quinta-feira, 9 de julho de 2026

Taline, Teane e o sonho do Museu de Inalda



Em Lagoa da Italianinha tem uma casa grande, de janelas altas e portão de ferro. Casa antiga. Do século XX. 

Foi adquirida por duas irmãs gêmeas. Taline e Teane.

Mesmo rosto, cabelo igual, voz parecida. O que muda é o jeito. Taline fala baixo e cuida dos papéis. Teane fala alto e cuida dos quadros.

E os quadros são a herança delas. 

Foram pintados por Inalda. A bisavó. Pintora alemã judia que fugiu da Europa e veio parar em Lagoa da Italianinha. Chegou nos anos 1920, comprou a mansão, plantou roseira no quintal e passou 40 anos pintando a cidade, o Agreste, as mulheres na feira, o céu de agosto.

Atualmente a casa tem cerca de 37 quadros guardados. Alguns na parede, outros enrolados, outros embaixo da cama. Todos assinados: _Inalda, 1934. Inalda, 1941._

Taline e Teane cresceram ouvindo a história. "Sua bisavó pintava pra não esquecer de onde veio. E pintava a gente pra gente não esquecer de onde chegou."

Há anos elas guardam tudo. Limpam com pano, passam veneno contra cupim, anotam em caderno. 

Agora querem mais. Querem abrir as portas.

O plano: transformar a mansão de Inalda no "Museu da Cultura Alemã de Lagoa da Italianinha".

"Não é só sobre a Alemanha", explica Taline, ajeitando um quadro de 1938 onde Inalda pintou a praça 27 de Dezembro. "É sobre imigração. Sobre judia. Sobre mulher artista. Sobre como uma alemã se apaixonou pelo Agreste."

"A casa tem tudo", completa Teane. "Tem os quadros, tem os pincéis dela, tem as cartas em alemão, tem a cozinha onde ela fazia strudel. Só falta abrir pro povo."

Na semana passada as gêmeas foram no gabinete da *prefeita Giovanna Victorya. De salto, caderno na mão e um porta-retrato com a foto de Inalda.

"Prefeita, a gente quer ajuda", disse Taline.

"Pra fazer um museu", emendou Teane. "Sem cobrar entrada. Pra escola, pra turista, pra quem quiser conhecer."

Giovanna ouviu calada. Olhou os quadros na foto. Uma paisagem da Lagoa, outra da igreja matriz, outra de uma mulher descalça na roça. Tudo com traço europeu e cor de Nordeste.

"Minha mãe Myllena falava da Inalda", disse a prefeita. "Dizia que ela doava quadro pra festa da padroeira. Mas nunca vi pessoalmente."

A prefeita prometeu visitar a mansão. "Se a casa tá de pé e os quadros também, a gente tem que mostrar. Cultura alemã em Lagoa da Italianinha? O povo precisa saber que nossa história não é só de um povo."

Hoje a casa continua fechada. Mas Taline passa o dia limpando vidro. Teane corre atrás de documento, de lei de incentivo, de parceria com universidade.

O sonho delas é simples: abrir a porta. Colocar plaquinha. Deixar criança de escola entrar e perguntar "quem foi Inalda?"

Porque Inalda foi uma refugiada que virou lagoense. 

E Taline e Teane são duas gêmeas que não querem deixar a memória da bisavó morrer dentro de quatro paredes.

Lagoa da Italianinha já teve prefeita descalça e prefeita de sapato.  

Agora pode ganhar um museu de uma pintora alemã guardado por duas gêmeas.

Se depender de Taline e Teane, a mansão do século XX vai voltar a ter visita. E os quadros de Inalda vão sair do escuro pra contar que Lagoa da Italianinha sempre foi casa de quem veio de longe.


O Silêncio de Solange



Em Lagoa da Italianinha, todo mundo conhece Solange. 

E ninguém conhece Solange.

Ela mora na rua. Há anos. Não tem barraca, não pede, não fala alto. Escolhe uma calçada diferente a cada noite. Dorme enrolada num lençol surrado, com uma sacola do lado servindo de travesseiro.

É conhecida por duas coisas: ser misteriosa e ser discreta. 

Não dá bom dia. Não conta história. Não briga. Passa o dia sentada na praça 27 de Dezembro, olhando o chafariz. Quando chove, some. Quando o sol volta, ela tá lá de novo. Como se tivesse brotado do chão.

O povo respeita. Deixa marmita na porta da igreja. Deixa água na calçada. Ela pega de noite, quando ninguém vê.

Foi numa terça-feira. Madrugada fria.

Alguém deixou uma marmita de alumínio na calçada da padaria, bem do lado onde Solange dormia. Arroz, feijão, frango e um pedaço de laranja por cima. Tava tampada, com um bilhete: "Pra quem precisar. Deus abençoe."

Solange dormia. Não viu quem deixou.

Quando o sol raiou, umas 5h30, ela abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi a marmita. Fria. Com orvalho em cima.

O povo que passava pra trabalhar parou e olhou. "Será que ela vai comer?"

Solange não olhou pra ninguém. Sentou na calçada mesmo. Tirou a tampa devagar, como se tivesse medo de assustar a comida.

Comeu com a mão. Devagar. Um grão de arroz de cada vez. Mastigava olhando pro chão. 

Não agradeceu em voz alta. Não chorou. Não fez discurso.

Só comeu. Até a última colherada de feijão. Até chupar o osso do frango. Até guardar a casca da laranja no bolso.

Quando terminou, lavou a marmita na torneira da praça. Devolveu limpa, do lado do lixo da padaria. Pra quem deixou, saber que foi usada.

Dona Claudines da padaria perguntou: "Solange, tava bom?"

Ela balançou a cabeça. Só isso. Um sim com os olhos.

Seu Zé do táxi disse: "Quem deixou comida pra tu, Solange?"

Ela encolheu os ombros. Continuou sentada.

Ninguém sabe de onde Solange veio. Ninguém sabe por que está na rua. Ninguém sabe se tem família.

O que o povo sabe é que naquela manhã ela comeu sem fazer cena. Sem humilhar quem deu e sem se humilhar por receber.

É isso que faz ela ser misteriosa. 

Porque em Lagoa da Italianinha, pobre grita. Rico grita. Político grita. 

Solange não. Solange come calada.

E quando o prato esvazia, ela some de novo. Até a próxima madrugada. Até a próxima marmita. Até o próximo silêncio.

Na rua, Solange não pede nada.  

Mas ensina tudo sobre dignidade.

Warlla dorme na rodoviária


Warlla, a "mendiga chique", passou a noite dormindo no Terminal Rodoviário em Lagoa da Italianinha. 

A loira havia bebido excessivamente na noite anterior, e embora prefira dormir em becos, não aguentou permanecer em pé e sequer conseguiu sair da rodoviária, caindo no sono.

O vigia da rodoviária estava incomodado com a presença dela, mas como o local estava deserto, decidiu deixá-la por lá. 

Mas por volta das 3h30 da manhã, Warlla foi acordada pelo vigia, pois nessa hora ja estavam saindo os primeiros ônibus do dia. Warlla disse:

- Não pode esperar mais não? Inventa de me acordar agora?

- Eu te deixei aqui até agora, mas tu tem que ir embora!

Resmungando muito, Warlla saiu dali e foi dormir do lado de fora, no pátio da rodoviária. 

Samuel brinca no rio


O maluquinho Samuel, conhecido pelo seu jeito despojado, desafiou sua família e foi mergulhar no rio que passa pela cidade de Lagoa da Italianinha. 

Sua mãe Valéria, que vive em Londres, por ser aeromoça, não se importa muito com as maluquices do filho. Ele também sonha em conhecer a Inglaterra um dia.

Alguns que viram Samuel no rio zombavam dele, e Samuel gritava:

- Estão rindo do que? Vão procurar lavagem de roupa!

A notícia chegou a Alice, a melhor amiga de Samuel. Mateus, que também gosta de Alice, disse a ela:

- Não sei o que tu vê nesse maloqueiro. Ele não bate bem do juízo!

- Sei lá, é isso que eu mais gosto nele... 

Samuel só saiu do rio duas horas depois.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O dia que Giuliana chegou no Recife


 

O navio encostou no porto do Recife numa manhã quente de setembro de 1939. O mundo lá fora pegava fogo com a guerra, mas aqui o sol batia forte no cais e o cheiro era de sal, café e gente com pressa.

No meio dos passageiros de terno e chapéu, uma mulher chamou atenção.

Giuliana, 30 anos. Vinda de Nápoles. 

Vestido simples de chita, cabelo preso num coque, mala de papelão na mão. E os pés. Os pés descalços no chão quente do cais.

O fiscal da imigração estranhou.

"A senhora perdeu o sapato?"

Giuliana sorriu, com aquele sotaque cantado do sul da Itália.

"Não perdi, moço. Eu não uso. Pé no chão é pra lembrar de onde eu venho."

Giuliana não era senhora. Era camponesa. Filha de quem plantava tomate e azeitona nas colinas perto de Nápoles.

Cresceu descalça na terra. Subia morro, carregava água, colhia no sol. Quando a guerra começou na Europa em 1939, o medo chegou primeiro que as bombas. O pai foi chamado. A casa ficou sem homem. O medo de fome ficou maior que o medo do mar.

Pegou o pouco que tinha, um endereço de um primo que já morava no Brasil e embarcou. Sozinha. Valente.

"Na Itália o chão era pedra e frio", ela contava depois. "Aqui o chão é quente. Então eu ando. Pra agradecer."

Chegar era difícil. Mulher, sozinha, sem dinheiro, sem sapato e falando italiano misturado com um português que aprendia no navio.

Mas Giuliana tinha duas coisas: coragem e mão pra trabalho.

Foi morar num cortiço na Boa Vista com outras famílias de imigrantes. No primeiro dia já arrumou serviço lavando roupa. No segundo, já estava na feira da Madalena vendendo macarrão que ela mesma fazia. Pouco depois arrumou emprego em uma casa de família. 

O povo olhava: "Aquela italiana anda descalça!".

As patroas diziam: "Menina, calça um sapato".

Ela respondia: "Sapato é pra quem esquece a terra. Eu não esqueço."

E andava. Descalça na Ladeira da Misericórdia, descalça no Mercado de São José, descalça na areia de Boa Viagem no domingo.

Em 1940, um homem tentou tomar a banca dela na feira. Giuliana não gritou. Pegou a vassoura e botou ele pra correr. 

"Na minha terra a gente espanta lobo e soldado. Tu acha que eu vou ter medo de valentão de feira?"

Virou conhecida. "A italiana descalça". 

Cozinhava pra 10 famílias. Ensinava as vizinhas a fazer molho de tomate. Costurava, remendava, partejava. Nunca cobrou de quem não tinha.

Dizia que tinha fugido da guerra pra não ver gente morrer de fome. Então aqui ela ia fazer o contrário: dar comida.

Em 1944, foi morar no agreste de Pernambuco,  no sítio Manicoba, atual Lagoa da Italianinha. 

Danuzia e Suely se enfrentam na rodoviária



A lanchonete da rodoviária de Lagoa da Italianinha às 14h continua sendo campo minado. Café fraco, cadeira de plástico e gente esperando ônibus com mala no colo.

Foi lá que Danuzia trombou com Suely.

Danuzia. A vilã. Madame de salto agulha, bolsa de marca, cabelo de salão e óculos escuros dentro do terminal. Filha do deputado estadual Moab. Não trabalha. "Vive de administrar os bens da família", segundo ela. Na prática, vive de cartão black e de apontar defeito nos outros.

Suely. A juíza. Careca por opção. Cabeça raspada, brilhando. Descalça. Pé no chão frio da rodoviária, saia longa e blusa social, esbanjando elegância mesmo na simplicidade. Sem batom, sem joia, sem pose. Acabava de sair de uma audiência itinerante e ia pegar o ônibus de volta pro fórum.

O encontro foi inevitável. Só tinha 2 mesas livres.

Danuzia chegou primeiro. Jogou a bolsa Gucci na cadeira, pediu água com gás importada e salada sem tempero. 

Quando viu Suely entrando descalça, torceu o nariz até a alma.

Suely sentou na mesa do lado. Pediu café e pão com manteiga. Colocou os pés descalços debaixo da mesa.

Danuzia não aguentou 2 minutos.

"Com licença", disse, com aquele veneno doce de quem nunca pegou no batente. "Aqui é lugar público, né? Mas tem um mínimo de higiene. Andar descalço em rodoviária... onde passa rato, barata... gente que não tem condição..."

Suely nem levantou os olhos do café. Soprou.

"O chão tá limpo. Meus pés também. E condição eu tenho de sobra pra escolher como ando."

Danuzia riu alto, olhando pros outros da lanchonete.

"É opção, né? Essa moda de careca... parece que saiu do SUS. Se tá doente, devia era tá em casa. Meu pai é deputado, sabe? Ele arruma hospital pra quem precisa."

Aí o silêncio caiu.

Suely levantou a cabeça. Olhos calmos.

"Careca é por opção, senhora. Raspo porque não devo satisfação de cabelo pra filha de deputado nem pra ninguém. E descalça é porque cansa carregar salto 12 horas julgando processo, Inclusive processo de gente que acha que lei é pra quem não tem sobrenome."

Danuzia arregalou os olhos. "Julgando? A senhora é...?"

"Sou a juíza Suely. Da comarca. E a senhora é a dona Danuzia, né? A filha do deputado Moab. Aquela que aparece na coluna social mas nunca apareceu numa carteira de trabalho."

O copo de água com gás da Danuzia suou na mão.

Danuzia tentou se recompor. Ajeitou o óculos de 2 mil reais.

"Ah, juíza... pensei que fosse... sei lá. Uma dessas mulher que vive de bolsa. Sem padrão."

Suely limpou a boca no guardanapo.

"Padrão? O seu padrão é salto, bolsa paga pelo pai e humilhar quem trabalha? O meu padrão é a lei. E a lei diz que discriminar por aparência e condição social dá problema, dona Danuzia. Até pra filha de deputado."

A atendente da lanchonete, Deinha, parou de limpar o balcão. O povo todo escutava.

Danuzia ficou vermelha, do salto à raiz. Pegou o celular, fingiu mandar mensagem pro pai e saiu batendo o salto.

Antes de ir, jogou: "Vou falar com meu pai sobre essa rodoviária. Tá abandonada."

Suely ficou. Terminou o café, e foi embora a pé. Descalça sempre.

O povo comentou por semanas.

"Viu a filha do Moab levar esporro da juíza careca?"

"A Suely não precisou citar lei. Só citou a verdade."

Danuzia postou story no Instagram reclamando da "falta de educação no serviço público". Apagou 2 horas depois.

Suely voltou a andar descalça no fórum. Disse que "pé no chão lembra que justiça não tem sobrenome".

Em Lagoa da Italianinha tem dois tipos de poder. 

O da Danuzia: que herdou e usa pra humilhar. 

E o da Suely: que conquistou e usa pra igualar.

E na lanchonete da rodoviária, até hoje, quando alguém chega de pé descalço, a atendente Deinha serve primeiro e fala baixo: "Cuidado, a juíza pode estar por perto".



Malu e Wellia se estranham na praça

A praça 27 de Dezembro em Lagoa da Italianinha ferveu no fim da tarde de sábado. E não foi por causa da prefeita Giovanna, nem da ex-prefeita Myllena.

Foi por causa das gêmeas.

Malu estava lá. Cabelo até a cintura, blusa e saia longa, colar de sementes e pé na água do chafariz. Hippie assumida, ela defende que "a água da praça cura a alma". Proibia? Proibia. Mas Malu entrava igual. Dizia que era ato de resistência.

Ela cantava baixinho, de olho fechado, quando ouviu passos apressados no calçamento.

Abriu os olhos e gelou.

Era Wellia. A irmã gêmea. A "malvada" da família. 

Mesmo rosto, mesmo cabelo, mesmo corpo. Só que o espelho tinha virado do avesso.

Wellia chegou com a calça jeans suja. E não era barro. Era fezes. Visível. Do joelho pra baixo.

O povo na praça parou. O vendedor de picolé parou. Até o cachorro da praça parou.

Malu saiu da água na hora, água escorrendo no vestido. 

"Wellia?! Que loucura é essa?! Você se sujou de novo?"

Wellia cruzou os braços, fedendo e sem vergonha nenhuma.

"E você aí, Malu. Tomando banho de praça igual mendiga. Hipócrita. Fala de paz e amor mas vive suja de água suja."

"Essa água é sagrada!", gritou Malu, apontando pro chafariz. "Ela limpa! Diferente de você que vive suja por dentro e por fora!"

"Eu tô suja porque o mundo tá sujo!", rebateu Wellia, chutando a própria calça. "Prefiro ser real do que ficar fingindo que é florzinha. Pelo menos eu não passo o dia com animais e falando com árvore!"

Malu levantou a mão pro céu.

"O universo me trouxe até aqui pra te mostrar o reflexo da sua escuridão, Wellia! Você é meu karma!"

"E você é meu castigo!", cuspiu Wellia. "Duas loucas. Só que a sua loucura usa incenso e a minha usa a verdade nua e crua!"


Taline, Teane e o sonho do Museu de Inalda

Em Lagoa da Italianinha tem uma casa grande, de janelas altas e portão de ferro. Casa antiga. Do século XX.  Foi adquirida por duas irmãs gê...