Em Lagoa da Italianinha tem gente que toma banho de rio, de tonel, de chuva. Cássia toma banho de pensamento.
Faz duas horas que ela está ali. De roupa e tudo - camisa cinza, calça jeans, cabelo molhado com espuma - sentada na banheira cheia. A água já esfriou. A torneira ainda pinga.
Do lado de fora, em pé, a irmã Lúcia. Jaqueta azul marinho, calça jeans, sapatilha. Não fala alto. Só espera. Porque quem ama de verdade sabe quando a outra precisa de silêncio.
O que prende Cássia na água?
Não é a sujeira. É a tristeza do mundo.
Cássia hoje viu uma cena na rua: uma senhora pedindo água e todo mundo passando direto. Ninguém parou. E aquilo grudou nela.
"Por que a gente esqueceu de amar o próximo, Lúcia? Por que tá todo mundo tão duro?"
Lúcia abaixa a cabeça. Ela conhece a irmã. Cássia sente demais. Carrega a dor dos outros como se fosse dela.
E quando sente demais, ela trava.
Lúcia, a irmã que fica
Lúcia não entrou na banheira. Ela ficou de pé. Vigilante.
"Cássia, já deu. Duas horas, irmã. Você precisa sair, tomar seu remédio, se trocar e dormir. Amanhã você continua pensando nisso, mas com a cabeça descansada."
Cássia olha pra água cheia de espuma.
"Mas se eu sair, o mundo continua igual, Lúcia. Sem amor."
"Continua. Mas você precisa estar forte pra colocar amor nele. E forte você fica quando se cuida."
Na série Rompendo Distâncias, Cássia representa muita gente que a gente conhece: aquela pessoa sensível, que chora com notícia, que sofre pelo vizinho. E Lúcia representa quem segura essa pessoa: a irmã, a amiga, que não julga, mas lembra do básico - remédio, roupa seca, sono.
Cássia finalmente mexeu os joelhos. A água fez barulho.
"Me ajuda a levantar?"
Lúcia sorriu pela primeira vez na noite:
"Sempre."
E assim, em Lagoa da Italianinha, uma banheira fria virou lembrete: pensar na falta de amor do mundo é importante. Mas começar o amor por nós mesmas - tomando remédio na hora, se trocando, dormindo - também é amor ao próximo.
Porque ninguém consegue dar o que não tem.
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