sábado, 11 de abril de 2026

Danúzia vira blogueira e grava vídeo no rio


Certo dia, Danúzia pediu ajuda a Rodolfo para gravar um vídeo onde ela se diverte no rio da cidade de Lagoa da Italianinha. Danúzia disse:

- Rodolfo, tu vai ficar gravando eu nadando, mergulhando, e ainda vou subir na pedra e dar três pulos no rio. 

- Que mal lhe pergunte, dona Danúzia, não seria melhor na cachoeira?

- Não, a cachoeira tá cheia de pobre. Essa parte do rio é bem limpa e dá pra nadar aqui. 

- Está bem, eu espero a senhora colocar seus trajes de banho. 

Danúzia disse:

- Mas quem falou em traje de banho, paspalho? Eu vou entrar com essa roupa que eu estou, até de sapatos. 

- Oxe, que maluquice é essa? 

- Maluquice, nada, eu sou chique até na água, viu? Meu traje de banho é a roupa que eu uso normalmente. 

- Eu, hein?

- Vai gravar, ou não? Se não quiser gravar, eu chamo outro!

- Não, vou gravar, sim. 

Rodolfo ligou o vídeo no celular, e Danúzia disse:

- Olá, meus amores, agora, vou dar uma divertida aqui no rio, olha que natureza linda, confiram essas belezas, junto comigo!

Danúzia foi logo entrando, e quase tropeçava, pois estava de sapatos salto alto, mas ela não perdeu a pose, e se divertia, chegou a pular no rio três vezes, enquanto Rodolfo gravava. Quando ela terminou a gravação, saiu do rio, e Rodolfo encerrou a gravação de oito minutos. Rodolfo disse:

- A senhora postar isso, vão te chamar de doida...

- Oxe, tô nem aí, podem falar mal, desde que falem de mim. Me dê o celular, pra mim  te passar o pix. 

- O pix? Pensei que a senhora ia dar dinheiro vivo. 

- Ô, paspalho, como é que eu ia carregar dinheiro no bolso se eu entrei com roupa e tudo no rio? O celular ficou aí na sua mão. 

- Ah, sim, tudo bem, desculpe. 

Danúzia passou um pix para Rodolfo e depois os dois voltaram pro centro da cidade. Danuzia postou o vídeo em sua rede social, recebendo elogios e críticas. 

Saudades de uma amiga


Numa certa noite, numa praça em Lagoa da Italianinha, os mendigos Rita de Cássia, Gílson, Renata, Andreza e Guilherme estavam conversando sobre uma certa pessoa, que eles conheciam. Rita estava triste, e Gílson disse:

- O que é que tu tem, Rita?

- Aquela nossa amiga que morava nas ruas aqui com a gente, não sabemos onde ela está. 

Renata disse:

- Ah, eu lembro, uma pessoa maravilhosa, descalça feito eu, e de muita personalidade. Pena que ela gosta de tomar banho, esse é o defeito dela. 

- Eu lembro muito dela, muito aventureira, corajosa, valente, briguenta, e bem doida, também. - disse Andreza. 

Guilherme disse:

- E ela gosta de dançar, né? Eu lembro várias noites eu a vi dançando no meio da rua, sem ser vista pelas pessoas, porque era bem tarde. 

- Será que ela volta? - disse Rita. 

- Creio que sim, eu fiquei sabendo de tanta coisa, uns disseram que ela tava lá pro lado de Limoeiro, outros disseram que ela tava pelas bandas de Caruaru... - disse Gílson. 

- Quando ela voltar, a gente vai abraçá-la, vai ser a maior festa - disse Renata. 

Andreza disse:

- Desde o ano passado que a gente não a viu mais. E o problema é que nem tem rede social dela, pois ela é das ruas como a gente, nem temos como saber onde ela está. 

- Quem sabe, ela volta logo? - disse Guilherme. 

- Assim espero... - disse Rita, abraçada à sua boneca Dalila. 

Quando terminaram de conversar sobre a mendiga misteriosa, Rita de Cássia foi para o chafariz com sua boneca, Gílson e Renata foram à barraca de Josinete, e Andreza e Guilherme foram para uma rua deserta. 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Giovanna recebe Rafaela na Prefeitura

A prefeita Giovanna Victórya, em Lagoa da Italianinha, fez questão de convidar para uma conversa com ela a jovem Rafaela, que vive no meio da mata no Vale dos Gatos e lidera um grupo de pessoas que vivem ali. Rafaela foi em um carro acompanhada do motorista da prefeita, e ao chegar na sede da Prefeitura, a prefeita a recebeu de forma muito gentil. 

- Pode entrar, moça, não se preocupe. Fique à vontade. 

- Obrigada! - disse Rafaela. 

- Nunca tive a oportunidade de te conhecer, eu cresci longe daqui passando anos morando na Alemanha e na Áustria. É verdade que você foi mais rica do que eu, tu era de Limoeiro e decidisse largar tudo pra viver na floresta, debaixo de árvores? 

- Sim, é verdade. 

- Mas como tu consegue? 

- Quem ama a natureza feito eu, dona Giovanna...

- Pode me chamar de Giovanna, tenho frescura, não. 

- Bom... quem ama a natureza, Giovanna, se sente bem nela. 

Giovanna disse:

- Eu escutei dizer que tu tem uma lábia boa, até a ex-vereadora Adriana foi na tua conversa e foi morar lá. Ela largou a carreira política, largou a psicologia, largou tudo, mesmo. 

- Bom, ela foi porque se sentiu bem, eu só fiz reforçar...

- Mas e como ela está? Minha mãe fala muito dela. 

- Adriana não vive mais conosco, ela, por questões de saúde, teve que ir para um chalé, mas ela mora bem perto da gente. 

- Sei... entendi. E onde vocês dormem?

- Na mata, mesmo, entre as árvores. 

- Caramba, eu não me imagino morando nem mesmo nas ruas, que dirá numa mata. 

Rafaela disse:

- Eu só espero, prefeita, que a senhora possa nos respeitar em nosso estilo de vida. Não tenho a menor intenção de voltar à civilização. 

- Mas tu anda tentando convencer as pessoas a irem pra mata. 

- Sim, é verdade. Mas sei que nem todos irão, a minoria irá. 

- Bom, Rafaela, tudo bem, eu não estou aqui pra te criticar, nem nada, mas quero saber se lá tem algo que a Prefeitura possa intervir, pois eu quero informações. 

- Bom, Giovanna... é que lá a gente só enfrenta aquela dona Fafá, que ainda não desistiu de fazer uma fábrica de perfume lá, destruindo a mata. Não só a gente como os índios da aldeia próxima estão apreensivos. 

- Não se preocupe, que com Fafá eu me entendo. Eu conheço a peça. Vou indo agora para um  restaurante, almoçar, quer ir comigo?

- Eu? Uma simples selvagem de pé descalço do lado de uma dama feito a senhora?

- Oxe, que é que tem? Minha mãe só vive descalça, também. E você é gente feito eu. Vamos embora. 

- Tudo bem, mas eu só não como carne, tá? - disse Rafaela. 

- Certo. 

Giovanna e Rafaela foram almoçar, e depois, a própria Giovanna levou Rafaela até o Vale dos Gatos, onde ouviu alguma reivindicações. 

 

Diversão no rio


Um certo dia, Valdenes e Aline Débora passeavam conversando perto do rio que corta Lagoa da Italianinha, e Aline disse:

- Vamos entrar no rio... 

- Entrar? 

- Sim, vamos nadar, mergulhar...

- Pena que eu nem trouxe sapatos, estou descalço feito você. 

- Como assim?

- Eu uso sapatos na água, é somente quando estou de sapatos. Mas ando sempre descalço pela rua. 

- Doidinho, vamos entrar. 

Aline Débora pulou no rio, e Valdenes pulou também. Aline Débora disse:

- Ainda bem que tu toma banho de roupa feito eu. Se tu tirasse a roupa pra tomar banho feito os "normais", eu nem queria papo com você. 

- Relaxa, sou assim desde criança. 

Eles chegaram a se abraçar, e quase se beijaram, mas alguém gritou, e eles interromperam e eles tiveram que sair do rio. Eles não chegaram a ser vistos pelo homem que gritou, que era um caçador. Valdenes e Aline Débora, encharcados, tiveram que voltar pro centro da cidade. 

Alessandra passeia pelos escombros da guerra


O ano era 1918, e a alemã Alessandra, com 21 anos de idade, via seu país sendo bombardeado por inimigos na Primeira Guerra Mundial. Alessandra passeava sozinha em cima dos escombros, imaginando que seu país passaria a partir dali por momentos mais críticos. 

A guerra havia tirado do seu convívio a pintora alemã judia Inalda, que havia ido morar no Brasil. Suas outras amigas, Danielly (a prima de Inalda), Lucélia e Stella, também estavam arrasadas com a guerra. Alessandra soube do Tratado de Versalhes, que punia severamente a Alemanha, e ela dizia, passando por cima dos escombros:

- Esse tratado vai trazer mais escombros para cá...

Alessandra virou militante comunista, e começou a participar de revoluções. Anos mais tarde, na ditadura, acabou confinada durante a Segunda Guerra Mundial em um campo de concentração, e ao sobreviver, foi morar em Maceió, onde passou o resto de sua longeva vida, tendo conseguido até mesmo ver em vida a Reunificação Alemã. 

Mendiga Limpa x Mendiga Chique


 As duas mendigas mais inusitadas de Lagoa da Italianinha se encontraram numa noite, por acaso, em um beco no centro da cidade. Sayonara, conhecida como "mendiga limpa", por não exalar sujeira como os demais moradores de rua, e Warlla, conhecida como "mendiga chique", que se veste como se ainda fosse uma madame da época que foi rica um dia. 

Warlla tentava provocar Sayonara, e dizia:

- Tu pode tomar quantos banhos quiser, mas tu não tem a mesma elegância que eu, eu posso ter perdido tudo, mas não perdi a pose. 

- Grande porcaria, tu. Warlla, tu se acha a última bolacha do pacote, cuidado que essa bolacha é quem vem mais quebrada, tá?

- Invejosa. Você é só, não tem família feito eu tenho. 

- Ah, tu tá falando daquela família de Caruaru que te odeia? Te enxerga, Warlla. Eu cresci nas ruas, e quando tu era rica, vivia me maltratando e me humilhando. Agora, a conta chegou e você também é mendiga feito eu! 

Warlla riu e disse, com ironia:

- Tu é muito abusada, Sayonara. Olha, vou perder meu tempo de estragar minha beleza falando contigo, não. Olha aí tua roupa rasgada, coisa de pobre. A minha tá inteira. 

- Minha roupa tá rasgada, mas não tá suja de lama, e nem está fedendo a... tu sabe a que. 

- Ixe, vou-me embora, que pode ser contagioso! - disse Warlla. 

Sayonara gritou:

- Vai-te embora, carniça! 

Warlla saiu dali, e foi para outro beco, onde se deitou. Sayonara foi para um banco de praça, dormir lá, com seus inseparáveis lençois. 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Vivendo no meio da natureza

Na reserva florestal do Vale dos Gatos, município de Lagoa da Italianinha, quase na divisa com Vila Dourada, cinco dentre os moradores da floresta estavam reunidos perto de uma fogueira, enquanto a noite avançava. Eles não dormiam em nenhum abrigo, mas apenas no meio da mata. Rafaela, Danielle, Eduardo, Diana e Lulu estavam orando e meditando. Longe de tecnologias, da vida urbana e da civilização. 

Rafaela dizia aos que ali estavam:

- Se bem soubessem o quanto é bom estar aqui, e não na agitação urbana... 

- Verdade - disse Danielle. - eu vim pra cá e nunca me arrependi. 

Diana, a mais velha, que já tinha uns 50 anos, disse:

- Rafaela, bendito dia que tu me chamou pra cá, eu me sentia sozinha e minha família nunca ligou pra mim. 

- Verdade, dona Diana - disse Eduardo. 

Lulu, por sua vez, não falava. Rafaela disse:

- Eu ainda quero povoar esse paraíso com mais pessoas. Temos que libertar as pessoas da agitação urbana e conectar com a natureza. 

- Só sinto falta de Adriana conosco - disse Danielle. 

- Adriana está num chalé aqui perto, ela teve que ir por questões de saúde, e eu entendo - disse Rafaela.

A vida deles tinha regras. Nada de celular, nada de comer carnes, apenas comer verduras, frutas ou comidas que não contivessem carne - eram vegetarianos -. Visitar a cidade, só três vezes na semana, quando seria permitido o contato com familiares, pessoalmente ou pelo celular de alguém. Notícias, nem pensar, principalmente política. A partir do dia que Adriana passou a morar no chalé, foi permitido que eles pudessem passar a noite nesse chalé em caso de chuva muito forte. Como não tem cama para todos, eles dormem no chão, que é exatamente outra regra deles, sempre dormir no chão. 

Rafaela, que exerce uma certa liderança, criou essas regras, que são seguidas à risca pelos outros. A quebra de uma delas não resulta em expulsão, mas apenas em advertência. A exclusão da comunidade selvagem acontece apenas em caso de traição ou algum crime. Danielle é uma espécie de "número 2", ou vice-líder no grupo, pronta para liderar se Rafaela estiver ausente. 

Danúzia vira blogueira e grava vídeo no rio

Certo dia, Danúzia pediu ajuda a Rodolfo para gravar um vídeo onde ela se diverte no rio da cidade de Lagoa da Italianinha. Danúzia disse: -...