quarta-feira, 8 de julho de 2026

Mãe e filha, estilos diferentes



Em Lagoa da Italianinha, no Agreste de Pernambuco, a política tem sobrenome e tem pé. Literalmente. 

De um lado está Giovanna Victorya, a prefeita atual. Do outro, Myllena, a ex-prefeita e mãe, que agora quer voltar à ativa como candidata a deputada estadual. O que une as duas é o poder. O que separa é quase tudo.

A diferença começa pelos pés. 

Giovanna assumiu a prefeitura e trocou o chão de terra batida pelo salto. Sapatos fechados, sociais, batendo no calçamento da cidade. É a marca dela: gestão "arrumada", postura formal, discurso de modernização.

Myllena fez o caminho inverso durante 5 anos. Governou descalça. Andava pelas ruas, entrava nas casas, atendia no gabinete de pé no chão. Dizia que "prefeito tem que sentir o chão da cidade pra saber onde aperta". E sempre quis a filha do mesmo jeito. 

Hoje o sapato virou símbolo. Pra Giovanna é organização. Pra Myllena é distanciamento. "Minha mãe acha que eu esqueci de onde a gente veio", desabafa a prefeita. "Minha filha acha que pra cuidar do povo precisa sujar o pé", rebate a ex-prefeita.

Se o sapato divide, a água separa de vez.

O ponto mais quente entre as duas hoje é o chafariz da praça central. Ponto turístico, ponto de encontro e, no verão, piscina pública. 

Giovanna quer proibir o banho. O argumento é de gestão: conservação do patrimônio, gasto com água, questão de saúde e segurança. "A praça é cartão postal, não pode virar açude", defende a prefeita.

Myllena é contra a proibição. Pra ex-prefeita, o chafariz é do povo. "Eu tomei banho ali. Meu pai tomou. O povo tem direito ao lazer. Quem tem que se adaptar é o poder público", diz.

Na prática, virou um cabo de guerra. Giovanna manda fiscal. Myllena vai na praça no domingo e deixa as crianças entrarem. O povo de Lagoa da Italianinha já escolheu lado: metade aplaude a ordem, metade sente falta da liberdade.

Apesar das brigas, ninguém nega: as duas mudaram a cidade.

Myllena ficou marcada pelo governo de proximidade. Descalça, sem assessor, resolvendo problema na porta de casa. Foi ela quem asfaltou as primeiras ruas e criou as festas de padroeira que lotam a cidade até hoje.

Giovanna herdou o nome e tentou outro caminho. Sapato no pé, projeto no papel, busca por verba e parceria. Quer deixar a cidade "apresentável" para fora. 

Agora os papéis inverteram. A filha está no executivo. A mãe quer ir para a Alepe. Myllena quer ser deputada estadual e diz que vai "levar a voz do Agreste que anda descalço". Giovanna declarou apoio, mas mantém distância. Quer apenas focar em trabalhar. 

Na cidade de 100 mil habitantes, todo mundo é parente, vizinho ou compadre de alguém. E todo mundo tem opinião.

Tem quem diga que Giovanna "envergonha a origem". Tem quem diga que Myllena "vive no passado". Tem quem só queira tomar banho no chafariz em paz.

O fato é que Lagoa da Italianinha virou caso de estudo: como uma mesma família pode representar duas formas tão diferentes de fazer política. Uma descalça e popular. Outra de sapato e técnica.

Em 2026, as duas vão estar na disputa. Uma tentando manter o legado da prefeitura. A outra tentando levar o sobrenome para o Recife.

E enquanto isso, o chafariz continua lá. Com água, com gente, e com duas mulheres decidindo o que fazer com ele.

*Pergunta que fica na praça*: Lagoa da Italianinha prefere a prefeita de sapato ou a candidata descalça?

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