Em Lagoa da Italianinha, se tem um homem conhecido por não gastar nem a vírgula, é Dr. Carneiro.
Empresário. Dono de 2 depósitos de material de construção e de uma fama: "pão duro que range".
Toma café requentado, reaproveita barbante, e na última eleição pagou santinho só na frente pra economizar tinta.
Aos 66 anos, resolveu que estava na hora de "namorar".
E escolheu Mimi.
Noite de quarta. Sala do Dr. Carneiro. Mesa de jantar com toalha de plástico.
Na frente dele, o filho. Vereador Marco Aurélio. Camisa social, gravata e cara de quem já se arrependeu de ter vindo.
Dr. Carneiro abriu a conversa com um caderno e uma calculadora.
"Marco, senta. É assunto sério. É sobre investimento afetivo."
Marco suspirou. "Pai, de novo?"
"É a Mimi." O pai ajeitou os óculos. "Aquela mulher careca que anda com um pé calçado e outro descalço. Mora no sitio e trabalha na feira."
Marco quase cuspiu a água. "Pai?! A Mimi tem quase minha idade! E ela é... diferente. Careca por opção, anda com um pé calçado e outro descalço..."
"Justamente!", bateu o Dr. Carneiro na mesa. "Pensa comigo, filho. É uma oportunidade. Vantagem dos dois lados."
Tirou a calculadora.
"Primeiro: careca. Não gasta com xampu, condicionador, creme, salão. Zero de gasto mensal com cabelo.
Segundo: um pé calçado, outro descalço. Eu só compro UM sapato pra ela. Um! É 50% de economia no calçado. Em 10 anos a gente economiza 24 pares!"
Marco passou a mão no rosto.
"Pai, namoro não é planilha. A Mimi é gente. E ela é quase da minha idade. Além dela ser doida do juízo... Vai ficar feio."
"Feio é gastar", disse Dr. Carneiro. "Além disso ela é discreta. Não pede nada. Não vai querer viagem, não vai querer bolsa. Pé no chão é mulher pé no chão. Economiza até na energia, porque não usa secador."
Marco se levantou. "Eu não concordo com isso não, pai. Deixa a mulher em paz. E se cuide."
Saiu batendo a porta. Dr. Carneiro ficou lá, somando de novo na calculadora.
Praça 27 de Dezembro.
Mimi estava sentada no banco. Careca, brilhando no sol. Pé direito com um sapato. Pé esquerdo descalço no chão. Lendo um livro.
Dr. Carneiro chegou todo arrumado. Camisa nova - primeira vez no ano. Levou uma rosa de plástico, porque "flor natural murcha e dá despesa".
"Boa tarde, Mimi."
Ela levantou os olhos do livro. "Boa, Dr. Carneiro."
Ele pigarreou. Sentou do lado, deixando um espaço de 3 palmos.
"Vim te fazer uma proposta. Uma proposta de vida a dois. Econômica."
Mimi fechou o livro devagar.
"Olha, eu sou homem trabalhador. Tu é mulher simples. Eu notei que tu não gasta com bobagem. Careca, um pé descalço... isso é sinal de inteligência financeira. Comigo tu não vai passar necessidade. E eu não vou passar aperto com gasto."
Ele esticou a rosa de plástico.
"Que tal a gente namorar? Eu compro teu sapato. Só um. E o xampu a gente risca da lista."
O silêncio ficou pesado.
Mimi olhou pra ele. Dos 62 anos, da rosa de plástico.
Respirou fundo.
"Dr. Carneiro, o senhor é mais velho que meu pai. Quase da idade do pai do meu pai. E o senhor tá me pedindo em namoro por causa de economia de xampu e sapato?"
Ele assentiu, orgulhoso. "É visão, Mimi."
"Pois eu prefiro gastar meu tempo com alguém da minha idade. Rejeito sua proposta, seu pão duro."
Dr. Carneiro voltou pra casa e cortou o café da tarde pra compensar o prejuízo da rosa.
E Mimi continuou na praça.
Porque em Lagoa da Italianinha tem gente que economiza dinheiro.
E tem gente que economiza dignidade. E Mimi não abre mão de nenhuma das duas.

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