quinta-feira, 9 de julho de 2026

Danuzia tenta humilhar Sayonara

 


Praça 27 de Dezembro, Lagoa da Italianinha. 9h da manhã. 

Sol batendo no banco da praça e cheiro de café vindo da padaria.

No banco, Sayonara. Conhecida na cidade como "mendiga limpa". 

Cabelo preso, roupa lavada no chafariz, descalça. Do lado dela, um lençol dobrado e uma sacola com sabonete, shampoo e toalha.

O povo dizia: "Sayonara dorme em cima de lençol e toma mais banho que muito casado".

Parou um carro preto. Desceu Danuzia. 

Madame. Salto alto, óculos escuros, bolsa de grife, colar de ouro no pescoço. Mesmo às 9h da manhã.

Ela vinha da reunião do comércio e passou pela praça só pra "ver o movimento".

Bateu o olho em Sayonara. Franziu a cara.

"Aí não. Isso é um absurdo. Isso é um atentado ao turismo da cidade."

Chegou perto. Parou na frente do banco.

Danuzia cruzou os braços. "Moça. Você. Levanta."

Sayonara olhou. Não levantou. "Bom dia, dona."

"Bom dia nada", Danuzia apontou pro lençol. "Isso aqui é praça pública. Não é quarto de hotel. E essa história de 'mendiga limpa'... pelo amor de Deus. Vocês são tudo igual. Sujeira é sujeira."

Pegou mais alto, pra todo mundo ouvir.

"Eu pago imposto. Eu gero emprego. E aí eu tenho que ver isso aqui? Dormindo em lençol como se fosse gente fina? Banho todo dia? Pra quê? Pra enganar os outros?"

Algumas pessoas pararam. Leila, uma vendedora de picolé, fingiu que não viu.

Sayonara continuou sentada. Ajeitou o lençol no colo.

"Eu tomo banho porque gosto, dona. E durmo em lençol porque minha mãe me ensinou. Mesmo na rua, cama limpa é dignidade."

Danuzia riu com deboche. "Dignidade? Dignidade é trabalhar. É ter casa. É ter nome. O teu é Sayonara? Nome de novela. Deve ser apelido de cadeia."

Sayonara levantou devagar. Esticou o lençol e dobrou com cuidado.

Guardou o sabonete na sacola.

Olhou pra Danuzia dos pés à cabeça. Do salto ao colar.

"E a senhora? Com esse ouro no pescoço às 9h na praça... tá com medo de alguém achar que tá pobre?"

O pessoal que tava ouvindo segurou o riso.

"Eu não peço nada pra senhora", Sayonara continuou. "Eu lavo minha roupa. Eu varro meu canto. Eu não sujo a praça. O que tá incomodando? É eu ser pobre ou é eu ser limpa?"

Danuzia ficou vermelha. "Você tá sendo insolente!"

"Insolente é achar que dinheiro dá o direito de humilhar", disse Sayonara, calma.

Pegou a sacola. Fez uma reverência irônica.

"Tenha um bom dia, madame. E se quiser, o chafariz tá funcionando. Banho faz bem até pra alma."

Virou e foi embora. Descalça, pisando devagar.

Danuzia ficou parada. Com o povo olhando. 

Leila, a vendedora de picolé soltou: "A mendiga deu aula, madame."

Danuzia entrou no carro batendo a porta. Mas não falou mais nada.

Naquela tarde, alguém escreveu com giz no banco da praça:

"Aqui senta Sayonara - A Mendiga Limpa. Respeito é pra quem tem."

E Danuzia nunca mais parou o carro ali às 9h.

Em Lagoa da Italianinha o povo aprendeu:  

Dignidade não tem endereço.  

E humilhar quem é limpo só mostra quem tá sujo por dentro...



Quer que eu transforme isso em crônica, em cena pra teatro ou em texto pra rede social?

Confusão na lanchonete da rodoviária


Wedja bebendo, Valdenes desenhando,  a mendiga Solange molhada porque tinha tomado banho no chafariz e Marlene tentando pôr ordem.

Wedja viu Solange molhada e apontou o dedo.

"Olha ela! Tomando banho no chafariz! Isso é falta de educação! Isso é coisa de..."

Solange sorriu, espremendo a blusa. "É coisa de quem tava com calor, minha filha. Quer um banho também? Tá de graça."

Wedja bufou e virou pro Valdenes. "E tu? Artista? Desenhando bêbada? Me desenha bonita!"

Chegou perto e derrubou o café de Valdenes com a bolsa.

O café preto espalhou no caderno dele. No chão. No pé dele.

Valdenes olhou pro café. Olhou pro desenho. Olhou pra Wedja.

Respirou fundo. "Pronto. Acabei de criar minha nova obra. Chama: 'Café Derramado Sobre a Hipocrisia'."

Wedja achou que era elogio. "É? Eu sou hipocrisia? Obrigada, lindo!"

Marlene bateu o rolo de massa no balcão. O barulho ecoou na rodoviária inteira.

Todo mundo parou.

"Solange, seca esse cabelo que tu vai gripar.  

Valdenes, limpa esse café e vende esse desenho que tá bonito.  

Wedja, senta ali e toma uma água. Bêbada não pega ônibus e não enche meu saco!"

Wedja fez biquinho. "Mas Marlene..."

"Mas nada! Ou tu senta ou eu te sirvo de pastel e tu paga dobrado."

Wedja sentou. Resmungando. 

Solange pegou uma toalha que Marlene jogou pra ela. 

Valdenes pegou outro copo de café. Olhou pra poça, pra Wedja bêbada, pra Solange pingando. 

E começou a desenhar de novo.

10 minutos depois o ônibus chegou.

Valdenes mostrou o desenho pra todo mundo: era a rodoviária. Solange saindo do chafariz, Wedja de braço aberto bêbada, Marlene com o rolo na mão igual juíza.

No canto, ele mesmo, descalço, tomando café.

Vendeu o desenho pro motorista por 30 reais e um café.

Marlene gritou: "Próximo pastel com 50% de desconto pra quem se comportar!"

E Valdenes ficou na plataforma. Pé no chão. Desenhando o ônibus indo embora. 

Depois da confusão, tudo normalizou. Valdenes levou Wedja pra casa dela, Solange foi perambular pelas ruas e Marlene foi cuidar de fechar sua lanchonete. 


Danuzia e seu colar de ouro


Na mansão da Danuzia, em Lagoa da Italianinha, o banheiro é do tamanho de uma sala. Banheira de mármore, espelho até o teto, torneira que solta água com cheiro de lavanda.

E lá dentro, na água, estava ela.

Danuzia. A vilã da cidade. Herdeira, empresária, invejada e temida.

Só que Danuzia não toma banho normal. 

Ela tomava banho "completa".

Dentro da banheira: blusa social preta, paletó preto, saia preta, sapato salto alto preto. Tudo molhado, grudado no corpo. A água subindo até o pescoço.

Na porta, encostada, a tia. Ana Patrícia. Irmã do pai dela. 

"Tia, chega mais", disse Danuzia, sem nem olhar. "Quero te mostrar uma coisa."

Ana Patrícia fez cara de nojo. "Filha, tu tá doida? Banho é pra tirar roupa. E tu com esse salto dentro d’água... vai escorregar."

Danuzia riu. Molhou a mão e jogou água no próprio paletó.

"Escorregar? Jamais. Eu sou chique até na água, tia. Eu só tomo banho assim."

Levantou um pouco na banheira. A saia boiou. O salto afundou e fez "ploc".

E aí ela puxou do pescoço. 

Um colar de ouro. Grosso. Brilhando mesmo molhado. Pingente grande, com as iniciais D.B.

"Olha isso aqui, tia", ostentou, erguendo o colar pra luz. A água escorria pelo ouro. "Acabei de comprar. 80 mil. À vista."

Ana Patrícia arregalou os olhos. "Danuzia! 80 mil num colar?! E tu usando pra tomar banho?!"

"Claro", Danuzia encostou na borda da banheira, como quem posa pra foto. "Ouro não desbota, tia. E eu não tiro nunca. Nem pra dormir, nem pra trabalhar, nem pra... me limpar."

Girou o pescoço devagar. O colar fez barulho de riqueza.

"Sabe por quê? Porque gente como eu não pode aparecer sem nada. Se eu tirar o colar, as pessoas vão achar que eu tô quebrada."

Ana Patrícia balançou a cabeça. "Ostentação até dentro da banheira. O povo tá passando fome lá fora e tu aqui, de salto, lavando ouro."

Danuzia deu de ombros. Pegou o sabonete líquido e passou por cima da blusa social.

"Problema do povo, tia. O meu problema é manter o padrão. É chique, é poder, é isso que intimida."

Levantou. A água desceu pelo paletó. O salto fez barulho no mármore molhado.

Parou na frente do espelho, ainda pingando.

"Viu, tia? Até saindo do banho eu pareço capa de revista. Com ou sem água."

Danuzia ficou sozinha. Se olhou no espelho. Ajeitou o colar de ouro no pescoço molhado.

Sorriu.


*_Porque pra Danuzia, vilã não descansa.  

Vilã ostenta. Até dentro da banheira._*


Quer que eu transforme isso em cena de novela, em crônica de humor ou em monólogo teatral da Danuzia?

Myllena barrada em restaurante por estar descalça




A estrada entre Vila Dourada e Lagoa da Italianinha é quente. Asfalto derretendo, caminhão passando, poeira subindo.

E bem no meio, inaugurou mês passado o Restaurante Sabor da Beira". Mesas de plástico, toalha xadrez, cheiro de galinha guisada. Recém-aberto. Placa nova.

Era meio-dia quando Myllena parou lá. 

Ex-prefeita de Lagoa da Italianinha. 5 anos de mandato. E agora pré-candidata a deputada estadual. Cabelo solto, blusa socal, calça social. 

E os pés. Os dois pés descalços no chão quente do estacionamento.

Myllena entrou direto. Sentou numa mesa perto da janela. Pediu: "Um sanduíche e um suco de acerola, por favor."

O gerente, rapaz novo, camisa do restaurante, chegou apressado.
"Moça... com licença. Aqui a gente tem uma regra. É obrigatório o uso de calçados."

Myllena olhou pra baixo. Olhou pros próprios pés. Olhou pra ele.
"Eu não uso."

O gerente ficou vermelho. "É norma da vigilância, da prefeitura... higiene. Se a senhora não calçar, eu não posso servir."

Na mesa do lado, um motorista de caminhão cochichou. Na cozinha, alguém parou de fritar.

Myllena ajeitou na cadeira. "Meu nome é Myllena. Fui prefeita de Lagoa da Italianinha por 5 anos. E sou pré-candidata a deputada. Nunca usei sapato na vida. Não quero. Pé no chão é minha escolha desde menina."

O gerente gaguejou. "Dona Myllena... desculpa, eu não sabia. Mas a regra é pra todo mundo. O restaurante é novo, a gente não pode arriscar multa."

"Então a regra é mais importante que a pessoa?", perguntou ela, calma.

Ele não respondeu. Só apontou pra porta. "Desculpa."

Myllena levantou. Sem brigar. Sem gritar. Pegou a bolsa e saiu. Os pés levantando poeira no estacionamento.

Duas horas depois o vídeo já estava no grupo de WhatsApp de Lagoa da Italianinha.

Uma cliente tinha filmado. "Barraram a ex-prefeita por estar descalça."

Os comentários explodiram. 
"Ela sempre foi assim!" 
"Respeito!" 
"Mas restaurante tem regra!"

Às 16h, Myllena fez uma live da calçada da casa dela. Pé no chão, no cimento frio.

"Gente, não é sobre comida. É sobre escolha. Eu não uso calçado porque não quero. Nunca usei. Minha mãe me criou assim na roça. O chão me ensina. Se eu for deputada, vou continuar entrando nas repartições, nas escolas, nas feiras do mesmo jeito."

Respirou fundo. 
"Eu não quero processar ninguém. O restaurante é novo, o rapaz tá com medo. Mas eu quero conversar. Porque se a gente barra uma mulher por causa do pé, amanhã barra por causa da roupa, da cor, da religião."

No fim da noite, o dono do "Sabor da Beira" ligou pra ela.
"Dona Myllena, me perdoa. A gente errou na forma. Quer vir almoçar aqui amanhã? Por nossa conta. E pode vir do jeito que a senhora quiser."

No outro dia Myllena voltou. Mesma roupa. E descalça.

Sentou na mesma mesa. Comeu o sanduíche. Pagou a conta.
"Eu pago", disse. "Porque respeito se compra, mas não se mendiga."

Tirou foto com o gerente. Ele sorrindo torto. Ela sorrindo de verdade.

Na saída, uma placa pequena apareceu na porta do restaurante, escrita à mão:
_"Aqui entra gente. De sapato, de sandália ou descalça."_

E Myllena seguiu campanha afora. De pé no chão. 
Porque pra ela, política também se faz sentindo o chão que o povo pisa.


Malu, Alice e Wellia na lagoa



Sábado de sol em Lagoa da Italianinha. Calor de rachar.

Malu e a irmã gêmea Wellia combinaram cedo: "Bora pra lagoa?" 

Wellia levou a filha, Alice. Cabelo trançado e boia de unicórnio na mão.

As três chegaram na beira da água juntas. Mesmo rosto, jeitos diferentes.

Wellia tirou a canga e ficou de biquíni. Florido, amarelo. Coisa de mãe que ainda quer pegar um sol.

Alice já saiu correndo: "Tia Malu, vem! A água tá quentinha!" De maiô rosa, com brilho.

Aí foi a vez de Malu.

Ela olhou pra lagoa, olhou pra irmã de biquíni, olhou pra sobrinha de maiô... e entrou.

De blusa e saia hippie. Saia longa, estampada, rodando no vento. Blusa de algodão, com bordado e franja. Pé descalço.

Wellia parou na beira. "Malu?! Tu vai entrar assim?"

Malu riu e já foi pisando na água. A saia boiou igual flor. "Vou. Hippie entra de hippie."

Alice ficou parada olhando. Depois deu risada e gritou: "Tia Malu virou sereia da saia!"

Wellia e Alice nadaram. Mergulharam, fizeram castelinho na areia, espirraram água.

Malu não nadou. Ela flutuou. De saia aberta, braço aberto, deixando a lagoa levar. A blusa ficou transparente, grudada, mas ela nem ligou. 

"É assim que eu sinto a água", disse. "Na pele e na roupa. Sem pressa de secar."

O povo na lagoa olhou. Uns estranharam. Outros acharam bonito. Uma senhora até falou: "Essa aí entrou pra benzer a lagoa."

Wellia nadou até a irmã. "Cansou de ser diferente?"

Malu espirrou água nela. "Cansar? Gêmea que é gêmea tem que ser diferente, senão pra que duas?"

Alice subiu nas costas de Malu. "Tia, me leva pra passear de saia-barco."

E lá foi Malu, com Alice nas costas, rodando na água rasa. A saia virou vela.

Na hora de ir embora, Wellia e Alice se enxugaram na toalha em 2 minutos. 

Malu ficou espremendo a saia. A blusa pingando. Demorou o triplo.

"Valeu a pena?", perguntou Wellia.

Malu olhou pra lagoa, pra filha da irmã rindo, pro sol baixando.

"Valeu. Eu não entrei pra tomar banho. Eu entrei pra lembrar que dá pra ser feliz até de roupa."

No carro, Alice dormiu no banco de trás. Wellia dirigindo. Malu na janela, com a saia ainda úmida.

Duas gêmeas. Uma de biquíni. Outra de hippie.

E uma menina no meio que aprendeu que na lagoa cabe todo tipo de traje. 

Desde que tenha alegria junto.

Dr. Carneiro tenta namorar com Mimi


Em Lagoa da Italianinha, se tem um homem conhecido por não gastar nem a vírgula, é Dr. Carneiro. 

Empresário. Dono de 2 depósitos de material de construção e de uma fama: "pão duro que range". 

Toma café requentado, reaproveita barbante, e na última eleição pagou santinho só na frente pra economizar tinta.

Aos 66 anos, resolveu que estava na hora de "namorar". 

E escolheu Mimi.

Noite de quarta. Sala do Dr. Carneiro. Mesa de jantar com toalha de plástico.

Na frente dele, o filho. Vereador Marco Aurélio. Camisa social, gravata e cara de quem já se arrependeu de ter vindo.

Dr. Carneiro abriu a conversa com um caderno e uma calculadora.

"Marco, senta. É assunto sério. É sobre investimento afetivo."

Marco suspirou. "Pai, de novo?"

"É a Mimi." O pai ajeitou os óculos. "Aquela mulher careca que anda com um pé calçado e outro descalço. Mora no sitio e trabalha na feira."

Marco quase cuspiu a água. "Pai?! A Mimi tem quase minha idade! E ela é... diferente. Careca por opção, anda com um pé calçado e outro descalço..."

"Justamente!", bateu o Dr. Carneiro na mesa. "Pensa comigo, filho. É uma oportunidade. Vantagem dos dois lados."

Tirou a calculadora.

"Primeiro: careca. Não gasta com xampu, condicionador, creme, salão. Zero de gasto mensal com cabelo. 

Segundo: um pé calçado, outro descalço. Eu só compro UM sapato pra ela. Um! É 50% de economia no calçado. Em 10 anos a gente economiza 24 pares!"

Marco passou a mão no rosto.

"Pai, namoro não é planilha. A Mimi é gente. E ela é quase da minha idade. Além dela ser doida do juízo... Vai ficar feio."

"Feio é gastar", disse Dr. Carneiro. "Além disso ela é discreta. Não pede nada. Não vai querer viagem, não vai querer bolsa. Pé no chão é mulher pé no chão. Economiza até na energia, porque não usa secador."

Marco se levantou. "Eu não concordo com isso não, pai. Deixa a mulher em paz. E se cuide."

Saiu batendo a porta. Dr. Carneiro ficou lá, somando de novo na calculadora.

Praça 27 de Dezembro.

Mimi estava sentada no banco. Careca, brilhando no sol. Pé direito com um sapato. Pé esquerdo descalço no chão. Lendo um livro.

Dr. Carneiro chegou todo arrumado. Camisa nova - primeira vez no ano. Levou uma rosa de plástico, porque "flor natural murcha e dá despesa".

"Boa tarde, Mimi." 

Ela levantou os olhos do livro. "Boa, Dr. Carneiro."

Ele pigarreou. Sentou do lado, deixando um espaço de 3 palmos.

"Vim te fazer uma proposta. Uma proposta de vida a dois. Econômica."

Mimi fechou o livro devagar.

"Olha, eu sou homem trabalhador. Tu é mulher simples. Eu notei que tu não gasta com bobagem. Careca, um pé descalço... isso é sinal de inteligência financeira. Comigo tu não vai passar necessidade. E eu não vou passar aperto com gasto."

Ele esticou a rosa de plástico.

"Que tal a gente namorar? Eu compro teu sapato. Só um. E o xampu a gente risca da lista."

O silêncio ficou pesado. 

Mimi olhou pra ele. Dos 62 anos, da rosa de plástico.

Respirou fundo.

"Dr. Carneiro, o senhor é mais velho que meu pai. Quase da idade do pai do meu pai. E o senhor tá me pedindo em namoro por causa de economia de xampu e sapato?"

Ele assentiu, orgulhoso. "É visão, Mimi."

"Pois eu prefiro gastar meu tempo com alguém da minha idade. Rejeito sua proposta, seu pão duro."

Dr. Carneiro voltou pra casa e cortou o café da tarde pra compensar o prejuízo da rosa.

E Mimi continuou na praça.

Porque em Lagoa da Italianinha tem gente que economiza dinheiro.

E tem gente que economiza dignidade. E Mimi não abre mão de nenhuma das duas.


Taline, Teane e o sonho do Museu de Inalda



Em Lagoa da Italianinha tem uma casa grande, de janelas altas e portão de ferro. Casa antiga. Do século XX. 

Foi adquirida por duas irmãs gêmeas. Taline e Teane.

Mesmo rosto, cabelo igual, voz parecida. O que muda é o jeito. Taline fala baixo e cuida dos papéis. Teane fala alto e cuida dos quadros.

E os quadros são a herança delas. 

Foram pintados por Inalda. A bisavó. Pintora alemã judia que fugiu da Europa e veio parar em Lagoa da Italianinha. Chegou nos anos 1920, comprou a mansão, plantou roseira no quintal e passou 40 anos pintando a cidade, o Agreste, as mulheres na feira, o céu de agosto.

Atualmente a casa tem cerca de 37 quadros guardados. Alguns na parede, outros enrolados, outros embaixo da cama. Todos assinados: _Inalda, 1934. Inalda, 1941._

Taline e Teane cresceram ouvindo a história. "Sua bisavó pintava pra não esquecer de onde veio. E pintava a gente pra gente não esquecer de onde chegou."

Há anos elas guardam tudo. Limpam com pano, passam veneno contra cupim, anotam em caderno. 

Agora querem mais. Querem abrir as portas.

O plano: transformar a mansão de Inalda no "Museu da Cultura Alemã de Lagoa da Italianinha".

"Não é só sobre a Alemanha", explica Taline, ajeitando um quadro de 1938 onde Inalda pintou a praça 27 de Dezembro. "É sobre imigração. Sobre judia. Sobre mulher artista. Sobre como uma alemã se apaixonou pelo Agreste."

"A casa tem tudo", completa Teane. "Tem os quadros, tem os pincéis dela, tem as cartas em alemão, tem a cozinha onde ela fazia strudel. Só falta abrir pro povo."

Na semana passada as gêmeas foram no gabinete da *prefeita Giovanna Victorya. De salto, caderno na mão e um porta-retrato com a foto de Inalda.

"Prefeita, a gente quer ajuda", disse Taline.

"Pra fazer um museu", emendou Teane. "Sem cobrar entrada. Pra escola, pra turista, pra quem quiser conhecer."

Giovanna ouviu calada. Olhou os quadros na foto. Uma paisagem da Lagoa, outra da igreja matriz, outra de uma mulher descalça na roça. Tudo com traço europeu e cor de Nordeste.

"Minha mãe Myllena falava da Inalda", disse a prefeita. "Dizia que ela doava quadro pra festa da padroeira. Mas nunca vi pessoalmente."

A prefeita prometeu visitar a mansão. "Se a casa tá de pé e os quadros também, a gente tem que mostrar. Cultura alemã em Lagoa da Italianinha? O povo precisa saber que nossa história não é só de um povo."

Hoje a casa continua fechada. Mas Taline passa o dia limpando vidro. Teane corre atrás de documento, de lei de incentivo, de parceria com universidade.

O sonho delas é simples: abrir a porta. Colocar plaquinha. Deixar criança de escola entrar e perguntar "quem foi Inalda?"

Porque Inalda foi uma refugiada que virou lagoense. 

E Taline e Teane são duas gêmeas que não querem deixar a memória da bisavó morrer dentro de quatro paredes.

Lagoa da Italianinha já teve prefeita descalça e prefeita de sapato.  

Agora pode ganhar um museu de uma pintora alemã guardado por duas gêmeas.

Se depender de Taline e Teane, a mansão do século XX vai voltar a ter visita. E os quadros de Inalda vão sair do escuro pra contar que Lagoa da Italianinha sempre foi casa de quem veio de longe.


Danuzia tenta humilhar Sayonara

  Praça 27 de Dezembro, Lagoa da Italianinha. 9h da manhã.  Sol batendo no banco da praça e cheiro de café vindo da padaria. No banco, Sayon...