quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Myllena e Mateus: café, terno e conversa de futuro em Lagoa da Italianinha

Cafeteria tranquila. Mesa pequena, café na xícara, livro em cima da mesa. Luz amarela.

De um lado Myllena. 

Ex-prefeita da cidade, hoje candidata a deputada estadual. Blazer preto, blusa amarela, cabelo solto. Sorriso calmo, mas olhar de quem já carregou prefeitura nas costas.

Do outro Mateus.

14 anos, terno azul-marinho, gravata, livro debaixo do braço. Postura séria demais pra idade. Filho caçula.

E os dois... descalços. Porque em casa e nos lugares que importam, Myllena ensinou: "a gente conversa melhor com o pé no chão."

Na cidade todo mundo comenta: "A prefeita atual é a Giovanna Victorya, filha dela. Por que Myllena fala tanto do Mateus?"

A resposta veio nessa tarde de café.

"Filha, a Giovanna tá fazendo um ótimo trabalho", Myllena disse, mexendo o café. "Ela tem cabeça, tem pulso. Eu tenho orgulho."

Mateus ficou quieto.

"Mas mãe, por que você me chama pra essas reuniões então?"

Myllena olhou pra ele. 

"Porque eu te vejo, filho. Eu vejo em você a vontade de perguntar o 'porquê' de tudo. A Giovanna executa. Você questiona. E política precisa dos dois."

"Mas eu sou só adolescente, mãe."

"E eu fui prefeita com 28. Idade não é crachá, Mateus. É responsabilidade."

O povo de Lagoa da Italianinha torce, critica, opina. 

Mas dentro daquela mesa, era só mãe e filho planejando. Sem câmera, sem discurso.

Myllena quer ser deputada pra levar a voz da cidade pro estado. 

E no fundo, ela já sonha alto: "Se um dia Mateus quiser, que ele entre na política não por sobrenome. Mas porque ele escolheu."

Mateus fechou o livro e sorriu. "Tá bom. Mas primeiro eu termino a escola, combinado?"

"Combinado", ela respondeu, e bateu o pé descalço no dele por baixo da mesa.

Porque legado não é empurrar. É preparar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Flávia e Gigi: duas descalças, duas histórias, um terminal



Fim de tarde no terminal de Lagoa da Italianinha. Terra no chão, ônibus parados, e duas mulheres frente a frente. Descalças.

De um lado, Flávia. 

Hoje advogada e vereadora. Camisa vermelha, calça preta suja de barro. O povo esquece, mas Flávia já dormiu nesse mesmo chão. Já foi mendiga. Já comeu do que achava. Já ficou sem banho, sem porta, sem nome. Estudou de madrugada, passou na OAB, entrou na política. E nunca tirou o pé do chão. Literalmente.

Do outro, Gigi. 

Jardineira jeans e camiseta branca suja. Cabelo solto, mão aberta falando. Gigi também vive na rua. Mas diferente de Flávia, ela não quer sair.

E foi por isso que a conversa ficou tensa.

"Gigi, vem pro abrigo pelo menos enquanto chove", disse Flávia, a voz baixa. "Eu consegui verba. Tem cama, tem comida, tem banheiro. Você não precisa mais passar por isso."

Gigi balançou a cabeça e deu um passo pra trás.

"Flávia, eu te respeito. Você saiu e deu certo. Mas eu não quero casa. Eu não quero regra. Eu quero a rua. É aqui que eu sou livre. É aqui que ninguém manda em mim."

Silêncio. 

Flávia entendeu. Porque ela sabe como é. Sabe o frio, a fome, a humilhação. E sabe também o peso de ter que se encaixar.

"Então me deixa te ajudar do seu jeito", Flávia respondeu. "Banho quando quiser. Documento. Atendimento. Sem te tirar da rua. Só pra rua não te matar."

Gigi olhou nos olhos dela. Duas mulheres que já dividiram o mesmo barro, agora em lados diferentes da mesma luta.

"Tá. Mas sem promessa de abrigo, viu?"

E as duas ficaram ali. Uma querendo tirar a outra da rua. A outra escolhendo ficar.

Lagoa da Italianinha viu essa cena e entendeu: nem todo mundo que está na rua quer sair. E nem toda vereadora esquece de onde veio.

Flávia virou as costas e foi pro gabinete. Gigi ajeitou a jardineira e seguiu pro viaduto. 

Mesmo chão. Caminhos diferentes.


Alice, o cachorro e as duas irmãs: Wellia e Malu

 


Na foto, fim de tarde. Rua tranquila, folhas no chão e sol batendo de lado. 

Alice vai correndo, blusa rosa, jeans e sorriso aberto. Do lado dela, o cachorro que ganhou de presente. Lingua pra fora, rabo abanando, coleira na mão dela. Leveza total.

Só que por trás dessa cena simples tem uma história de família.

O presente veio de Wellia. 

A mãe. A vilã da cidade. Mulher de negócio frio, olhar duro e fama de não perdoar. Wellia deu o cachorro pra Alice. Dizem que foi pra "educar a menina pra responsabilidade". Dizem que foi pra mostrar que até vilã tem coração. Ninguém sabe.

O que todo mundo sabe é que Alice se dá melhor com a tia Malu. 

Malu é irmã gêmea de Wellia. Mesma cara, alma diferente. 

Enquanto Wellia fecha contrato, Malu abre a porta da cozinha. Enquanto Wellia cobra, Malu abraça.

É na casa da tia que Alice conta os segredos. É Malu quem leva ela pra passear, quem compra ração, quem ensina o nome dos comandos pro cachorro. 

"Tia, por que mãe é assim?" Alice pergunta. 

"Porque sua mãe esqueceu de ser criança, filha. Mas você não vai esquecer."

E ali, no passeio da foto, está tudo. 

O presente da mãe que não sabe demonstrar. 

O carinho da tia que sabe cuidar. 

E Alice no meio, crescendo, correndo, escolhendo ser leve mesmo com duas mulheres tão diferentes criando ela.

O cachorro não escolhe lado. Ele só abana o rabo pros dois. E talvez seja isso que a casa precise.

Porque família é isso: gêmeas opostas, uma menina no meio, e um cachorro pra lembrar que amor também late.



O celular da mendiga chique



Se você anda pelo centro de Lagoa da Italianinha, cedo ou tarde vai trombar com ela.

Warlla. 

Sentada na calçada, óculos escuros, cigarro na mão e o celular na outra. 

Terno vermelho. Camisa branca. Scarpin vermelho. Bolsa vermelha do lado. Tudo sujo de barro e tempo. Mas tudo vermelho. Porque madame não perde a pose nem na queda.

O povo conta que Warlla já foi rica. Mansão, festa, nome na cidade. Perdeu tudo. Negócio que deu errado, gente que sumiu, porta que bateu e apostas. E ela foi parar na rua.

Mas tem coisa que rua não tira: a postura.

Ela não pede. Ela conversa. 

Não aceita qualquer roupa. Lava, costura, combina. 

E agora, como mostra a foto, está ali com o celular na mão. Respondendo mensagem, vendo notícia, dando like na foto da sobrinha. 

"Eu posso não ter casa, mas cabeça eu tenho", ela diz.

O cigarro é pausa. O celular é ponte. 

É através dele que Warlla ainda fala com o mundo que foi dela. 

Tem gente que olha torto. "Mendiga com iPhone?"

Tem gente que respeita. "Aquela ali já foi alguém e continua sendo."

Warlla ensina sem querer: dignidade não é ter dinheiro. É não deixar a vida te transformar em menos do que você é.

Barro na roupa? Tem. 

Mas o batom vermelho continua intacto. 

O salto continua alto. 

E o celular continua na mão.

Porque Warlla pode ter perdido tudo, menos ela mesma.


O encontro: Lidyanny e Anna Paula frente a frente na praça



A praça estava cheia de sol. Bancos vazios, cafés abertos, gente passando. Mas no meio do calçamento, o tempo parou.

De um lado, Lidyanny. 

Vestido preto longo, bota, batom escuro. Cabelo loiro curtinho e uma estrela marrom na lateral da cabeça como assinatura. O olhar frio, direto, sem piscar. Vilã assumida. Não grita, não ameaça. Só encara. E quando ela encara, a cidade treme.

Do outro lado, Anna Paula. 

Veterinária. Camisa rosa, saia azul, sandália baixa. Cabeça raspada, postura firme. E nos braços, um gato rajado, protegido como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.

Elas se encontraram ali. Sem querer. Ou será que foi de propósito?

O gato olhou pra Lidyanny e se encolheu. Anna Paula apertou mais o abraço.

"Solta o caso dos animais da prefeitura, Lidyanny", disse Anna Paula, baixo mas firme. "Já chega de licitação fraudada e canil fechado."

Lidyanny sorriu de canto. Só um canto.

"Anna Paula... sempre salvando todo mundo. Até quando?" 

"Até o dia em que você parar", respondeu a veterinária.

Ninguém gritou. Ninguém encostou na outra. 

Era só o silêncio tenso entre duas mulheres que representam tudo o que a outra odeia. 

Lidyanny: poder, jogo sujo, interesse. 

Anna Paula: cuidado, vida, verdade.

As pessoas ao redor fingiam não ver. Mas todo mundo sentiu. Aquela praça ficou menor por alguns segundos.

No fim, Lidyanny virou e foi embora, salto batendo na pedra. Anna Paula ficou. Ajeitou o gato no colo e respirou fundo.

Porque tem briga que não se resolve com grito. Se resolve com presença.

E Anna Paula estava ali. De pé. Protegendo quem não tem voz.



Rita de Cássia e Dalila: chuva, rua e um amor de criança



Dia chuvoso em Lagoa da Italianinha. O chão brilhando, as vitrines embaçadas e a rua cheia de pressa.

No meio da correria, passa Rita de Cássia. 

Descalça. Calça jeans suja de barro. Blusa preta molhada grudada no corpo. E nos braços, bem segura, a Dalila.

Dalila é a boneca dela. Não tem roupa, não tem sapato. Mas tem nome, tem história e tem colo.

Rita tem mente de criança. O povo da cidade já conhece. Ela conversa sozinha, canta baixinho e dá "mamá" pra Dalila como se fosse de verdade. Quando chove, ela não corre pra debaixo da marquise. Ela anda. Devagar. Sentindo a água no pé e no cabelo.

"Tem que proteger Dalila da chuva, né?" ela diz pra quem parar pra ouvir. E abraça mais forte a boneca.

Tem gente que desvia o olhar. Tem gente que oferece pão. Tem criança que aponta e pergunta: "Mãe, por que a tia tá com uma boneca?"

Rita só sorri. Pra ela, o mundo ainda é simples. É rua, é chuva, é boneca, é cuidado.

Em Lagoa da Italianinha, Rita de Cássia virou paisagem. Mas não é invisível. O padeiro guarda um pedaço de pão. A dona da loja empresta o banheiro quando ela pede "por favorzinho". E na praça, tem sempre alguém que pergunta: "E a Dalila, tá bem?"

Porque mesmo em dia de chuva, mesmo com a vida dura, Rita ensina uma coisa que adulto esquece: cuidar.

Cuidar de quem a gente ama, mesmo que seja uma boneca. 

Cuidar com a mão, com o colo, com a paciência de criança.

Rita e Dalila caminham juntas. Molhadas, descalças, mas juntas.

E talvez seja isso que falte pra gente: um pouco da mente de criança da Rita num dia de chuva.



O poder da aeromoça



Domingo no lago. Decisão rápida: "Bora se molhar, filho?"

Valéria, aeromoça, e Samuel entraram na água de roupa e tudo. Igual criança. Igual mãe e filho que não perdem a chance de brincar.

Só que quando saíram, aconteceu a parte que Samuel ainda não entende.

Ele saiu pingando. Camiseta encharcada, bermuda pesada, cabelo escorrendo. O menino típico depois do banho de lago.

Valéria? 

Saiu, balançou o cabelo, deu dois passos... e estava seca. 

Blazer preto impecável. Camisa azul sem uma marca d’água. Calça social e até o salto alto intacto. Como se nunca tivesse entrado no lago.

Samuel parou na margem e olhou pra mãe: 

"Mãe... como você faz isso?"

Valéria só riu e estendeu a mão pra ele.

"Filho, é o trabalho. Depois de anos entrando e saindo de avião, com conexão em cima da outra, a gente aprende a se virar. A água não pode me atrasar."

Ela chama de "poder da aeromoça". Samuel chama de magia.

A verdade é que Valéria aprendeu a resolver tudo rápido. Mala, voo, fuso horário, casa, filho. Se molhou? Seca. Se atrasou? Corre. Se sujou? Resolve. 

Agora os dois estão voltando pra casa pela estrada de barro. Ele todo lambuzado de lama e orgulho do banho. Ela limpa, sorrindo, olhando pra ele de lado.

"Mãe, me ensina esse poder?" 

"Te ensino sim. Começa secando essa roupa e deixando de pisar em poça."

E os dois riem.

Porque no fim, o verdadeiro poder da Valéria não é secar rápido. 

É transformar qualquer banho de lago em memória, e qualquer dia corrido em tempo com o filho.


Myllena e Mateus: café, terno e conversa de futuro em Lagoa da Italianinha

Cafeteria tranquila. Mesa pequena, café na xícara, livro em cima da mesa. Luz amarela. De um lado Myllena.  Ex-prefeita da cidade, hoje cand...