Em Lagoa da Italianinha tem uma casa grande, de janelas altas e portão de ferro. Casa antiga. Do século XX.
Foi adquirida por duas irmãs gêmeas. Taline e Teane.
Mesmo rosto, cabelo igual, voz parecida. O que muda é o jeito. Taline fala baixo e cuida dos papéis. Teane fala alto e cuida dos quadros.
E os quadros são a herança delas.
Foram pintados por Inalda. A bisavó. Pintora alemã judia que fugiu da Europa e veio parar em Lagoa da Italianinha. Chegou nos anos 1920, comprou a mansão, plantou roseira no quintal e passou 40 anos pintando a cidade, o Agreste, as mulheres na feira, o céu de agosto.
Atualmente a casa tem cerca de 37 quadros guardados. Alguns na parede, outros enrolados, outros embaixo da cama. Todos assinados: _Inalda, 1934. Inalda, 1941._
Taline e Teane cresceram ouvindo a história. "Sua bisavó pintava pra não esquecer de onde veio. E pintava a gente pra gente não esquecer de onde chegou."
Há anos elas guardam tudo. Limpam com pano, passam veneno contra cupim, anotam em caderno.
Agora querem mais. Querem abrir as portas.
O plano: transformar a mansão de Inalda no "Museu da Cultura Alemã de Lagoa da Italianinha".
"Não é só sobre a Alemanha", explica Taline, ajeitando um quadro de 1938 onde Inalda pintou a praça 27 de Dezembro. "É sobre imigração. Sobre judia. Sobre mulher artista. Sobre como uma alemã se apaixonou pelo Agreste."
"A casa tem tudo", completa Teane. "Tem os quadros, tem os pincéis dela, tem as cartas em alemão, tem a cozinha onde ela fazia strudel. Só falta abrir pro povo."
Na semana passada as gêmeas foram no gabinete da *prefeita Giovanna Victorya. De salto, caderno na mão e um porta-retrato com a foto de Inalda.
"Prefeita, a gente quer ajuda", disse Taline.
"Pra fazer um museu", emendou Teane. "Sem cobrar entrada. Pra escola, pra turista, pra quem quiser conhecer."
Giovanna ouviu calada. Olhou os quadros na foto. Uma paisagem da Lagoa, outra da igreja matriz, outra de uma mulher descalça na roça. Tudo com traço europeu e cor de Nordeste.
"Minha mãe Myllena falava da Inalda", disse a prefeita. "Dizia que ela doava quadro pra festa da padroeira. Mas nunca vi pessoalmente."
A prefeita prometeu visitar a mansão. "Se a casa tá de pé e os quadros também, a gente tem que mostrar. Cultura alemã em Lagoa da Italianinha? O povo precisa saber que nossa história não é só de um povo."
Hoje a casa continua fechada. Mas Taline passa o dia limpando vidro. Teane corre atrás de documento, de lei de incentivo, de parceria com universidade.
O sonho delas é simples: abrir a porta. Colocar plaquinha. Deixar criança de escola entrar e perguntar "quem foi Inalda?"
Porque Inalda foi uma refugiada que virou lagoense.
E Taline e Teane são duas gêmeas que não querem deixar a memória da bisavó morrer dentro de quatro paredes.
Lagoa da Italianinha já teve prefeita descalça e prefeita de sapato.
Agora pode ganhar um museu de uma pintora alemã guardado por duas gêmeas.
Se depender de Taline e Teane, a mansão do século XX vai voltar a ter visita. E os quadros de Inalda vão sair do escuro pra contar que Lagoa da Italianinha sempre foi casa de quem veio de longe.






