quarta-feira, 11 de março de 2026

Warlla e mais um aniversário nas ruas


Sozinha no mundo, Warlla, a "mendiga chique", completou mais um ano de vida com apenas uma pessoa do lado: a mendiga Priscila, que ironicamente, foi sua inimiga até alguns dias atrás. Warlla disse para Priscila:

- Um dia desses tu fizesse aniversário, agora sou eu quem faço. 

- Uau, parabéns. 

- Muito obrigada. Mais um aniversário morando na rua, garota. Esse é o quinto aniversário seguido morando na rua. 

- Não tem vontade de procurar sua família?

- Nenhuma. Tu falou mal de sua família, mas eles são piores. Estão lá em Caruaru no bem-bom e não querem nem saber de mim. Tu no seu dia, tu ainda ganhou uma marmita, eu nem isso vou ganhar. 

Priscila disse:

- Olha, eu tenho um trocado que roubei de um besta, eu posso te convidar pra fazer um lanche comigo... Eu não sou boa pessoa, mas vou ficar boazinha por hoje, pelo menos...

- Tá bom, vou topar porque tô com uma fome terrível! 

Warlla e Priscila foram para lanchonete na rodoviária. Enquanto isso, em Caruaru, o professor Ricardo viu sua esposa Lourdes pensativa, e disse:

- O que tens, mulher?

- Hoje é aniversário da nossa filha Warlla. 

- Uma filha que nos deu tanto desgosto...

- É verdade. Quando eu vejo o que se tornaram Vanderson, Marilu, Washington e Wellington, nossos outros filhos, eu fico com orgulho, mas Warlla me dá vergonha. 

- Foi o caminho que ela escolheu, Lourdes. Infelizmente. E ela nos odeia, também. 

- Sim, eu sei. A única coisa que posso fazer é orar por ela, apenas isso. Fico pensando nela morando nas ruas lá em Lagoa da Italianinha, naquele frio da serra das Russas, sem casa, nem comida, nem ninguém do lado dela...

- Infelizmente, ela está colhendo o que plantou. Ninguém planta maçã e colhe banana. 

- Verdade, meu velho...

Suely é questionada por Marlene


Numa certa manhã, a juíza Suely foi à rodoviária de Lagoa da Italianinha tomar café na lanchonete de Marlene, e em dado momento, Marlene a observava muito. Marlene, em dado momento, perguntou:

- Dona Suely, a senhora assim, quer dizer, careca, e andando descalça assim pra todo lugar, o povo fica te olhando, acho que a senhora é alvo de piadas, né?

- Eu já estou acostumada. Já recebi até alertas do desembargador, mas eu consegui contornar tudo. Não existe nada na Lei que me impeça de adotar esse visual. 

- Mas, senhora, porque a senhora... é... não deixa seus cabelos crescerem? Eu lembro quando a senhora tinha cabelos, era tão bonita...

- Eu nunca achei. Acho que estou mais bonita hoje. Não é se os outros acharem, é se eu achar. Já são nove anos de cabeça raspada e passando a gilete de dois em dois dias, já virou rotina. Não me imagino de jeito nenhum com cabelos de novo. 

- E eu não sei como a senhora aguenta andar descalça, hein? Eu mesma não consigo, não tiro os tênis nem quando tomo banho. 

- Sentir o chão é bom demais. Já tive sapatos, mas eu me sentia escravizada por eles, adotei o mesmo hábito da minha irmã Myllena. Joguei meus calçados fora, os que ainda poderiam ser usados dei aos pobres, e estou assim hoje de pés no chão, e estou feliz assim. 

- Não se importa com críticas, né?

- Não. Nem um pouco. Eu só me arrependo é de não andar descalça desde criança, como minha irmã. 

Marlene disse:

- Bom, se a senhora acha que deve viver sem cabelos nem calçados, tudo bem, é um direito seu...

- Calçados não deveriam ser artigo obrigatório, deveria ser usado só por quem não gosta de andar descalça, que é seu caso. Mas quem gosta, deveria ter esse direito de andar sempre assim de pés no chão. Aqui é um preconceito danado, mas lá na Austrália, o pessoal anda descalço de boa, pelas ruas, sem nenhum tipo de discriminação. Quando fui lá, me senti em casa. E olha que já faz mais de vinte anos que vivo descalça...

- Tá bom, doutora. 

Suely terminou seu lanche, e disse:

- O mal das pessoas é querer viver de acordo com os outros. Eu me sinto bonita e elegante assim como sou. E tem pessoas que me admiram assim. Pela minha autenticidade. Nunca seja o que os outros querem, e sim o que você quer. Desde, que claro, não seja nada de errado contra a lei. Eu ando descalça, sou careca, tomo banho de roupa, durmo na rede...

- Pelo menos tomar banho de roupa, a senhora é igual a mim, eu também faço isso! 

- Muito bem, temos algo em comum. Agora, vou trabalhar. Fica na paz. 

Suely saiu dali, e Marlene ficou pensativa. 

terça-feira, 10 de março de 2026

Um amor que venceu barreiras

 

No ano de 1785, a brasileira Fabiana, nascida na Bahia e morando em Vila Rica, Minas Gerais, se rendera ao encanto do americano Wrialle, que estava no Brasil desde o ano anterior, depois de ter participado da Revolução Americana. Curiosamente, Wrialle, que era da Filadélfia, sempre rejeitava compromissos amorosos, mas ao chegar no Brasil, se encantou por uma simples camponesa. 

Em um de seus encontros, os dois acabariam se beijando. Fabiana não ofereceu resistência, pois já o amava há algum tempo. 

Não demorou muito para que Wrialle tivesse que enfrentar a resistência dos pais de Fabiana, que não gostavam da ideia dela se casar com um estrangeiro, e ainda por cima, protestante. A família de Fabiana era católica convicta. 

Mesmo assim, os dois sabiam o que queriam. Casaram-se anos mais tarde e viveram juntos um do outro. Quando já idosos, em 1824, partiram para a Filadélfia, onde passariam os restos de suas vidas. 

Discussão na cachoeira


Numa certa tarde, na cachoeira Sol Nascente, as irmãs gêmeas Wéllia e Malu estavam ali, quando viram o Valdenes, e em dado momento, Malu começou a conversar com ele. Wéllia não gostou, pois ela detesta Valdenes. 

Wéllia começou a provocar:

- Vocês dois, dariam um par certo, dois malucos, com roupas dentro da água e ainda são nojentos, pois vivem descalços por aí...

- Eu sou nojenta? - disse Malu. 

- Claro, andar descalço é coisa de nojentos. 

Valdenes riu e disse:

- Tu falando em nojeira? Tu, que faz xixi e cocô nas calças, falando em nojeira, Wéllia?

- Não tem nada a ver. 

- Tem a ver, sim, sua hipocrisia. 

Malu disse:

- Parem, vocês dois. Não quero brigas aqui. Poxa, viemos nos divertir, e Valdenes é meu amigo, Wéllia. 

- Desses amigos, tô fora. Vou embora, quer ficar conversando com ele, fique. 

Wéllia saiu da cachoeira, pôs uma roupa e foi embora. Valdenes disse:

- Malu, desculpe o que eu disse, mas ela ficou te provocando e...

- Não se preocupe, Valdenes, ela errou mesmo, chamar a gente de nojento quando ela faz algo muito mais anti-higiênico chega a ser hipocrisia. 

O ato de bondade de Antônio Neto


Certo dia, no ano de 1942, em frente à igreja matriz em Vila Dourada, a beata Mônica estava com seu filho Antônio Neto que tinha um prato de comida na mão. Mônica percebeu que o filho estava dando essa comida para a Valdinha, a mendiga que pedia esmolas na porta da igreja. 

Mônica disse:

- Onde tu arrumasse essa comida, filho?

- Fui comprar na venda mais próxima pra dar à ela. 

Valdinha disse:

- Obrigada, meu filho, tu é tão bom coração...

- De nada. 

- Minha filha Rayane tá por aí, eu vou guardar um pouco pra ela - disse Valdinha. 

- Certo. 

Depois, Mônica e Antônio Neto foram para a igreja, e Mônica disse:

- Nem acho bom tu ficar dando esmolas assim pra essa mulher, ninguém sabe da história dela. 

- Mãe, Jesus manda que a gente ajude os mais pobres. A senhora só vive do lado do padre, deveria saber disso. 

- Mais respeito, menino! Sou uma mulher religiosa, tenha mais respeito. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Myllena tenta frear a ambição de Ilene


A prefeita de Lagoa da Italianinha, Myllena, às vésperas de deixar o cargo para ir tentar um mandato de deputada estadual, quer colocar freio nas ambições de sua irmã mais velha Ilene, que anda incomodando muito a prefeita descalça. A relação entre as duas irmãs nunca foi das melhores, e Myllena só colocou Ilene no primeiro escalão a pedido de sua outra irmã, Karoline. 

Ilene, por sua vez, tenta jurar fidelidade à prefeita, mas anda trabalhando nos bastidores com integrantes da oposição. Para complicar, Myllena teria dito à sua filha Giovanna Victórya, que é vice-prefeita, e está prestes a assumir o cargo, para dar um jeito de tirar Ilene do primeiro escalão. 

Ilene é empresária e dona de uma agência de modelos inusitada, onde as modelos são retratadas ou fotografadas tomando banho de roupa e tudo, um hábito que a própria Ilene pratica no seu dia a dia. Cláudia e Érica, duas modelos italianas, fazem parte do quadro de modelos, além da própria Ilene, que também grava vídeos e se fotografa se molhando. Ilene, que acabou de completar 48 anos, tem aparência de ter muito menos, e já foi modelo quando tinha seus 20 anos. Ela também convidou Danúzia, a filha do deputado estadual Moab, para entrar na agência como uma das modelos. 

As ambições de Ilene são muito maiores. Ela nunca escondeu que sonha em ser prefeita em Lagoa da Italianinha. E é isso que tem incomodado muito Myllena, pois ela sabe que sua irmã é um tanto perigosa e não tem ideias coletivas, mas apenas individuais. 

A amizade de Inalda e Mary Dee


Lagoa da Italianinha, no agreste de Pernambuco, é famosa por ter sido fundada por italianos. Entretanto, existem duas outras colônia minoritárias de estrangeiros na cidade, que também exercem influência cultural. E em 1936, as duas representantes dessas duas colônias se tornaram amigas inseparáveis. 

Nessa época, a artista plástica judia alemã Inalda pintou um  quadro da cantora portuguesa Mary Dee. Inalda já morava ali desde 1915, quando deixou a Alemanha por conta da Primeira Guerra Mundial. Já Mary Dee tinha chegado ali recentemente com os italianos, tendo deixado Portugal por conta da ditadura salazarista. 

E ambas escolheram um pequeno sítio do agreste de Pernambuco para recomeçar suas vidas. Inalda, naquela tarde, pintou um quadro de Mary Dee, que ficou encantada com o resultado. Ambas eram artistas, pois Inalda pintava quadros e Mary Dee cantava. Eram próximas até na idade: Inalda nascera em 1895 e tinha 41 anos na época, e Mary Dee nasceu em 1899 e tinha 37 anos. 

Inalda disse:

- Gostou do quadro? 

- Ameeeeii, fiquei encantada. Muito obrigada! - respondeu Mary Dee, abraçando a pintora. 

Anos mais tarde, essas duas amigas seriam responsáveis por lançar sementes de outras culturas em uma cidade dominada pela cultura nordestina, onde estava situada, e pela cultura italiana, dos fundadores oficiais da cidade. Os descendentes de Inalda preservam a cultura germânica, e os descendentes de Mary Dee preservam a cultura lusitana., e tentam divulgá-las nesse universo multicultural que a cidade oferece. 

Taline e Teane, irmãs gêmeas e bisnetas de Inalda, tentam abrir um museu na casa onde Inalda morou, e a ex-candidata a prefeita Mimi, bisneta de Mary Dee, tem lutado para abrir um museu em homenagem à Mary Dee, que já batiza um bairro e um hospital, inclusive. 

Warlla e mais um aniversário nas ruas

Sozinha no mundo, Warlla, a "mendiga chique", completou mais um ano de vida com apenas uma pessoa do lado: a mendiga Priscila, que...