quarta-feira, 11 de março de 2026

Suely é questionada por Marlene


Numa certa manhã, a juíza Suely foi à rodoviária de Lagoa da Italianinha tomar café na lanchonete de Marlene, e em dado momento, Marlene a observava muito. Marlene, em dado momento, perguntou:

- Dona Suely, a senhora assim, quer dizer, careca, e andando descalça assim pra todo lugar, o povo fica te olhando, acho que a senhora é alvo de piadas, né?

- Eu já estou acostumada. Já recebi até alertas do desembargador, mas eu consegui contornar tudo. Não existe nada na Lei que me impeça de adotar esse visual. 

- Mas, senhora, porque a senhora... é... não deixa seus cabelos crescerem? Eu lembro quando a senhora tinha cabelos, era tão bonita...

- Eu nunca achei. Acho que estou mais bonita hoje. Não é se os outros acharem, é se eu achar. Já são nove anos de cabeça raspada e passando a gilete de dois em dois dias, já virou rotina. Não me imagino de jeito nenhum com cabelos de novo. 

- E eu não sei como a senhora aguenta andar descalça, hein? Eu mesma não consigo, não tiro os tênis nem quando tomo banho. 

- Sentir o chão é bom demais. Já tive sapatos, mas eu me sentia escravizada por eles, adotei o mesmo hábito da minha irmã Myllena. Joguei meus calçados fora, os que ainda poderiam ser usados dei aos pobres, e estou assim hoje de pés no chão, e estou feliz assim. 

- Não se importa com críticas, né?

- Não. Nem um pouco. Eu só me arrependo é de não andar descalça desde criança, como minha irmã. 

Marlene disse:

- Bom, se a senhora acha que deve viver sem cabelos nem calçados, tudo bem, é um direito seu...

- Calçados não deveriam ser artigo obrigatório, deveria ser usado só por quem não gosta de andar descalça, que é seu caso. Mas quem gosta, deveria ter esse direito de andar sempre assim de pés no chão. Aqui é um preconceito danado, mas lá na Austrália, o pessoal anda descalço de boa, pelas ruas, sem nenhum tipo de discriminação. Quando fui lá, me senti em casa. E olha que já faz mais de vinte anos que vivo descalça...

- Tá bom, doutora. 

Suely terminou seu lanche, e disse:

- O mal das pessoas é querer viver de acordo com os outros. Eu me sinto bonita e elegante assim como sou. E tem pessoas que me admiram assim. Pela minha autenticidade. Nunca seja o que os outros querem, e sim o que você quer. Desde, que claro, não seja nada de errado contra a lei. Eu ando descalça, sou careca, tomo banho de roupa, durmo na rede...

- Pelo menos tomar banho de roupa, a senhora é igual a mim, eu também faço isso! 

- Muito bem, temos algo em comum. Agora, vou trabalhar. Fica na paz. 

Suely saiu dali, e Marlene ficou pensativa. 

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