quarta-feira, 8 de julho de 2026

O dia que Giuliana chegou no Recife


 

O navio encostou no porto do Recife numa manhã quente de setembro de 1939. O mundo lá fora pegava fogo com a guerra, mas aqui o sol batia forte no cais e o cheiro era de sal, café e gente com pressa.

No meio dos passageiros de terno e chapéu, uma mulher chamou atenção.

Giuliana, 30 anos. Vinda de Nápoles. 

Vestido simples de chita, cabelo preso num coque, mala de papelão na mão. E os pés. Os pés descalços no chão quente do cais.

O fiscal da imigração estranhou.

"A senhora perdeu o sapato?"

Giuliana sorriu, com aquele sotaque cantado do sul da Itália.

"Não perdi, moço. Eu não uso. Pé no chão é pra lembrar de onde eu venho."

Giuliana não era senhora. Era camponesa. Filha de quem plantava tomate e azeitona nas colinas perto de Nápoles.

Cresceu descalça na terra. Subia morro, carregava água, colhia no sol. Quando a guerra começou na Europa em 1939, o medo chegou primeiro que as bombas. O pai foi chamado. A casa ficou sem homem. O medo de fome ficou maior que o medo do mar.

Pegou o pouco que tinha, um endereço de um primo que já morava no Brasil e embarcou. Sozinha. Valente.

"Na Itália o chão era pedra e frio", ela contava depois. "Aqui o chão é quente. Então eu ando. Pra agradecer."

Chegar era difícil. Mulher, sozinha, sem dinheiro, sem sapato e falando italiano misturado com um português que aprendia no navio.

Mas Giuliana tinha duas coisas: coragem e mão pra trabalho.

Foi morar num cortiço na Boa Vista com outras famílias de imigrantes. No primeiro dia já arrumou serviço lavando roupa. No segundo, já estava na feira da Madalena vendendo macarrão que ela mesma fazia. Pouco depois arrumou emprego em uma casa de família. 

O povo olhava: "Aquela italiana anda descalça!".

As patroas diziam: "Menina, calça um sapato".

Ela respondia: "Sapato é pra quem esquece a terra. Eu não esqueço."

E andava. Descalça na Ladeira da Misericórdia, descalça no Mercado de São José, descalça na areia de Boa Viagem no domingo.

Em 1940, um homem tentou tomar a banca dela na feira. Giuliana não gritou. Pegou a vassoura e botou ele pra correr. 

"Na minha terra a gente espanta lobo e soldado. Tu acha que eu vou ter medo de valentão de feira?"

Virou conhecida. "A italiana descalça". 

Cozinhava pra 10 famílias. Ensinava as vizinhas a fazer molho de tomate. Costurava, remendava, partejava. Nunca cobrou de quem não tinha.

Dizia que tinha fugido da guerra pra não ver gente morrer de fome. Então aqui ela ia fazer o contrário: dar comida.

Em 1944, foi morar no agreste de Pernambuco,  no sítio Manicoba, atual Lagoa da Italianinha. 

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