quinta-feira, 9 de julho de 2026

Myllena barrada em restaurante por estar descalça




A estrada entre Vila Dourada e Lagoa da Italianinha é quente. Asfalto derretendo, caminhão passando, poeira subindo.

E bem no meio, inaugurou mês passado o Restaurante Sabor da Beira". Mesas de plástico, toalha xadrez, cheiro de galinha guisada. Recém-aberto. Placa nova.

Era meio-dia quando Myllena parou lá. 

Ex-prefeita de Lagoa da Italianinha. 5 anos de mandato. E agora pré-candidata a deputada estadual. Cabelo solto, blusa socal, calça social. 

E os pés. Os dois pés descalços no chão quente do estacionamento.

Myllena entrou direto. Sentou numa mesa perto da janela. Pediu: "Um sanduíche e um suco de acerola, por favor."

O gerente, rapaz novo, camisa do restaurante, chegou apressado.
"Moça... com licença. Aqui a gente tem uma regra. É obrigatório o uso de calçados."

Myllena olhou pra baixo. Olhou pros próprios pés. Olhou pra ele.
"Eu não uso."

O gerente ficou vermelho. "É norma da vigilância, da prefeitura... higiene. Se a senhora não calçar, eu não posso servir."

Na mesa do lado, um motorista de caminhão cochichou. Na cozinha, alguém parou de fritar.

Myllena ajeitou na cadeira. "Meu nome é Myllena. Fui prefeita de Lagoa da Italianinha por 5 anos. E sou pré-candidata a deputada. Nunca usei sapato na vida. Não quero. Pé no chão é minha escolha desde menina."

O gerente gaguejou. "Dona Myllena... desculpa, eu não sabia. Mas a regra é pra todo mundo. O restaurante é novo, a gente não pode arriscar multa."

"Então a regra é mais importante que a pessoa?", perguntou ela, calma.

Ele não respondeu. Só apontou pra porta. "Desculpa."

Myllena levantou. Sem brigar. Sem gritar. Pegou a bolsa e saiu. Os pés levantando poeira no estacionamento.

Duas horas depois o vídeo já estava no grupo de WhatsApp de Lagoa da Italianinha.

Uma cliente tinha filmado. "Barraram a ex-prefeita por estar descalça."

Os comentários explodiram. 
"Ela sempre foi assim!" 
"Respeito!" 
"Mas restaurante tem regra!"

Às 16h, Myllena fez uma live da calçada da casa dela. Pé no chão, no cimento frio.

"Gente, não é sobre comida. É sobre escolha. Eu não uso calçado porque não quero. Nunca usei. Minha mãe me criou assim na roça. O chão me ensina. Se eu for deputada, vou continuar entrando nas repartições, nas escolas, nas feiras do mesmo jeito."

Respirou fundo. 
"Eu não quero processar ninguém. O restaurante é novo, o rapaz tá com medo. Mas eu quero conversar. Porque se a gente barra uma mulher por causa do pé, amanhã barra por causa da roupa, da cor, da religião."

No fim da noite, o dono do "Sabor da Beira" ligou pra ela.
"Dona Myllena, me perdoa. A gente errou na forma. Quer vir almoçar aqui amanhã? Por nossa conta. E pode vir do jeito que a senhora quiser."

No outro dia Myllena voltou. Mesma roupa. E descalça.

Sentou na mesma mesa. Comeu o sanduíche. Pagou a conta.
"Eu pago", disse. "Porque respeito se compra, mas não se mendiga."

Tirou foto com o gerente. Ele sorrindo torto. Ela sorrindo de verdade.

Na saída, uma placa pequena apareceu na porta do restaurante, escrita à mão:
_"Aqui entra gente. De sapato, de sandália ou descalça."_

E Myllena seguiu campanha afora. De pé no chão. 
Porque pra ela, política também se faz sentindo o chão que o povo pisa.


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