".

Em Lagoa da Italianinha tem dois tipos de poder. 

O da Danuzia: que herdou e usa pra humilhar. 

E o da Suely: que conquistou e usa pra igualar.

E na lanchonete da rodoviária, até hoje, quando alguém chega de pé descalço, a atendente Deinha serve primeiro e fala baixo: "Cuidado, a juíza pode estar por perto".



Malu e Wellia se estranham na praça

A praça 27 de Dezembro em Lagoa da Italianinha ferveu no fim da tarde de sábado. E não foi por causa da prefeita Giovanna, nem da ex-prefeita Myllena.

Foi por causa das gêmeas.

Malu estava lá. Cabelo até a cintura, blusa e saia longa, colar de sementes e pé na água do chafariz. Hippie assumida, ela defende que "a água da praça cura a alma". Proibia? Proibia. Mas Malu entrava igual. Dizia que era ato de resistência.

Ela cantava baixinho, de olho fechado, quando ouviu passos apressados no calçamento.

Abriu os olhos e gelou.

Era Wellia. A irmã gêmea. A "malvada" da família. 

Mesmo rosto, mesmo cabelo, mesmo corpo. Só que o espelho tinha virado do avesso.

Wellia chegou com a calça jeans suja. E não era barro. Era fezes. Visível. Do joelho pra baixo.

O povo na praça parou. O vendedor de picolé parou. Até o cachorro da praça parou.

Malu saiu da água na hora, água escorrendo no vestido. 

"Wellia?! Que loucura é essa?! Você se sujou de novo?"

Wellia cruzou os braços, fedendo e sem vergonha nenhuma.

"E você aí, Malu. Tomando banho de praça igual mendiga. Hipócrita. Fala de paz e amor mas vive suja de água suja."

"Essa água é sagrada!", gritou Malu, apontando pro chafariz. "Ela limpa! Diferente de você que vive suja por dentro e por fora!"

"Eu tô suja porque o mundo tá sujo!", rebateu Wellia, chutando a própria calça. "Prefiro ser real do que ficar fingindo que é florzinha. Pelo menos eu não passo o dia com animais e falando com árvore!"

Malu levantou a mão pro céu.

"O universo me trouxe até aqui pra te mostrar o reflexo da sua escuridão, Wellia! Você é meu karma!"

"E você é meu castigo!", cuspiu Wellia. "Duas loucas. Só que a sua loucura usa incenso e a minha usa a verdade nua e crua!"


Mãe e filha, estilos diferentes



Em Lagoa da Italianinha, no Agreste de Pernambuco, a política tem sobrenome e tem pé. Literalmente. 

De um lado está Giovanna Victorya, a prefeita atual. Do outro, Myllena, a ex-prefeita e mãe, que agora quer voltar à ativa como candidata a deputada estadual. O que une as duas é o poder. O que separa é quase tudo.

A diferença começa pelos pés. 

Giovanna assumiu a prefeitura e trocou o chão de terra batida pelo salto. Sapatos fechados, sociais, batendo no calçamento da cidade. É a marca dela: gestão "arrumada", postura formal, discurso de modernização.

Myllena fez o caminho inverso durante 5 anos. Governou descalça. Andava pelas ruas, entrava nas casas, atendia no gabinete de pé no chão. Dizia que "prefeito tem que sentir o chão da cidade pra saber onde aperta". E sempre quis a filha do mesmo jeito. 

Hoje o sapato virou símbolo. Pra Giovanna é organização. Pra Myllena é distanciamento. "Minha mãe acha que eu esqueci de onde a gente veio", desabafa a prefeita. "Minha filha acha que pra cuidar do povo precisa sujar o pé", rebate a ex-prefeita.

Se o sapato divide, a água separa de vez.

O ponto mais quente entre as duas hoje é o chafariz da praça central. Ponto turístico, ponto de encontro e, no verão, piscina pública. 

Giovanna quer proibir o banho. O argumento é de gestão: conservação do patrimônio, gasto com água, questão de saúde e segurança. "A praça é cartão postal, não pode virar açude", defende a prefeita.

Myllena é contra a proibição. Pra ex-prefeita, o chafariz é do povo. "Eu tomei banho ali. Meu pai tomou. O povo tem direito ao lazer. Quem tem que se adaptar é o poder público", diz.

Na prática, virou um cabo de guerra. Giovanna manda fiscal. Myllena vai na praça no domingo e deixa as crianças entrarem. O povo de Lagoa da Italianinha já escolheu lado: metade aplaude a ordem, metade sente falta da liberdade.

Apesar das brigas, ninguém nega: as duas mudaram a cidade.

Myllena ficou marcada pelo governo de proximidade. Descalça, sem assessor, resolvendo problema na porta de casa. Foi ela quem asfaltou as primeiras ruas e criou as festas de padroeira que lotam a cidade até hoje.

Giovanna herdou o nome e tentou outro caminho. Sapato no pé, projeto no papel, busca por verba e parceria. Quer deixar a cidade "apresentável" para fora. 

Agora os papéis inverteram. A filha está no executivo. A mãe quer ir para a Alepe. Myllena quer ser deputada estadual e diz que vai "levar a voz do Agreste que anda descalço". Giovanna declarou apoio, mas mantém distância. Quer apenas focar em trabalhar. 

Na cidade de 100 mil habitantes, todo mundo é parente, vizinho ou compadre de alguém. E todo mundo tem opinião.

Tem quem diga que Giovanna "envergonha a origem". Tem quem diga que Myllena "vive no passado". Tem quem só queira tomar banho no chafariz em paz.

O fato é que Lagoa da Italianinha virou caso de estudo: como uma mesma família pode representar duas formas tão diferentes de fazer política. Uma descalça e popular. Outra de sapato e técnica.

Em 2026, as duas vão estar na disputa. Uma tentando manter o legado da prefeitura. A outra tentando levar o sobrenome para o Recife.

E enquanto isso, o chafariz continua lá. Com água, com gente, e com duas mulheres decidindo o que fazer com ele.

*Pergunta que fica na praça*: Lagoa da Italianinha prefere a prefeita de sapato ou a candidata descalça?

O Aniversário de Fabíola


 Numa segunda-feira, em Lagoa da Italianinha,  a famosa vintage Fabíola fez aniversário. Completou 45 anos, mas ao invés de dizer que nasceu em 1981, diz que nasceu em 1911... 

Isso porque ela se comporta inteiramente como se estivesse na década de 50. Na forma de se vestir e no seu próprio estilo de vida - não usa tecnologia, usa máquina de escrever pra escrever seus poemas e crônicas e até dirige um fusca.

Paradoxalmente, ela é apaixonada por seu vizinho de apartamento, Tiago, que assim como ela, mora no Edifício Nápoles.  Mas a ironia é que Tiago é viciado em tecnologia e futurista ao extremo. Na cidade, muitos se questionam se esse casal daria certo.

No dia de seu aniversário, Fabíola nem foi vender seus livros antigos - que ela chama de "lançamentos novos que lançaram ". Foi apenas fazer pose na praça...

Samuel e a mulher cega


Certa manhã, em Lagoa da Italianinha, Samuel vinha da lama, onde gosta de se divertir, quando viu a cega Gilmara andando pelas ruas sozinha. 

Ele disse a ela:

- Quer ajuda, senhora?

- Sim. Eu agradeço, garoto.

- Onde a senhora mora?

- Aqui perto, na Vila Lusitânia. 

- Certo.

Alguns olhavam Samuel com desconfiança, pois pensavam que ele é menino de rua. Ao chegar na vila, Samuel deixou Gilmara em casa. 

Marcella, que mora na vila, viu os vizinhos assustados e disse:

- Esse menino não é de rua, ele é até de família rica, a tia dele é a vereadora Vanessa e a mãe dele Valéria mora em Londres, ela é aeromoça. É que ele é meio doido, gosta de se vestir e andar assim feito maloqueiro... mas ele é super do bem!

O jantar do avarento


Apesar de ser um dos empresários mais ricos de Lagoa da Italianinha, o pão-duro Dr. Carneiro não oferece jantar digno em casa.

Certo dia, ele chegou apenas com um queijo para o jantar, o qual ele dividiria entre ele e os filhos Monalisa, Josenilda, Gilvania, Branquinha, Michele e o vereador Marco Aurélio. 

Branquinha disse:

- Oxe, só isso? Um queijo pra todos nós?

- Não seja mal agradecida. Queijo é forte e um pedaço desses já mata a fome.

Marco Aurélio disse:

- Por isso que prefiro comer na casa do tio Moab, se depender do senhor, a gente morre de fome! 

- Pois va pra la, seu ingrato! 

Mesmo reclamando,  cada um pegou um pedaço de queijo. 

A estranha rotina de Danuzia


Em Lagoa da Italianinha, enquanto muitos trabalham, Danuzia, a perigosa filha do deputado estadual Moab, prefere passar o dia na piscina de sua casa. 

Enquanto ela nada, ela não gosta de ser interrompida. Danuzia fica irritada quando tem que interromper seu lazer para alguma emergência. 

Ela só sai as ruas de vez em quando. Ela é advogada formada e so atua em casos de amigos ou amigas mais próximos, envolvidos no crime em Lagoa da Italianinha. 

Mateus tenta namorar com Alice


Numa certa tarde, Mateus, o irmão mais novo da prefeita Giovanna Victorya e filho da ex-prefeita Myllena, se encontrou com Alice, a filha de Wellia, numa rua central de Lagoa da Italianinha. 

Mateus não esconde que é apaixonado por Alice. Mas ela não aceita a ideia de namorar. Mateus ainda disputa a atenção dela com Samuel, que também ama Alice. Mas nem com Samuel ela deseja namorar. 

Alice, na realidade, não quer namorar com ninguém. Ela quer focar nos estudos.

Warlla é expulsa da lanchonete de Marlene


 Num certo dia, Warlla, a mendiga chique, foi na lanchonete de Marlene, na rodoviária, e começou a incomodar por ali pedindo esmolas. Marlene se aproximou de Warlla e disse:

- Pare de perturbar, desapareça daqui.

- Oxe, isso aqui é uma rodoviária, é público.

- Mas a minha lanchonete não.  E ponha-se daqui pra fora, tu ta com catinga de merda!

Warlla desafiou:

- Agora que eu fico mesmo, só pelo seu desaforo!

Marlene empurrou Warlla pra fora da lanchonete,  e as duas quase trocaram tapas. Mas Marlene conseguiu espantar a presença indesejável. 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Sozinha na estrada

Rita de Cássia, a mendiga quarentona que tem mente de criança, andou sofrendo muito nesse período junino por conta dos fogos, tanto do São João de Lagoa da Italianinha, como da Copa do Mundo. 

Rita pegou sua boneca Dalila e foi para fora da cidade, passando a dormir na rodovia que liga Lagoa da Italianinha a Vila Dourada. 

Alguns de seus amigos, como Malu e Valdenes, ficaram preocupados com a mendiga. Mas conseguiram encontrá-la e a levaram de volta para a zona urbana. 

 

Wellia provoca Valdenes


Alice e sua mãe Wellia caminhavam pelas ruas de Lagoa da Italianinha,  quando Wellia viu sua irmã gêmea Malu acompanhada de Valdenes. Wellia começou a provocar sua irmã:

- Esse é o tipo de companhia com quem tu anda? Esse maloqueiro de rua?

- Ele é meu amigo, Wellia - disse Malu. - e ele não vive nas ruas mais, ele tem casa. 

- Mas pra mim será sempre um maloqueiro de rua - disse Wellia. - isso é louco por mim, nunca me esqueceu. 

- Oxe, faz tempo que eu só tenho é pena de tu, Wellia. - disse Valdenes. 

- Claro.  Mas tu dá um par certo com Malu, vocês dois parecem maloqueiros, e ainda por cima tomam banho de roupa e são nojentos, só vivem descalços. 

Alice disse:

- Mãe,  a senhora não pode falar que eles são nojentos,  a senhora faz xixi e cocô nas calças todo mundo na cidade sabe disso!

- Me respeita, Alice. Sou sua mãe!

Malu e Valdenes riram. Wellia disse:

- Vamos embora, Alice. Pobreza pode ser contagioso!

Wellia levou Alice embora, enquanto Malu e Valdenes riram da resposta de Alice.


Myllena e Mateus: café, terno e conversa de futuro em Lagoa da Italianinha

Cafeteria tranquila. Mesa pequena, café na xícara, livro em cima da mesa. Luz amarela. De um lado Myllena.  Ex-prefeita da cidade, hoje cand...