segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Anna Beatriz e a história de Jacilene


 Numa certa manhã, Fada Allana levou Anna Beatriz para uma praça principal no centro de Vila Dourada, no agreste de Pernambuco, e ao observarem uma estátua, Anna Beatriz perguntou:

- Quem é essa mulher representada na estátua? Ela parece tão bonita.

- É a fundadora de nossa cidade, a francesa Jacilene, que viveu há mais de 200 anos, entre a metade do século XVIII e começo do século XIX. 

- Nossa, faz tempo. A cidade aqui é bem antiga, então. 

- Sim, já tem 214 anos de história, esse ano completará 215 anos. As cidades aqui vizinhas, Lagoa da Italianinha, Serra Grande do Agreste e Nova Humaitá pertenceram a Vila Dourada. Primeiro, em 1890, Serra Grande se emancipou, aí em 1928, Nova Humaitá se emancipou de Serra Grande, e em 1963, Lagoa da Italianinha se emancipou de Vila Dourada. 

- E essa Jacilene? Fale mais sobre ela. 

- Ela nasceu na França em 1752, viveu lá em Paris até 1782, quando veio para o Brasil, mas ela foi morar lá em Vila Rica, onde hoje é Ouro Preto. Lá, ela conheceu um  homem daqui de Pernambuco, com quem se casou e veio morar aqui. Aí, fundaram esse povoado que virou cidade. Ela foi quem deu o nome de Vila Dourada, como se fosse uma homenagem a Vila Rica. Ela era iluminista, era a favor da Revolução Francesa e lutava pela independência do Brasil. Ela chegou a doar jóias para a Revolução Pernambucana de 1817, e ela ainda viveu o suficiente para ver D. Pedro I dando o grito do Ipiranga. 

- Interessante, essa cidade tem muita história. 

- Muita, mesmo. Aqui estamos no Nordeste, mas com toques franceses, por causa da fundadora, e ainda temos uma colônia japonesa aqui que vieram para cá no período de Getúlio Vargas. 

- Eu tô encantada. Muito encantada. Jacilene, uma grande heroína, que veio de tão longe e fez florescer esta cidade perto de Serra Negra e fazer esse lugar ser desenvolvido. 

- Verdade, agora, vamos pra casa, tu tem trabalho. 

- Sim. 

Anna Beatriz foi se afastando, mas não parava de olhar para a estátua. 

A juíza e a mendiga


 Numa certa tarde, na rodoviária de Lagoa da Italianinha, a juíza Suely estava conversando com a mendiga Andreza, que viera lhe pedir uma esmola. Suely disse:

- Estás com fome mesmo?

- Muita. 

- Senta aí, eu vou te pagar um lanche. 

Andreza, feliz, se sentou e começou a conversar. O lanche foi servido, e Andreza disse:

- E a senhora não vai comer nada, doutora?

- Não, eu já comi. Pode me chamar de Suely mesmo. 

- Obrigada, dona Suely. 

Mesmo Andreza com cheiro forte de cigarro, urina, mau hálito, chulé e forte odor nas axilas, Suely ficou ao seu lado. Andreza disse:

- O povo diz que eu fedo muito, não se importa uma madame tão fina e tão elegante ficar perto de mim?

- Não, eu não me importo. Não me considero melhor do que você por isso, não. 

Andreza disse:

- Que mal lhe pergunte, dona... porque a senhora é careca?

- Foi decisão minha. Eu sempre quis ser, mas era preocupada com as opiniões alheias. Mas eu raspei a cabeça e já tem 9 anos que eu sou assim. 

- Gozado é que eu tô de sapatos, e quem tá descalça é a senhora, que é rica. - disse Andreza. 

- Sim, pra que as pessoas vejam que esse negócio de andar de pés no chão não tem nada a ver com pobreza ou riqueza. Eu também abandonei os calçados, e foi decisão minha. 

- Já eu não consigo, dona. Não tiro os sapatos nem pra dormir e nem pra tomar banho. Por isso essa catinga forte de chulé que a senhora deve estar sentindo. - disse Andreza. 

- Sim, mas eu tenho alguns sapatos em casa, como eu não uso sapatos mais, eu posso lhe dar alguns. Se quiser, claro. 

- Claro que sim. 

- Mais tarde, eu procuro lá e amanhã eu trago aqui na lanchonete e deixo com Marlene. 

- Obrigada. 

Suely se levantou e apertou a mão de Andreza, dizendo:

- Levante-se, pra mim te abraçar. 

- Me abraçar???? A senhora vai ficar fedendo. 

- Deixe de coisa, faça o que estou pedindo. 

Andreza se levantou e Suely a abraçou. Suely disse:

- Se preocupe, não, tô indo agora pra casa. Mas mesmo você sendo de rua, saiba que você é importante pra Deus. 

- A senhora é crente?

- Sou, mas isso não vem ao caso. Antes de ser crente, sou cristã. 

Suely cumprimentou Andreza e foi para sua casa, enquanto Andreza ainda terminou o lanche. 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ruth protege Tia Sandra nas noites de Verona


No ano de 1936, numa noite fria de Verona, a mendiga Ruth parecia proteger a famosa Tia Sandra, deitada com uma boneca do lado. Tia Sandra havia fugido de casa, chegando a passar dois anos morando nas ruas antes de ir para um hospício em Milão. 

Ruth protegia Tia Sandra, que tinha mente de criança, como se fosse uma filha sua. Nessa ocasião, Ruth tinha 57 anos, enquanto Tia Sandra tinha 45 anos, mas com mente de criança. 

Tia Sandra logo pegou no sono, e Ruth dizia:

- Dorme, querida, dorme... parece um anjo...

Nessa ocasião, a família de Tia Sandra pouco se interessava por ela. A única que realmente se preocupava com ela era a sobrinha dela, Lanie, mas ela tinha se mudado para o Brasil em 1935 devido à perseguição da ditadura fascista. 

E assim, as duas mendigas conviveram juntas por cerca de dois anos, entre 1935 e 1937. Tia Sandra saiu das ruas e ainda viria a ser internada em um manicômio antes de ir para o Brasil em 1946. Ela nunca mais veria Ruth, mas se lembrava dela com carinho. 

Já Ruth só saiu das ruas em 1958, indo para um abrigo, já com 89 anos de idade. Ruth tinha 92 anos, em 1961, quando chegou a notícia que Tia Sandra havia sido elevada para o céu no interior de Pernambuco. Ruth respondeu:

- Não duvido que isso seja verdade. Ela era tão pura...

Mimi é atacada por homem preconceituoso


 Na rodoviária de Lagoa da Italianinha, aconteceu uma discussão entre um homem de fora e Mimi e Valdenes. Em dado momento, ao ver Mimi, ele ficou olhando-a com zombaria, por causa do estilo dela. Mimi disse:

- Tá rindo do que?

- Na boa, tu parece uma ET. Olha isso, careca, um pé calçado e outro descalço...Você é a mulher mais feia e doida que eu já conheci. 

- Não diga, sou feia, né? Devo parecer com sua vovozinha. 

- Epa, me respeita, ET. 

- Você quem começou, imbecil!

Valdenes passava por perto, e acabou tomando as dores de Mimi, mesmo sem ser muito próximo dela. O homem riu: 

- Esse idiota dos pés descalços é teu namorado, é? Dá um par certo, dois doidos. 

- Não sou namorado dela, mas admiro essa mulher - disse Valdenes. 

- Tu é muito imbecil, cara, tu descalço, não tem sapatos, não?

- Tenho, mas só uso quando tomo banho, com roupa e tudo. 

Ele riu e disse:

- Não sei quem é mais doido. Uma careca de um pé calçado e outro descalço e outro doido que é descalço mas toma banho de roupa e sapatos. Essa daí deve ser mendiga, nossa. 

Valdenes disse:

- Engano seu, ela foi candidata a prefeita e teve 23 mil votos. 

- O que??? Ainda teve 23 mil malucos votando na ET?

- Pare de me chamar de ET, seu imbecil, que eu chamo a polícia. 

- Você é uma ET, sim. Por que tu usa uma sandália só em um pé e o outro é descalço?

- Isso não te interessa. É meu jeito de ser e eu gosto de ser assim. 

De repente, chegaram na hora os policiais Júnior e Ana Clécia, que perguntaram:

- Algum problema?

- Esse idiota está tratando mal Mimi, e chamou-a de ET. 

Ana Clécia disse:

- Oxe, mais um crime nas costas desse homem. 

- Como assim, mais um crime? - perguntou Mimi.

Júnior colocou as algemas nele e disse:

- Você está preso por preconceito, racismo, assassinato cometido em Serra Grande, extorsão em Nova Humaitá, atropelamento em Vila Dourada e chantagem em Lagoa da Italianinha. 

- Caramba, esse cara é o cavalo do cão! - disse Valdenes. 

O homem preso disse:

- Essa ET e esse amiguinho dela me pagam, se não tivessem me distraído eu não estaria preso. 

- Vai-te embora, carniça! - disse Mimi. 

O homem foi colocado no camburão e levado preso. Mimi disse ao Valdenes:

- Obrigada por me defender. Como recompensa, passa lá na minha barraca amanhã de manhã e meio-dia, tome café e almoce lá por minha conta. 

- Muito obrigado, amiga. - disse Valdenes. 

Josenilda e Marlene se divertem na piscina

 

Num certo domingo, Josenilda convidou Marlene para visitar a piscina da casa de uma amiga dela. Marlene disse:

- Tu vai pra piscina? Dessa vez tu vai com traje de banho, hein? 

- Jamais. Eu vou entrar até de tênis, e eu falei pra ela que tu também toma banho assim. 

- Puxa, ótimo. Eu já gostei. 

Josenilda e Marlene foram na casa da amiga, que entraram vestidas na piscina, e os banhistas ao lado ficaram surpresos. Um deles disse:

- Duas matutas doidas, têm vergonha dos seus corpos, é? Devem estar feios pra caramba, têm que entrar assim na água, nem os tênis tiram. 

Josenilda disse:

- Doida é a sua vovozinha, eu entro como eu quiser, a roupa é minha e tu não tem nada com isso. Fica na tua!

Marlene retrucou:

- É isso mesmo, fica na tua, mané.

- Brabinhas as duas, olha pra isso. Não sei como a dona da casa deixa essa cena ridícula acontecer. 

A dona da casa também estava nadando, com trajes de banho, e vendo o que estava acontecendo, disse ao rapaz:

- Deixe elas em paz, elas gostam de tomar banho assim, vestidas. 

- São duas doidas. 

- Pare de desrespeitá-las, senão tu pode pegar tuas trouxas e vazar daqui. 

O homem ficou calado, enquanto Josenilda e Marlene se divertiam. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Amor à primeira vista em Lisboa


O ano era 1920. Em um bar no centro de Lisboa, o jovem José Maria sentou-se para beber um pouco, e de repente, virou seus olhos para uma cena que o deixou encantado: uma bela jovem de 21 anos, Mary Dee, cantando para o público presente. 

José Maria mandou chamar o garçom e disse:

- Garçom, quem é esta moça? 

- Ela chegou em Lisboa faz pouco tempo. O nome artístico dela é Mary Dee. 

- Ela é muito linda. 

José Maria se levantou e ficou observando-a. Mary Dee também parecia gostar do novo fã. Um homem que tocava uma guitarra portuguesa ficou observando os dois. Quando ela terminou sua apresentação, José Maria disse:

- Desculpe, não quero atrapalhar. Aquele homem está olhando para cá. Deve ser seu marido, com ciúmes. 

- Eu???? Eu sou solteira. Aquele é meu primo. 

- Sério????

- Sim, eu até namorava, mas acabei faz uns dois meses. 

José Maria convidou Mary Dee para jantar com ele. Dali se iniciou um romance. José Maria não conseguiu a aprovação de sua família, católica ultraconservadora, pois Mary Dee era liberal para seu tempo. Mesmo assim, eles se casaram, brigados com suas famílias, e em 1929, nasceu Manuel, o único filho do casal. 

Durante a ditadura de Salazar, José Maria foi preso, e ele mandou que Mary Dee e Manuel fugissem para o Brasil, o que foi feito, se estabelecendo na atual Lagoa da Italianinha, em Pernambuco. José Maria foi solto depois da guerra e foi para o Brasil ao encontro de sua amada esposa, depois de 11 anos sem se verem. Passaram o resto de seus dias casados e morando em Lagoa da Italianinha, no Brasil. 

Hoje, alguns de seus descendentes vivem em Porto: Manuel, o filho deles, ainda vivo, com a filha dele, Fátima, e alguns netos. Já em Lagoa da Italianinha, vivem os bisnetos deles, as irmãs Paula, Luciana, Débora e Mimi, e um primo chamado Caio, entre outros. 

Deza e Warlla trocam ofensas na rua


Numa rua deserta de Lagoa da Italianinha à noite, as mendigas Deza e Warlla estavam discutindo uma com a outra, de forma calorosa. Warlla, conhecida como "mendiga chique", tem relação difícil com outros mendigos, pois mesmo ela morando nas ruas, ainda se acha superior a eles. 

Warlla, em dado momento, disse à Deza:

- Sabia que eu te odeio?

- Não diga. É recíproco. 

- Tu aí suja, não toma banho faz quase 40 anos, caramba, como tu vive assim, hein?

Deza disse:

- Eu percebo que tu não deixa de ser besta mesmo depois que tu perdeu tudo. Eu moro nas ruas há 39 anos, conheço todos dessa cidade, e você, quando era rica, me humilhou várias vezes. 

- Nunca te humilhei, só coloquei tu no seu lugar. 

Deza disse:

- E qual seu lugar agora? Dormindo em calçada feito eu, suja, feito eu e fedida feito eu, a única diferença é que tu toma banho e eu não tomo banho, só isso. 

- Tu deve ser uma velha muito derrubada, eu era criança e já te via na rua. 

Deza pegou o cabelo de Warlla e ia puxando, dizendo:

- Me respeita, que eu tenho idade pra ser tua mãe. 

- Me solta. Eu não tenho uma mãe fedorenta e porca. 

Deza disse:

- Tem razão. A sua mãe é uma pessoa de ótima índole, por sinal, ela vive lá em Caruaru e não quer saber de tu, porque tu aborrecesse muito ela. Pensa que eu não sei da história da péssima filha que você foi?

- Isso é problema meu. 

- Tem razão. Só estou te dizendo umas verdades. 

Deza ia saindo, e pegando um cigarro, ia fumar, e Warlla disse:

- Me dá um cigarro, pelo menos. 

Deza jogou o cigarro para Warlla, dizendo:

- Toma, e desapareça daqui! 

Warlla saiu dali, e Deza se deitou em uma calçada ali perto. 

Anna Beatriz e a história de Jacilene

 Numa certa manhã, Fada Allana levou Anna Beatriz para uma praça principal no centro de Vila Dourada, no agreste de Pernambuco, e ao observa...