Praça 27 de Dezembro, Lagoa da Italianinha. 9h da manhã.
Sol batendo no banco da praça e cheiro de café vindo da padaria.
No banco, Sayonara. Conhecida na cidade como "mendiga limpa".
Cabelo preso, roupa lavada no chafariz, descalça. Do lado dela, um lençol dobrado e uma sacola com sabonete, shampoo e toalha.
O povo dizia: "Sayonara dorme em cima de lençol e toma mais banho que muito casado".
Parou um carro preto. Desceu Danuzia.
Madame. Salto alto, óculos escuros, bolsa de grife, colar de ouro no pescoço. Mesmo às 9h da manhã.
Ela vinha da reunião do comércio e passou pela praça só pra "ver o movimento".
Bateu o olho em Sayonara. Franziu a cara.
"Aí não. Isso é um absurdo. Isso é um atentado ao turismo da cidade."
Chegou perto. Parou na frente do banco.
Danuzia cruzou os braços. "Moça. Você. Levanta."
Sayonara olhou. Não levantou. "Bom dia, dona."
"Bom dia nada", Danuzia apontou pro lençol. "Isso aqui é praça pública. Não é quarto de hotel. E essa história de 'mendiga limpa'... pelo amor de Deus. Vocês são tudo igual. Sujeira é sujeira."
Pegou mais alto, pra todo mundo ouvir.
"Eu pago imposto. Eu gero emprego. E aí eu tenho que ver isso aqui? Dormindo em lençol como se fosse gente fina? Banho todo dia? Pra quê? Pra enganar os outros?"
Algumas pessoas pararam. Leila, uma vendedora de picolé, fingiu que não viu.
Sayonara continuou sentada. Ajeitou o lençol no colo.
"Eu tomo banho porque gosto, dona. E durmo em lençol porque minha mãe me ensinou. Mesmo na rua, cama limpa é dignidade."
Danuzia riu com deboche. "Dignidade? Dignidade é trabalhar. É ter casa. É ter nome. O teu é Sayonara? Nome de novela. Deve ser apelido de cadeia."
Sayonara levantou devagar. Esticou o lençol e dobrou com cuidado.
Guardou o sabonete na sacola.
Olhou pra Danuzia dos pés à cabeça. Do salto ao colar.
"E a senhora? Com esse ouro no pescoço às 9h na praça... tá com medo de alguém achar que tá pobre?"
O pessoal que tava ouvindo segurou o riso.
"Eu não peço nada pra senhora", Sayonara continuou. "Eu lavo minha roupa. Eu varro meu canto. Eu não sujo a praça. O que tá incomodando? É eu ser pobre ou é eu ser limpa?"
Danuzia ficou vermelha. "Você tá sendo insolente!"
"Insolente é achar que dinheiro dá o direito de humilhar", disse Sayonara, calma.
Pegou a sacola. Fez uma reverência irônica.
"Tenha um bom dia, madame. E se quiser, o chafariz tá funcionando. Banho faz bem até pra alma."
Virou e foi embora. Descalça, pisando devagar.
Danuzia ficou parada. Com o povo olhando.
Leila, a vendedora de picolé soltou: "A mendiga deu aula, madame."
Danuzia entrou no carro batendo a porta. Mas não falou mais nada.
Naquela tarde, alguém escreveu com giz no banco da praça:
"Aqui senta Sayonara - A Mendiga Limpa. Respeito é pra quem tem."
E Danuzia nunca mais parou o carro ali às 9h.
Em Lagoa da Italianinha o povo aprendeu:
Dignidade não tem endereço.
E humilhar quem é limpo só mostra quem tá sujo por dentro...
Quer que eu transforme isso em crônica, em cena pra teatro ou em texto pra rede social?

Nenhum comentário:
Postar um comentário