terça-feira, 7 de abril de 2026

Maria Clara e Inalda

 

Quando Lagoa da Italianinha ainda era o sítio Maniçoba, então pertencente a Vila Dourada, na década de 30, duas mulheres de culturas e origens muito diferentes uma da outra tinham uma verdadeira relação de mãe e filha, tamanha era a aproximação entre as duas. Uma era do agreste de Pernambuco e a outra era da Alemanha. 

Maria Clara, nascida em uma aldeia indígena no ano de 1918, cresceu na mata na mesma aldeia que fica atualmente na região do Vale dos Gatos. Quando se tornou adulta, decidiu sair da aldeia, mas manteve sua simplicidade e traços de cultura indígena. Usa sempre um  vestido simples de cor marrom e andou descalça a vida inteira. Na cabana onde ela passou a morar, só dormia no chão. 

Três anos antes de Maria Clara nascer, Inalda havia chegado ao Brasil, vinda da Alemanha. Inalda tinha apenas 20 anos e era uma artista plástica nata, além de ser judia. Ela nasceu em 1895 em Wittemberg, a famosa cidade onde começara a Reforma Protestante. 

O destino das duas se cruzou por volta de 1936, quando Inalda passou a lecionar aulas de pintura gratuitamente. Maria Clara começou a fazer pinturas, e Inalda ficava encantada com a aplicação da aluna. Apesar de Maria Clara ser muito desastrada, Inalda se divertia muito com ela. 

Maria Clara começou a tratar Inalda como uma segunda mãe, e Inalda enxergava Maria Clara como uma filha que ainda não tinha - só viria a ser mãe depois de muitos anos, depois dos 50 anos. Uma certa ocasião, em 1937, Inalda deu um vestido para Maria Clara e experimentou nela, e disse:

- Tu ficasse linda, Maria Clara, vou te dar sapatos novos...

- Não, sapatos eu não quero. Por favor. 

- Porque?

- Só consigo viver descalça, sentindo a terra, eu não me imagino usando nem sandália, eu não quero. 

- Eu também ando descalça às vezes, mas tu exagera, Maria Clara. 

- Eu sou índia, dona Inalda...

- Está bem, mas aceite esse vestido, pelo menos, pra tu usar em ocasiões especiais, eu sei que tu ama usar aquele vestido marrom bem velhinho. 

- Muito, eu amo a simplicidade. Mas vou usar esse vestido sim quando for em festas. Pode ser?

- Pode, sim. 

Anos mais tarde, em 1989, quando Lagoa da Italianinha já era uma cidade, as duas foram homenageadas, quando o Loteamento Maria Clara foi inaugurado, e sua rua principal tinha o nome de Inalda Oliver. 

Marco Aurélio questiona Valdenes e Branquinha


Numa certa tarde, o vereador Marco Aurélio mandou chamar Valdenes em sua casa, e este apareceu, acompanhado de Branquinha, a irmã do vereador. Marco disse:

- Não se apoquente, não, tu está descalço, pode ficar à vontade, que minhas duas irmãs Gilvânia e Michele também só vivem descalças. 

- Obrigado, vereador. 

- Mas o assunto não é esse. Quero que tu me responda uma pergunta, seu Valdenes. 

- Pode perguntar. 

- Qual seu interesse em Branquinha, a minha irmã? 

Valdenes riu e disse:

- Mas que pergunta é essa? 

- É que estou escutando um zum-zum-zum pela cidade, e tem gente dizendo que tu está com interesse... amoroso nela. 

Valdenes riu e disse:

- Não tenho nenhum interesse amoroso, senhor. Ela é uma mulher espetacular, muito bonita, com todo o respeito, e muito inteligente. Tenho certeza que o homem que casar com ela será um felizardo. 

Branquinha disse:

- Marco, isso não tem cabimento. Tu e toda cidade sabe que eu não quero namorar nem casar com ninguém. E se Valdenes tivesse interesse em mim, eu não ia querer. 

- Acho muito bom, seu Valdenes, porque me lembro muito bem da sua história com minha outra prima Josiane, viu? Acho bom tu se ligar, seu cabra. 

- Mas que coisa. Aquilo foi outra história. Minha relação com sua irmã é só de amizade. Passei anos e anos morando nas ruas e tenho procurado ter amizade com pessoas melhores que eu. 

- Sei...

- Vai me proibir de andar com ela agora, doutor?

- Não. Mas eu quero te alertar que você não é bem vindo nessa família, Valdenes, principalmente depois de tudo que meu tio Moab teve que fazer quando mandou Josiane pra Maceió por tua causa. 

- Bom, assim como Branquinha, eu também não penso em relacionamento, tenho outras prioridades. 

- Está bem. Eu não vou proibir vocês dois de serem amigos, mas se partir para algo maior, não terá o meu apoio. Isso é tudo. 

- Então, com licença - disse Valdenes. 

- Espere. Vou mandar a empregada preparar um almoço pra você e pra Branquinha. Não quero que ninguém saia com fome daqui. 

Durante o almoço, Valdenes e Branquinha almoçavam e conversavam. Marco já tinha saído para um compromisso, e Branquinha disse:

- Não ligue pra meu irmão, eu quero continuar sendo sua amiga. 

- Claro que vai continuar. Não se preocupe. 

Os dois apertaram as mãos, e depois, Branquinha deu uma carona para Valdenes até o centro da cidade. 

Priscila desabafa com Malu

Numa certa tarde, em Lagoa da Italianinha, nas proximidades do Alto do Cruzeiro, a mendiga Priscila estava atordoada, com olhar triste. A hippie veterinária Malu passou por ali pois tinha ido levar um animal para a casa de uma família humilde. Priscila abordou Malu e disse:

- Ei, quero falar com você. 

Malu ficou um pouco assustada, pois sabia da fama de Priscila em cometer roubos. Priscila disse:

- Precisa se assustar, não, só quero falar contigo. Eu vim em paz.

- Fala, Priscila. 

- Tu pode fazer um favor pra mim?

- Depende. 

Priscila pegou uma foto e deu à Malu, dizendo:

- Guarde essa foto. 

Malu pegou a foto e disse, surpresa:

- Ué, mas são seus pais... e esse bebê?

- Esse bebê era eu. 

- Mas porque tu quer que eu guarde essa foto pra mim, Priscila?

Priscila respondeu:

- Porque meus pais jogaram no mato. Eu soube, eu procurei, por isso, eu estou aqui nesse setor que eu evito aparecer. 

Malu disse:

- Priscila, pensa comigo... eles devem estar tristes em te ver nas ruas, na vida errada... tu acha que...?

- Malu, tu só sabe da versão deles, mas eu fui expulsa de casa, escorraçada a pontapés. Eu estou nas ruas porque assim eles quiseram! 

- Porque tu não tenta volta pra casa?

- Não quero, já me acostumei com as ruas, mesmo. Pelo menos, sou livre pra fazer o que eu quiser! 

- Priscila, tu é nova e bonita, tu podia sair dessa vida errada, tu ia conseguir tanta coisa. 

- Pra que? Não tenho o menor interesse. Olha, eu estou te dando essa foto porque não gosto de rasgar fotos, e nem meus pais querem e nem eu quero. 

- Tudo bem, vou guardar. Mas pensa no que eu disse. 

- Não. Minha vida é essa e acabou. E obrigada por cumprir meu favor. Olha, vou falar com uns parceiros aí pra não mexerem com você, te preocupa, não. 

- Priscila, tu quer lanchar? 

- Quero...

- Vai lá na lanchonete de Quitéria...

- Quitéria me expulsou da lanchonete dela. 

- Priscila, ela é minha amiga, pode ir lá. Vai lá lanchar, eu pago. Eu vou falar aqui agora com ela pra que ela saiba e vou passar o pix pra ela. Pode ir. Agora, se comporte lá, viu?

- Tá certo...

Priscila saiu dali e foi à lanchonete de Quitéria. Malu pagou o lanche pelo pix. 
 

Warlla volta e importuna Quitéria


 Depois de alguns dias sumida, Warlla, a "mendiga chique", apareceu novamente, e chegou na lanchonete de Quitéria, no Pátio Verona, centro de Lagoa da Italianinha, em uma noite muito chuvosa. Quitéria disse:

- Nunca mais tu fosse vista na cidade, por onde tu andava?

- Passei o feriado na lama, não saí de lá.

- Oxe, tu tá brincando. 

- Claro que não. Eu gosto de lama, muito...

- Warlla, o que tu quer aqui?

- Calma, é só uma bebida... eu pago amanhã. 

- Nada disso, aqui não se vende fiado. 

- Oxe, tu não sabe quem sou eu, de que família eu sou, descendente de alemães e muito chique?

- Sua família não fala mais com você e hoje você mora nas ruas, Warlla. 

Warlla disse, jogando o cigarro no chão:

- Tá bom, já vi que não vou conseguir nada por aqui. Vou aí pedir esmola pra algum otário, pra ver se ele me dá alguma coisa...

- Se tu conseguir, tu pode vir, agora não perturbe aqui, certo? 

- Mas que droga! 

Warlla ia saindo, e Quitéria disse:

- Vai sair na chuva forte? 

- Vou, sim, eu não sou de açúcar!

- Mas duvido tu encontrar quem te dê esmola numa chuva dessa. 

- Ah, não amola. 

Warlla saiu dali, e Quitéria disse:

- Essa daí precisa de um bom tratamento psiquiátrico. 

Geisy encontra Wéllia na rodoviária


 Numa certa noite, Geisy perambulava pela rodoviária de Lagoa da Italianinha e encontrou Wéllia, que fumava por ali, estava bastante suja, descalça e exalando um mau cheiro. Geisy disse:

- Wéllia, o que aconteceu com você? Eu estou lá no seu escritório cuidando de tudo, e...

- Continue lá, não tenho condições de ir agora.

- Wéllia, tu está mesmo dormindo nas ruas? Eu te vi essa noite, passando em frente da minha casa de 3 e meia da manhã. 

- Não quero ver minha mãe, que aprova esse relacionamento de Malu com meu Vinícius. Prefiro ficar na rua. 

- Tu pode ir lá pra casa...

- Geisy, tua casa é toda escura, parece casa de vampiro, querida. 

- Isso é verdade. Eu não vou nem conversar com sua mãe, nem com Malu, nem com sua filha Alice porque nenhuma delas gostam de mim. 

- Minha mãe te odeia, Geisy. 

- Wéllia, tome um banho, volta pra vida normal. 

- Não tenho vontade. Me deixa, eu te peço. 

- Tá bom, Wéllia. Hoje tá chovendo muito e eu quero ver como tu vai dormir na chuva, no meio da rua. 

- E porque tu não está de guarda-chuva?

- Eu não preciso disso, eu me molho na chuva, mesmo. - disse Geisy. 

- Esquisita, tu... bem que falam, mesmo. 

- Bom, vou indo. Qualquer coisa, já sabe. 

Geisy se retirou e Wéllia continuou por ali. 

Danúzia e Ilene conhecem o novo invento de Eugênio


Numa certa noite, Danúzia e Ilene foram juntas ao laboratório de Eugênio, que havia feito um invento a pedido de Ilene. Danúzia não sabia do que se tratava, mas Ilene fez questão de levá-la para que ela conhecesse. 

Ilene disse:

- Fez o que eu pedi, Eugênio?

- Sim, aqui está, um invento que será muito bom para pessoas como vocês duas, por exemplo, que costumam tomar banho de roupa e tudo. 

Danúzia disse:

- Sério??? Que invento? 

- Esse grande secador de roupas. 

Danúzia disse:

- Tu tá com piada pro meu lado, maluco. Um secador????? Isso já existe, e inclusive eu tenho lá em casa!

- Mas não é um secador qualquer, Danúzia. 

- Como assim?

- Aqui as roupas são colocadas e elas estão secas em apenas 10 minutos!

Danúzia riu e disse:

- Tu tá brincando. 

- Não, vou fazer uma demonstração. Olha, nesse secador, tanto a pessoa pode entrar toda vestida, e aguardar os dez minutos ou a pode colocar as roupas e os sapatos, que o efeito é o mesmo. Ah, os sapatos, como são material mais pesado, leva cerca de 20 minutos. 

Ilene disse:

- Vou me voluntariar. 

- Oxe, tu tá doida, Ilene? - disse Danúzia. 

- Eu sei o que estou fazendo!

Eugênio disse:

- Pois bem, dona Ilene, a senhora terá que se molhar. 

- Me mostra onde é o banheiro, vou pra o chuveiro agora. 

- Tem que ser toda vestida, certo? Não tire nem os sapatos. 

- Oxe, nem precisa pedir isso pra mim. 

Ilene foi tomar banho, e poucos minutos depois, voltou toda molhada. Eugênio disse:

- Agora, entre no secador. 

Danúzia disse:

- Adeus, Ilene, foi bom te conhecer...

- Para com isso, Danúzia. 

Ilene entrou, e Danúzia dizia para Eugênio:

- Atrapalhado do jeito que tu é, duvido que esse troço vai dar certo. 

- Calma, tu nem viu ainda. Eu mesmo já fiz o teste. 

20 minutos se passaram, e Ilene saiu da máquina. Toda seca, como se não tivesse tomado banho pouco antes. Danúzia disse:

- Mas é sério isso???? Tu já tá seca, Ilene? 

- Claro. 

- Não, não acredito. Eugênio, posso fazer a demonstração? - disse Danúzia. 

- Tá certo, Danúzia, vai lá pra ducha, volte e faremos o mesmo processo. 

Danúzia repetiu o mesmo processo, e depois passou 20 minutos na máquina, e saiu toda enxuta, dizendo:

- Puxa, esse evento é maravilhoso. 

- E olha que hoje foi dia chuvoso. 

Ilene disse:

- Ficaremos ricas. 

- Duvido, Ilene. Poucas pessoas tomam banho de roupa, feito a gente. Aqui na cidade, só minha irmã Josiane, aquele louco do Valdenes, a irmã dele Josy...

Eugênio disse:

- Mas será muito útil por exemplo, em dia chuvoso, de inverno, quando as roupas não poderão secar logo no varal. 

- Bem pensado - disse Ilene. - Eugênio, fica com ele aí, nós depois, vamos conversar. Mas não mostre a ninguém agora, certo?

- Tá bom...

Ilene e Danúzia saíram dali, encantadas com o invento. 

Prefeita Giovanna no meio da chuva em Lagoa da Italianinha


 Numa noite de uma chuva forte em Lagoa da Italianinha, a prefeita Giovanna Victórya estava ao lado da gari Jessy, observando e tentando ajudar naquela situação caótica de uma enchente que estava alagando as ruas da cidade. 

Giovanna não teve medo de enfrentar a chuva, e Jessy te perguntou:

- Cuidado, prefeita, a senhora pode ficar gripada. 

- Eu morei oito anos em dois países de clima frio, querida, Alemanha e Áustria. Eu já levei neve na cara, que dirá chuva. Vamos, eu te ajudo. 

Elas pegaram algumas bolsas e jogaram em um caminhão de lixo que passava por ali, e algumas pessoas estavam ali. Giovanna disse, com voz alta:

- Muitas vezes se joga a culpa na Prefeitura pelas ruas sujas. Olha aí, a enchente. Será que somos só nós? Eu já sei que tem pessoas que só coloca lixo depois que passam os caminhões. Uma chuva dessas entope a galeria, e olha aí o resultado. Quando vão aprender a ter educação? 

- Tá bom, prefeita, vamos embora. - disse Jessy. 

Giovanna ainda visitou outros pontos de alagamento na cidade. Uma assessora sua trouxe um guarda-chuva para proteger a prefeita. 

Maria Clara e Inalda

  Quando Lagoa da Italianinha ainda era o sítio Maniçoba, então pertencente a Vila Dourada, na década de 30, duas mulheres de culturas e ori...