A lanchonete da rodoviária de Lagoa da Italianinha às 14h continua sendo campo minado. Café fraco, cadeira de plástico e gente esperando ônibus com mala no colo.
Foi lá que Danuzia trombou com Suely.
Danuzia. A vilã. Madame de salto agulha, bolsa de marca, cabelo de salão e óculos escuros dentro do terminal. Filha do deputado estadual Moab. Não trabalha. "Vive de administrar os bens da família", segundo ela. Na prática, vive de cartão black e de apontar defeito nos outros.
Suely. A juíza. Careca por opção. Cabeça raspada, brilhando. Descalça. Pé no chão frio da rodoviária, saia longa e blusa social, esbanjando elegância mesmo na simplicidade. Sem batom, sem joia, sem pose. Acabava de sair de uma audiência itinerante e ia pegar o ônibus de volta pro fórum.
O encontro foi inevitável. Só tinha 2 mesas livres.
Danuzia chegou primeiro. Jogou a bolsa Gucci na cadeira, pediu água com gás importada e salada sem tempero.
Quando viu Suely entrando descalça, torceu o nariz até a alma.
Suely sentou na mesa do lado. Pediu café e pão com manteiga. Colocou os pés descalços debaixo da mesa.
Danuzia não aguentou 2 minutos.
"Com licença", disse, com aquele veneno doce de quem nunca pegou no batente. "Aqui é lugar público, né? Mas tem um mínimo de higiene. Andar descalço em rodoviária... onde passa rato, barata... gente que não tem condição..."
Suely nem levantou os olhos do café. Soprou.
"O chão tá limpo. Meus pés também. E condição eu tenho de sobra pra escolher como ando."
Danuzia riu alto, olhando pros outros da lanchonete.
"É opção, né? Essa moda de careca... parece que saiu do SUS. Se tá doente, devia era tá em casa. Meu pai é deputado, sabe? Ele arruma hospital pra quem precisa."
Aí o silêncio caiu.
Suely levantou a cabeça. Olhos calmos.
"Careca é por opção, senhora. Raspo porque não devo satisfação de cabelo pra filha de deputado nem pra ninguém. E descalça é porque cansa carregar salto 12 horas julgando processo, Inclusive processo de gente que acha que lei é pra quem não tem sobrenome."
Danuzia arregalou os olhos. "Julgando? A senhora é...?"
"Sou a juíza Suely. Da comarca. E a senhora é a dona Danuzia, né? A filha do deputado Moab. Aquela que aparece na coluna social mas nunca apareceu numa carteira de trabalho."
O copo de água com gás da Danuzia suou na mão.
Danuzia tentou se recompor. Ajeitou o óculos de 2 mil reais.
"Ah, juíza... pensei que fosse... sei lá. Uma dessas mulher que vive de bolsa. Sem padrão."
Suely limpou a boca no guardanapo.
"Padrão? O seu padrão é salto, bolsa paga pelo pai e humilhar quem trabalha? O meu padrão é a lei. E a lei diz que discriminar por aparência e condição social dá problema, dona Danuzia. Até pra filha de deputado."
A atendente da lanchonete, Deinha, parou de limpar o balcão. O povo todo escutava.
Danuzia ficou vermelha, do salto à raiz. Pegou o celular, fingiu mandar mensagem pro pai e saiu batendo o salto.
Antes de ir, jogou: "Vou falar com meu pai sobre essa rodoviária. Tá abandonada."
Suely ficou. Terminou o café, e foi embora a pé. Descalça sempre.
O povo comentou por semanas.
"Viu a filha do Moab levar esporro da juíza careca?"
"A Suely não precisou citar lei. Só citou a verdade."
Danuzia postou story no Instagram reclamando da "falta de educação no serviço público". Apagou 2 horas depois.
Suely voltou a andar descalça no fórum. Disse que "pé no chão lembra que justiça não tem sobrenome".
Em Lagoa da Italianinha tem dois tipos de poder.
O da Danuzia: que herdou e usa pra humilhar.
E o da Suely: que conquistou e usa pra igualar.
E na lanchonete da rodoviária, até hoje, quando alguém chega de pé descalço, a atendente Deinha serve primeiro e fala baixo: "Cuidado, a juíza pode estar por perto".

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