quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Silêncio de Solange



Em Lagoa da Italianinha, todo mundo conhece Solange. 

E ninguém conhece Solange.

Ela mora na rua. Há anos. Não tem barraca, não pede, não fala alto. Escolhe uma calçada diferente a cada noite. Dorme enrolada num lençol surrado, com uma sacola do lado servindo de travesseiro.

É conhecida por duas coisas: ser misteriosa e ser discreta. 

Não dá bom dia. Não conta história. Não briga. Passa o dia sentada na praça 27 de Dezembro, olhando o chafariz. Quando chove, some. Quando o sol volta, ela tá lá de novo. Como se tivesse brotado do chão.

O povo respeita. Deixa marmita na porta da igreja. Deixa água na calçada. Ela pega de noite, quando ninguém vê.

Foi numa terça-feira. Madrugada fria.

Alguém deixou uma marmita de alumínio na calçada da padaria, bem do lado onde Solange dormia. Arroz, feijão, frango e um pedaço de laranja por cima. Tava tampada, com um bilhete: "Pra quem precisar. Deus abençoe."

Solange dormia. Não viu quem deixou.

Quando o sol raiou, umas 5h30, ela abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi a marmita. Fria. Com orvalho em cima.

O povo que passava pra trabalhar parou e olhou. "Será que ela vai comer?"

Solange não olhou pra ninguém. Sentou na calçada mesmo. Tirou a tampa devagar, como se tivesse medo de assustar a comida.

Comeu com a mão. Devagar. Um grão de arroz de cada vez. Mastigava olhando pro chão. 

Não agradeceu em voz alta. Não chorou. Não fez discurso.

Só comeu. Até a última colherada de feijão. Até chupar o osso do frango. Até guardar a casca da laranja no bolso.

Quando terminou, lavou a marmita na torneira da praça. Devolveu limpa, do lado do lixo da padaria. Pra quem deixou, saber que foi usada.

Dona Claudines da padaria perguntou: "Solange, tava bom?"

Ela balançou a cabeça. Só isso. Um sim com os olhos.

Seu Zé do táxi disse: "Quem deixou comida pra tu, Solange?"

Ela encolheu os ombros. Continuou sentada.

Ninguém sabe de onde Solange veio. Ninguém sabe por que está na rua. Ninguém sabe se tem família.

O que o povo sabe é que naquela manhã ela comeu sem fazer cena. Sem humilhar quem deu e sem se humilhar por receber.

É isso que faz ela ser misteriosa. 

Porque em Lagoa da Italianinha, pobre grita. Rico grita. Político grita. 

Solange não. Solange come calada.

E quando o prato esvazia, ela some de novo. Até a próxima madrugada. Até a próxima marmita. Até o próximo silêncio.

Na rua, Solange não pede nada.  

Mas ensina tudo sobre dignidade.

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