Em Lagoa da Italianinha, todo mundo conhece Solange.
E ninguém conhece Solange.
Ela mora na rua. Há anos. Não tem barraca, não pede, não fala alto. Escolhe uma calçada diferente a cada noite. Dorme enrolada num lençol surrado, com uma sacola do lado servindo de travesseiro.
É conhecida por duas coisas: ser misteriosa e ser discreta.
Não dá bom dia. Não conta história. Não briga. Passa o dia sentada na praça 27 de Dezembro, olhando o chafariz. Quando chove, some. Quando o sol volta, ela tá lá de novo. Como se tivesse brotado do chão.
O povo respeita. Deixa marmita na porta da igreja. Deixa água na calçada. Ela pega de noite, quando ninguém vê.
Foi numa terça-feira. Madrugada fria.
Alguém deixou uma marmita de alumínio na calçada da padaria, bem do lado onde Solange dormia. Arroz, feijão, frango e um pedaço de laranja por cima. Tava tampada, com um bilhete: "Pra quem precisar. Deus abençoe."
Solange dormia. Não viu quem deixou.
Quando o sol raiou, umas 5h30, ela abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi a marmita. Fria. Com orvalho em cima.
O povo que passava pra trabalhar parou e olhou. "Será que ela vai comer?"
Solange não olhou pra ninguém. Sentou na calçada mesmo. Tirou a tampa devagar, como se tivesse medo de assustar a comida.
Comeu com a mão. Devagar. Um grão de arroz de cada vez. Mastigava olhando pro chão.
Não agradeceu em voz alta. Não chorou. Não fez discurso.
Só comeu. Até a última colherada de feijão. Até chupar o osso do frango. Até guardar a casca da laranja no bolso.
Quando terminou, lavou a marmita na torneira da praça. Devolveu limpa, do lado do lixo da padaria. Pra quem deixou, saber que foi usada.
Dona Claudines da padaria perguntou: "Solange, tava bom?"
Ela balançou a cabeça. Só isso. Um sim com os olhos.
Seu Zé do táxi disse: "Quem deixou comida pra tu, Solange?"
Ela encolheu os ombros. Continuou sentada.
Ninguém sabe de onde Solange veio. Ninguém sabe por que está na rua. Ninguém sabe se tem família.
O que o povo sabe é que naquela manhã ela comeu sem fazer cena. Sem humilhar quem deu e sem se humilhar por receber.
É isso que faz ela ser misteriosa.
Porque em Lagoa da Italianinha, pobre grita. Rico grita. Político grita.
Solange não. Solange come calada.
E quando o prato esvazia, ela some de novo. Até a próxima madrugada. Até a próxima marmita. Até o próximo silêncio.
Na rua, Solange não pede nada.
Mas ensina tudo sobre dignidade.

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