A praça 27 de Dezembro em Lagoa da Italianinha ferveu no fim da tarde de sábado. E não foi por causa da prefeita Giovanna, nem da ex-prefeita Myllena.
Foi por causa das gêmeas.
Malu estava lá. Cabelo até a cintura, blusa e saia longa, colar de sementes e pé na água do chafariz. Hippie assumida, ela defende que "a água da praça cura a alma". Proibia? Proibia. Mas Malu entrava igual. Dizia que era ato de resistência.
Ela cantava baixinho, de olho fechado, quando ouviu passos apressados no calçamento.
Abriu os olhos e gelou.
Era Wellia. A irmã gêmea. A "malvada" da família.
Mesmo rosto, mesmo cabelo, mesmo corpo. Só que o espelho tinha virado do avesso.
Wellia chegou com a calça jeans suja. E não era barro. Era fezes. Visível. Do joelho pra baixo.
O povo na praça parou. O vendedor de picolé parou. Até o cachorro da praça parou.
Malu saiu da água na hora, água escorrendo no vestido.
"Wellia?! Que loucura é essa?! Você se sujou de novo?"
Wellia cruzou os braços, fedendo e sem vergonha nenhuma.
"E você aí, Malu. Tomando banho de praça igual mendiga. Hipócrita. Fala de paz e amor mas vive suja de água suja."
"Essa água é sagrada!", gritou Malu, apontando pro chafariz. "Ela limpa! Diferente de você que vive suja por dentro e por fora!"
"Eu tô suja porque o mundo tá sujo!", rebateu Wellia, chutando a própria calça. "Prefiro ser real do que ficar fingindo que é florzinha. Pelo menos eu não passo o dia com animais e falando com árvore!"
Malu levantou a mão pro céu.
"O universo me trouxe até aqui pra te mostrar o reflexo da sua escuridão, Wellia! Você é meu karma!"
"E você é meu castigo!", cuspiu Wellia. "Duas loucas. Só que a sua loucura usa incenso e a minha usa a verdade nua e crua!"

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