sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Cássia e as duas horas dentro da banheira



Em Lagoa da Italianinha tem gente que toma banho de rio, de tonel, de chuva. Cássia toma banho de pensamento.


Faz duas horas que ela está ali. De roupa e tudo - camisa cinza, calça jeans, cabelo molhado com espuma - sentada na banheira cheia. A água já esfriou. A torneira ainda pinga.

Do lado de fora, em pé, a irmã Lúcia. Jaqueta azul marinho, calça jeans, sapatilha. Não fala alto. Só espera. Porque quem ama de verdade sabe quando a outra precisa de silêncio.

O que prende Cássia na água?

Não é a sujeira. É a tristeza do mundo.

Cássia hoje viu uma cena na rua: uma senhora pedindo água e todo mundo passando direto. Ninguém parou. E aquilo grudou nela.

"Por que a gente esqueceu de amar o próximo, Lúcia? Por que tá todo mundo tão duro?"

Lúcia abaixa a cabeça. Ela conhece a irmã. Cássia sente demais. Carrega a dor dos outros como se fosse dela.

E quando sente demais, ela trava.

Lúcia, a irmã que fica

Lúcia não entrou na banheira. Ela ficou de pé. Vigilante.

"Cássia, já deu. Duas horas, irmã. Você precisa sair, tomar seu remédio, se trocar e dormir. Amanhã você continua pensando nisso, mas com a cabeça descansada."

Cássia olha pra água cheia de espuma.

"Mas se eu sair, o mundo continua igual, Lúcia. Sem amor."

"Continua. Mas você precisa estar forte pra colocar amor nele. E forte você fica quando se cuida."

Na série Rompendo Distâncias, Cássia representa muita gente que a gente conhece: aquela pessoa sensível, que chora com notícia, que sofre pelo vizinho. E Lúcia representa quem segura essa pessoa: a irmã, a amiga, que não julga, mas lembra do básico - remédio, roupa seca, sono.

Cássia finalmente mexeu os joelhos. A água fez barulho.

"Me ajuda a levantar?"

Lúcia sorriu pela primeira vez na noite:

"Sempre."

E assim, em Lagoa da Italianinha, uma banheira fria virou lembrete: pensar na falta de amor do mundo é importante. Mas começar o amor por nós mesmas - tomando remédio na hora, se trocando, dormindo - também é amor ao próximo.

Porque ninguém consegue dar o que não tem.


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Valdenes e Josiane: o amor que se encontra quando a cidade dorme

 


Em Lagoa da Italianinha todo mundo sabe. O amor mais falado é o que não pode ser falado.

Ele: Valdenes. Camisa verde, calça azul, pé descalço no chão da praça. Pobre, trabalhador, que conta as moedas no final do dia.

Ela: Josiane. Vestido branco longo, sapatilha clara, filha única do Deputado Estadual Moab. Rica, criada entre segurança e sobrenome.

O pai dela não queria. Nunca quis. "Minha filha não vai namorar pé-rapado", ele dizia nos almoços da família.

Por isso eles aprenderam a brincar com o perigo.

A janela

O deputado Moab tinha sumido da cidade essa semana. 

Carro de som, comício, bandeira. Estava em campanha pela reeleição, gravando vídeo em Caruaru na feira, e à tarde discursando em Limoeiro. O palanque chamava, a eleição apertava.

E quando o gato sai, o coração da filha ganha coragem.

Lagoa da Italianinha ficou em silêncio. Luz amarela do poste da praça. Banco vazio.

Foi ali que Valdenes e Josiane se encontraram escondidos.

Sem motorista. Sem assessor. Sem sobrenome.

Só os dois, testa com testa, como na foto.

"Você veio descalço de novo?", ela riu, com a mão no peito dele.

"Vim. Se eu correr, corro mais rápido", ele respondeu.

Ela, a menina que tem tudo, encontrou nele o que dinheiro não compra: paz.

Ele, o menino que tem pouco, encontrou nela o que nunca teve: alguém que olha pra ele, não pro bolso dele.

Brincar com o perigo

Eles sabem que é perigoso.

Se o povo conta pro deputado, vira escândalo em Lagoa da Italianinha. Se o motorista dela vê, conta. Se a mãe dela descobre...

Mas ali, por cinco minutos, não existe deputado, não existe pobre e rica. Existe só um abraço apertado na praça vazia.

Josiane sussurrou:

"Quando meu pai voltar de Caruaru, eu vou ter que fingir que não te conheço de novo."

Valdenes segurou a cintura dela:

"Então deixa eu te guardar agora, que depois a saudade é grande."

Na série Rompendo Distâncias, esse é o núcleo mais perigoso e mais bonito. Porque mostra que em Lagoa da Italianinha, mesmo quem tem tudo e quem tem nada, sente a mesma coisa quando o amor aperta.

E você? Acha que o amor deles vai sobreviver à campanha do deputado Moab?

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O buquê de Samuel e o "não" de Alice



Na praça de Lagoa da Italianinha, no meio do caminho da escola, Samuel esperou.

Ele estava daquele jeito dele: camisa azul manchada de lama, calça branca suja do jogo da manhã, um pé de chinelo. E nas mãos, um buquê. Não de rosas caras de floricultura, mas de flores do mato - margarida, girassol miúdo, flor roxa que ele mesmo colheu perto do rio.

Do outro lado vinha Alice, de moletom rosa, jeans e tênis branco bem limpo. Caderno na bolsa. Cabeça nos estudos.

"Pra você", ele disse, tímido, atrás dos óculos tortos.

Alice sorriu. Pegou o buquê. Cheirou.

"Obrigada, Samuel. Tá lindo. De verdade."

E foi aí que ela fez o que muita gente adulta não tem coragem de fazer: foi honesta.

"Samuel, eu gosto de você. Muito. Mas eu gosto como amigo. Agora eu quero só estudar, passar de ano, entrar no curso que eu quero. Eu não quero namorar. Pode ser?"

Samuel ficou quieto um segundo. O sorriso dele não sumiu, mas mudou.

"Pode. Claro que pode."

O que é "não desistir" de verdade?

Muita gente pensa que "não desistir" é ficar insistindo, mandando mensagem todo dia, ficando bravo.

Samuel fez diferente. Ele entendeu que o "não desisto dela" dele não era sobre namoro. Era sobre amizade.

Desde aquele dia, ele continuou sendo o amigo:

1.  Respeitou o tempo dela: Não ficou cobrando resposta diferente. Aceitou o "somos amigos".

2.  Virou parceiro de estudos: Se Alice prioriza estudar, ele ajuda. Senta do lado na biblioteca, divide resumo, explica matemática. 

3.  Guardou o carinho: O buquê que ela aceitou virou o primeiro de muitos, mas agora sem pressão. Um dia é flor pra comemorar nota boa, outro é flor porque "vi e lembrei de você".

Alice olhou pra ele ali na praça, segurando o buquê, e respondeu:

"Se for pra ter um amigo que me ajuda a focar nos meus sonhos, eu quero você por perto."

E Samuel, com a camisa suja de lama e o coração limpo, respondeu:

"Então eu fico. Amigo também ama. E amigo torce pra ver o outro crescer."

Em Lagoa da Italianinha, as meninas comentam: "Alice recusou o Samuel". 

As mais velhas corrigem: "Não recusou. Ela escolheu o futuro dela. E ele escolheu respeitar."

Porque na série Rompendo Distâncias, amar também é saber esperar. E às vezes, a melhor forma de ficar é aceitando ficar como amigo.

O que você acha? Samuel fez certo em continuar a amizade sem insistir no namoro?


#RompendoDistâncias #SamuelEalice #LagoaDaItalianinha

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Myllena e Mateus: café, terno e conversa de futuro em Lagoa da Italianinha

Cafeteria tranquila. Mesa pequena, café na xícara, livro em cima da mesa. Luz amarela.

De um lado Myllena. 

Ex-prefeita da cidade, hoje candidata a deputada estadual. Blazer preto, blusa amarela, cabelo solto. Sorriso calmo, mas olhar de quem já carregou prefeitura nas costas.

Do outro Mateus.

14 anos, terno azul-marinho, gravata, livro debaixo do braço. Postura séria demais pra idade. Filho caçula.

E os dois... descalços. Porque em casa e nos lugares que importam, Myllena ensinou: "a gente conversa melhor com o pé no chão."

Na cidade todo mundo comenta: "A prefeita atual é a Giovanna Victorya, filha dela. Por que Myllena fala tanto do Mateus?"

A resposta veio nessa tarde de café.

"Filha, a Giovanna tá fazendo um ótimo trabalho", Myllena disse, mexendo o café. "Ela tem cabeça, tem pulso. Eu tenho orgulho."

Mateus ficou quieto.

"Mas mãe, por que você me chama pra essas reuniões então?"

Myllena olhou pra ele. 

"Porque eu te vejo, filho. Eu vejo em você a vontade de perguntar o 'porquê' de tudo. A Giovanna executa. Você questiona. E política precisa dos dois."

"Mas eu sou só adolescente, mãe."

"E eu fui prefeita com 28. Idade não é crachá, Mateus. É responsabilidade."

O povo de Lagoa da Italianinha torce, critica, opina. 

Mas dentro daquela mesa, era só mãe e filho planejando. Sem câmera, sem discurso.

Myllena quer ser deputada pra levar a voz da cidade pro estado. 

E no fundo, ela já sonha alto: "Se um dia Mateus quiser, que ele entre na política não por sobrenome. Mas porque ele escolheu."

Mateus fechou o livro e sorriu. "Tá bom. Mas primeiro eu termino a escola, combinado?"

"Combinado", ela respondeu, e bateu o pé descalço no dele por baixo da mesa.

Porque legado não é empurrar. É preparar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Flávia e Gigi: duas descalças, duas histórias, um terminal



Fim de tarde no terminal de Lagoa da Italianinha. Terra no chão, ônibus parados, e duas mulheres frente a frente. Descalças.

De um lado, Flávia. 

Hoje advogada e vereadora. Camisa vermelha, calça preta suja de barro. O povo esquece, mas Flávia já dormiu nesse mesmo chão. Já foi mendiga. Já comeu do que achava. Já ficou sem banho, sem porta, sem nome. Estudou de madrugada, passou na OAB, entrou na política. E nunca tirou o pé do chão. Literalmente.

Do outro, Gigi. 

Jardineira jeans e camiseta branca suja. Cabelo solto, mão aberta falando. Gigi também vive na rua. Mas diferente de Flávia, ela não quer sair.

E foi por isso que a conversa ficou tensa.

"Gigi, vem pro abrigo pelo menos enquanto chove", disse Flávia, a voz baixa. "Eu consegui verba. Tem cama, tem comida, tem banheiro. Você não precisa mais passar por isso."

Gigi balançou a cabeça e deu um passo pra trás.

"Flávia, eu te respeito. Você saiu e deu certo. Mas eu não quero casa. Eu não quero regra. Eu quero a rua. É aqui que eu sou livre. É aqui que ninguém manda em mim."

Silêncio. 

Flávia entendeu. Porque ela sabe como é. Sabe o frio, a fome, a humilhação. E sabe também o peso de ter que se encaixar.

"Então me deixa te ajudar do seu jeito", Flávia respondeu. "Banho quando quiser. Documento. Atendimento. Sem te tirar da rua. Só pra rua não te matar."

Gigi olhou nos olhos dela. Duas mulheres que já dividiram o mesmo barro, agora em lados diferentes da mesma luta.

"Tá. Mas sem promessa de abrigo, viu?"

E as duas ficaram ali. Uma querendo tirar a outra da rua. A outra escolhendo ficar.

Lagoa da Italianinha viu essa cena e entendeu: nem todo mundo que está na rua quer sair. E nem toda vereadora esquece de onde veio.

Flávia virou as costas e foi pro gabinete. Gigi ajeitou a jardineira e seguiu pro viaduto. 

Mesmo chão. Caminhos diferentes.


Alice, o cachorro e as duas irmãs: Wellia e Malu

 


Na foto, fim de tarde. Rua tranquila, folhas no chão e sol batendo de lado. 

Alice vai correndo, blusa rosa, jeans e sorriso aberto. Do lado dela, o cachorro que ganhou de presente. Lingua pra fora, rabo abanando, coleira na mão dela. Leveza total.

Só que por trás dessa cena simples tem uma história de família.

O presente veio de Wellia. 

A mãe. A vilã da cidade. Mulher de negócio frio, olhar duro e fama de não perdoar. Wellia deu o cachorro pra Alice. Dizem que foi pra "educar a menina pra responsabilidade". Dizem que foi pra mostrar que até vilã tem coração. Ninguém sabe.

O que todo mundo sabe é que Alice se dá melhor com a tia Malu. 

Malu é irmã gêmea de Wellia. Mesma cara, alma diferente. 

Enquanto Wellia fecha contrato, Malu abre a porta da cozinha. Enquanto Wellia cobra, Malu abraça.

É na casa da tia que Alice conta os segredos. É Malu quem leva ela pra passear, quem compra ração, quem ensina o nome dos comandos pro cachorro. 

"Tia, por que mãe é assim?" Alice pergunta. 

"Porque sua mãe esqueceu de ser criança, filha. Mas você não vai esquecer."

E ali, no passeio da foto, está tudo. 

O presente da mãe que não sabe demonstrar. 

O carinho da tia que sabe cuidar. 

E Alice no meio, crescendo, correndo, escolhendo ser leve mesmo com duas mulheres tão diferentes criando ela.

O cachorro não escolhe lado. Ele só abana o rabo pros dois. E talvez seja isso que a casa precise.

Porque família é isso: gêmeas opostas, uma menina no meio, e um cachorro pra lembrar que amor também late.



O celular da mendiga chique



Se você anda pelo centro de Lagoa da Italianinha, cedo ou tarde vai trombar com ela.

Warlla. 

Sentada na calçada, óculos escuros, cigarro na mão e o celular na outra. 

Terno vermelho. Camisa branca. Scarpin vermelho. Bolsa vermelha do lado. Tudo sujo de barro e tempo. Mas tudo vermelho. Porque madame não perde a pose nem na queda.

O povo conta que Warlla já foi rica. Mansão, festa, nome na cidade. Perdeu tudo. Negócio que deu errado, gente que sumiu, porta que bateu e apostas. E ela foi parar na rua.

Mas tem coisa que rua não tira: a postura.

Ela não pede. Ela conversa. 

Não aceita qualquer roupa. Lava, costura, combina. 

E agora, como mostra a foto, está ali com o celular na mão. Respondendo mensagem, vendo notícia, dando like na foto da sobrinha. 

"Eu posso não ter casa, mas cabeça eu tenho", ela diz.

O cigarro é pausa. O celular é ponte. 

É através dele que Warlla ainda fala com o mundo que foi dela. 

Tem gente que olha torto. "Mendiga com iPhone?"

Tem gente que respeita. "Aquela ali já foi alguém e continua sendo."

Warlla ensina sem querer: dignidade não é ter dinheiro. É não deixar a vida te transformar em menos do que você é.

Barro na roupa? Tem. 

Mas o batom vermelho continua intacto. 

O salto continua alto. 

E o celular continua na mão.

Porque Warlla pode ter perdido tudo, menos ela mesma.


Cássia e as duas horas dentro da banheira

Em Lagoa da Italianinha tem gente que toma banho de rio, de tonel, de chuva. Cássia toma banho de pensamento. Faz duas horas que ela está al...