- Pode entrar, moça, não se preocupe. Fique à vontade.
- Obrigada! - disse Rafaela.
- Nunca tive a oportunidade de te conhecer, eu cresci longe daqui passando anos morando na Alemanha e na Áustria. É verdade que você foi mais rica do que eu, tu era de Limoeiro e decidisse largar tudo pra viver na floresta, debaixo de árvores?
- Sim, é verdade.
- Mas como tu consegue?
- Quem ama a natureza feito eu, dona Giovanna...
- Pode me chamar de Giovanna, tenho frescura, não.
- Bom... quem ama a natureza, Giovanna, se sente bem nela.
Giovanna disse:
- Eu escutei dizer que tu tem uma lábia boa, até a ex-vereadora Adriana foi na tua conversa e foi morar lá. Ela largou a carreira política, largou a psicologia, largou tudo, mesmo.
- Bom, ela foi porque se sentiu bem, eu só fiz reforçar...
- Mas e como ela está? Minha mãe fala muito dela.
- Adriana não vive mais conosco, ela, por questões de saúde, teve que ir para um chalé, mas ela mora bem perto da gente.
- Sei... entendi. E onde vocês dormem?
- Na mata, mesmo, entre as árvores.
- Caramba, eu não me imagino morando nem mesmo nas ruas, que dirá numa mata.
Rafaela disse:
- Eu só espero, prefeita, que a senhora possa nos respeitar em nosso estilo de vida. Não tenho a menor intenção de voltar à civilização.
- Mas tu anda tentando convencer as pessoas a irem pra mata.
- Sim, é verdade. Mas sei que nem todos irão, a minoria irá.
- Bom, Rafaela, tudo bem, eu não estou aqui pra te criticar, nem nada, mas quero saber se lá tem algo que a Prefeitura possa intervir, pois eu quero informações.
- Bom, Giovanna... é que lá a gente só enfrenta aquela dona Fafá, que ainda não desistiu de fazer uma fábrica de perfume lá, destruindo a mata. Não só a gente como os índios da aldeia próxima estão apreensivos.
- Não se preocupe, que com Fafá eu me entendo. Eu conheço a peça. Vou indo agora para um restaurante, almoçar, quer ir comigo?
- Eu? Uma simples selvagem de pé descalço do lado de uma dama feito a senhora?
- Oxe, que é que tem? Minha mãe só vive descalça, também. E você é gente feito eu. Vamos embora.
- Tudo bem, mas eu só não como carne, tá? - disse Rafaela.
- Certo.
Giovanna e Rafaela foram almoçar, e depois, a própria Giovanna levou Rafaela até o Vale dos Gatos, onde ouviu alguma reivindicações.






