quinta-feira, 9 de julho de 2026

Danuzia tenta humilhar Sayonara

 


Praça 27 de Dezembro, Lagoa da Italianinha. 9h da manhã. 

Sol batendo no banco da praça e cheiro de café vindo da padaria.

No banco, Sayonara. Conhecida na cidade como "mendiga limpa". 

Cabelo preso, roupa lavada no chafariz, descalça. Do lado dela, um lençol dobrado e uma sacola com sabonete, shampoo e toalha.

O povo dizia: "Sayonara dorme em cima de lençol e toma mais banho que muito casado".

Parou um carro preto. Desceu Danuzia. 

Madame. Salto alto, óculos escuros, bolsa de grife, colar de ouro no pescoço. Mesmo às 9h da manhã.

Ela vinha da reunião do comércio e passou pela praça só pra "ver o movimento".

Bateu o olho em Sayonara. Franziu a cara.

"Aí não. Isso é um absurdo. Isso é um atentado ao turismo da cidade."

Chegou perto. Parou na frente do banco.

Danuzia cruzou os braços. "Moça. Você. Levanta."

Sayonara olhou. Não levantou. "Bom dia, dona."

"Bom dia nada", Danuzia apontou pro lençol. "Isso aqui é praça pública. Não é quarto de hotel. E essa história de 'mendiga limpa'... pelo amor de Deus. Vocês são tudo igual. Sujeira é sujeira."

Pegou mais alto, pra todo mundo ouvir.

"Eu pago imposto. Eu gero emprego. E aí eu tenho que ver isso aqui? Dormindo em lençol como se fosse gente fina? Banho todo dia? Pra quê? Pra enganar os outros?"

Algumas pessoas pararam. Leila, uma vendedora de picolé, fingiu que não viu.

Sayonara continuou sentada. Ajeitou o lençol no colo.

"Eu tomo banho porque gosto, dona. E durmo em lençol porque minha mãe me ensinou. Mesmo na rua, cama limpa é dignidade."

Danuzia riu com deboche. "Dignidade? Dignidade é trabalhar. É ter casa. É ter nome. O teu é Sayonara? Nome de novela. Deve ser apelido de cadeia."

Sayonara levantou devagar. Esticou o lençol e dobrou com cuidado.

Guardou o sabonete na sacola.

Olhou pra Danuzia dos pés à cabeça. Do salto ao colar.

"E a senhora? Com esse ouro no pescoço às 9h na praça... tá com medo de alguém achar que tá pobre?"

O pessoal que tava ouvindo segurou o riso.

"Eu não peço nada pra senhora", Sayonara continuou. "Eu lavo minha roupa. Eu varro meu canto. Eu não sujo a praça. O que tá incomodando? É eu ser pobre ou é eu ser limpa?"

Danuzia ficou vermelha. "Você tá sendo insolente!"

"Insolente é achar que dinheiro dá o direito de humilhar", disse Sayonara, calma.

Pegou a sacola. Fez uma reverência irônica.

"Tenha um bom dia, madame. E se quiser, o chafariz tá funcionando. Banho faz bem até pra alma."

Virou e foi embora. Descalça, pisando devagar.

Danuzia ficou parada. Com o povo olhando. 

Leila, a vendedora de picolé soltou: "A mendiga deu aula, madame."

Danuzia entrou no carro batendo a porta. Mas não falou mais nada.

Naquela tarde, alguém escreveu com giz no banco da praça:

"Aqui senta Sayonara - A Mendiga Limpa. Respeito é pra quem tem."

E Danuzia nunca mais parou o carro ali às 9h.

Em Lagoa da Italianinha o povo aprendeu:  

Dignidade não tem endereço.  

E humilhar quem é limpo só mostra quem tá sujo por dentro...



Quer que eu transforme isso em crônica, em cena pra teatro ou em texto pra rede social?

Confusão na lanchonete da rodoviária


Wedja bebendo, Valdenes desenhando,  a mendiga Solange molhada porque tinha tomado banho no chafariz e Marlene tentando pôr ordem.

Wedja viu Solange molhada e apontou o dedo.

"Olha ela! Tomando banho no chafariz! Isso é falta de educação! Isso é coisa de..."

Solange sorriu, espremendo a blusa. "É coisa de quem tava com calor, minha filha. Quer um banho também? Tá de graça."

Wedja bufou e virou pro Valdenes. "E tu? Artista? Desenhando bêbada? Me desenha bonita!"

Chegou perto e derrubou o café de Valdenes com a bolsa.

O café preto espalhou no caderno dele. No chão. No pé dele.

Valdenes olhou pro café. Olhou pro desenho. Olhou pra Wedja.

Respirou fundo. "Pronto. Acabei de criar minha nova obra. Chama: 'Café Derramado Sobre a Hipocrisia'."

Wedja achou que era elogio. "É? Eu sou hipocrisia? Obrigada, lindo!"

Marlene bateu o rolo de massa no balcão. O barulho ecoou na rodoviária inteira.

Todo mundo parou.

"Solange, seca esse cabelo que tu vai gripar.  

Valdenes, limpa esse café e vende esse desenho que tá bonito.  

Wedja, senta ali e toma uma água. Bêbada não pega ônibus e não enche meu saco!"

Wedja fez biquinho. "Mas Marlene..."

"Mas nada! Ou tu senta ou eu te sirvo de pastel e tu paga dobrado."

Wedja sentou. Resmungando. 

Solange pegou uma toalha que Marlene jogou pra ela. 

Valdenes pegou outro copo de café. Olhou pra poça, pra Wedja bêbada, pra Solange pingando. 

E começou a desenhar de novo.

10 minutos depois o ônibus chegou.

Valdenes mostrou o desenho pra todo mundo: era a rodoviária. Solange saindo do chafariz, Wedja de braço aberto bêbada, Marlene com o rolo na mão igual juíza.

No canto, ele mesmo, descalço, tomando café.

Vendeu o desenho pro motorista por 30 reais e um café.

Marlene gritou: "Próximo pastel com 50% de desconto pra quem se comportar!"

E Valdenes ficou na plataforma. Pé no chão. Desenhando o ônibus indo embora. 

Depois da confusão, tudo normalizou. Valdenes levou Wedja pra casa dela, Solange foi perambular pelas ruas e Marlene foi cuidar de fechar sua lanchonete. 


Danuzia e seu colar de ouro


Na mansão da Danuzia, em Lagoa da Italianinha, o banheiro é do tamanho de uma sala. Banheira de mármore, espelho até o teto, torneira que solta água com cheiro de lavanda.

E lá dentro, na água, estava ela.

Danuzia. A vilã da cidade. Herdeira, empresária, invejada e temida.

Só que Danuzia não toma banho normal. 

Ela tomava banho "completa".

Dentro da banheira: blusa social preta, paletó preto, saia preta, sapato salto alto preto. Tudo molhado, grudado no corpo. A água subindo até o pescoço.

Na porta, encostada, a tia. Ana Patrícia. Irmã do pai dela. 

"Tia, chega mais", disse Danuzia, sem nem olhar. "Quero te mostrar uma coisa."

Ana Patrícia fez cara de nojo. "Filha, tu tá doida? Banho é pra tirar roupa. E tu com esse salto dentro d’água... vai escorregar."

Danuzia riu. Molhou a mão e jogou água no próprio paletó.

"Escorregar? Jamais. Eu sou chique até na água, tia. Eu só tomo banho assim."

Levantou um pouco na banheira. A saia boiou. O salto afundou e fez "ploc".

E aí ela puxou do pescoço. 

Um colar de ouro. Grosso. Brilhando mesmo molhado. Pingente grande, com as iniciais D.B.

"Olha isso aqui, tia", ostentou, erguendo o colar pra luz. A água escorria pelo ouro. "Acabei de comprar. 80 mil. À vista."

Ana Patrícia arregalou os olhos. "Danuzia! 80 mil num colar?! E tu usando pra tomar banho?!"

"Claro", Danuzia encostou na borda da banheira, como quem posa pra foto. "Ouro não desbota, tia. E eu não tiro nunca. Nem pra dormir, nem pra trabalhar, nem pra... me limpar."

Girou o pescoço devagar. O colar fez barulho de riqueza.

"Sabe por quê? Porque gente como eu não pode aparecer sem nada. Se eu tirar o colar, as pessoas vão achar que eu tô quebrada."

Ana Patrícia balançou a cabeça. "Ostentação até dentro da banheira. O povo tá passando fome lá fora e tu aqui, de salto, lavando ouro."

Danuzia deu de ombros. Pegou o sabonete líquido e passou por cima da blusa social.

"Problema do povo, tia. O meu problema é manter o padrão. É chique, é poder, é isso que intimida."

Levantou. A água desceu pelo paletó. O salto fez barulho no mármore molhado.

Parou na frente do espelho, ainda pingando.

"Viu, tia? Até saindo do banho eu pareço capa de revista. Com ou sem água."

Danuzia ficou sozinha. Se olhou no espelho. Ajeitou o colar de ouro no pescoço molhado.

Sorriu.


*_Porque pra Danuzia, vilã não descansa.  

Vilã ostenta. Até dentro da banheira._*


Quer que eu transforme isso em cena de novela, em crônica de humor ou em monólogo teatral da Danuzia?

Myllena barrada em restaurante por estar descalça




A estrada entre Vila Dourada e Lagoa da Italianinha é quente. Asfalto derretendo, caminhão passando, poeira subindo.

E bem no meio, inaugurou mês passado o Restaurante Sabor da Beira". Mesas de plástico, toalha xadrez, cheiro de galinha guisada. Recém-aberto. Placa nova.

Era meio-dia quando Myllena parou lá. 

Ex-prefeita de Lagoa da Italianinha. 5 anos de mandato. E agora pré-candidata a deputada estadual. Cabelo solto, blusa socal, calça social. 

E os pés. Os dois pés descalços no chão quente do estacionamento.

Myllena entrou direto. Sentou numa mesa perto da janela. Pediu: "Um sanduíche e um suco de acerola, por favor."

O gerente, rapaz novo, camisa do restaurante, chegou apressado.
"Moça... com licença. Aqui a gente tem uma regra. É obrigatório o uso de calçados."

Myllena olhou pra baixo. Olhou pros próprios pés. Olhou pra ele.
"Eu não uso."

O gerente ficou vermelho. "É norma da vigilância, da prefeitura... higiene. Se a senhora não calçar, eu não posso servir."

Na mesa do lado, um motorista de caminhão cochichou. Na cozinha, alguém parou de fritar.

Myllena ajeitou na cadeira. "Meu nome é Myllena. Fui prefeita de Lagoa da Italianinha por 5 anos. E sou pré-candidata a deputada. Nunca usei sapato na vida. Não quero. Pé no chão é minha escolha desde menina."

O gerente gaguejou. "Dona Myllena... desculpa, eu não sabia. Mas a regra é pra todo mundo. O restaurante é novo, a gente não pode arriscar multa."

"Então a regra é mais importante que a pessoa?", perguntou ela, calma.

Ele não respondeu. Só apontou pra porta. "Desculpa."

Myllena levantou. Sem brigar. Sem gritar. Pegou a bolsa e saiu. Os pés levantando poeira no estacionamento.

Duas horas depois o vídeo já estava no grupo de WhatsApp de Lagoa da Italianinha.

Uma cliente tinha filmado. "Barraram a ex-prefeita por estar descalça."

Os comentários explodiram. 
"Ela sempre foi assim!" 
"Respeito!" 
"Mas restaurante tem regra!"

Às 16h, Myllena fez uma live da calçada da casa dela. Pé no chão, no cimento frio.

"Gente, não é sobre comida. É sobre escolha. Eu não uso calçado porque não quero. Nunca usei. Minha mãe me criou assim na roça. O chão me ensina. Se eu for deputada, vou continuar entrando nas repartições, nas escolas, nas feiras do mesmo jeito."

Respirou fundo. 
"Eu não quero processar ninguém. O restaurante é novo, o rapaz tá com medo. Mas eu quero conversar. Porque se a gente barra uma mulher por causa do pé, amanhã barra por causa da roupa, da cor, da religião."

No fim da noite, o dono do "Sabor da Beira" ligou pra ela.
"Dona Myllena, me perdoa. A gente errou na forma. Quer vir almoçar aqui amanhã? Por nossa conta. E pode vir do jeito que a senhora quiser."

No outro dia Myllena voltou. Mesma roupa. E descalça.

Sentou na mesma mesa. Comeu o sanduíche. Pagou a conta.
"Eu pago", disse. "Porque respeito se compra, mas não se mendiga."

Tirou foto com o gerente. Ele sorrindo torto. Ela sorrindo de verdade.

Na saída, uma placa pequena apareceu na porta do restaurante, escrita à mão:
_"Aqui entra gente. De sapato, de sandália ou descalça."_

E Myllena seguiu campanha afora. De pé no chão. 
Porque pra ela, política também se faz sentindo o chão que o povo pisa.


Malu, Alice e Wellia na lagoa



Sábado de sol em Lagoa da Italianinha. Calor de rachar.

Malu e a irmã gêmea Wellia combinaram cedo: "Bora pra lagoa?" 

Wellia levou a filha, Alice. Cabelo trançado e boia de unicórnio na mão.

As três chegaram na beira da água juntas. Mesmo rosto, jeitos diferentes.

Wellia tirou a canga e ficou de biquíni. Florido, amarelo. Coisa de mãe que ainda quer pegar um sol.

Alice já saiu correndo: "Tia Malu, vem! A água tá quentinha!" De maiô rosa, com brilho.

Aí foi a vez de Malu.

Ela olhou pra lagoa, olhou pra irmã de biquíni, olhou pra sobrinha de maiô... e entrou.

De blusa e saia hippie. Saia longa, estampada, rodando no vento. Blusa de algodão, com bordado e franja. Pé descalço.

Wellia parou na beira. "Malu?! Tu vai entrar assim?"

Malu riu e já foi pisando na água. A saia boiou igual flor. "Vou. Hippie entra de hippie."

Alice ficou parada olhando. Depois deu risada e gritou: "Tia Malu virou sereia da saia!"

Wellia e Alice nadaram. Mergulharam, fizeram castelinho na areia, espirraram água.

Malu não nadou. Ela flutuou. De saia aberta, braço aberto, deixando a lagoa levar. A blusa ficou transparente, grudada, mas ela nem ligou. 

"É assim que eu sinto a água", disse. "Na pele e na roupa. Sem pressa de secar."

O povo na lagoa olhou. Uns estranharam. Outros acharam bonito. Uma senhora até falou: "Essa aí entrou pra benzer a lagoa."

Wellia nadou até a irmã. "Cansou de ser diferente?"

Malu espirrou água nela. "Cansar? Gêmea que é gêmea tem que ser diferente, senão pra que duas?"

Alice subiu nas costas de Malu. "Tia, me leva pra passear de saia-barco."

E lá foi Malu, com Alice nas costas, rodando na água rasa. A saia virou vela.

Na hora de ir embora, Wellia e Alice se enxugaram na toalha em 2 minutos. 

Malu ficou espremendo a saia. A blusa pingando. Demorou o triplo.

"Valeu a pena?", perguntou Wellia.

Malu olhou pra lagoa, pra filha da irmã rindo, pro sol baixando.

"Valeu. Eu não entrei pra tomar banho. Eu entrei pra lembrar que dá pra ser feliz até de roupa."

No carro, Alice dormiu no banco de trás. Wellia dirigindo. Malu na janela, com a saia ainda úmida.

Duas gêmeas. Uma de biquíni. Outra de hippie.

E uma menina no meio que aprendeu que na lagoa cabe todo tipo de traje. 

Desde que tenha alegria junto.

Dr. Carneiro tenta namorar com Mimi


Em Lagoa da Italianinha, se tem um homem conhecido por não gastar nem a vírgula, é Dr. Carneiro. 

Empresário. Dono de 2 depósitos de material de construção e de uma fama: "pão duro que range". 

Toma café requentado, reaproveita barbante, e na última eleição pagou santinho só na frente pra economizar tinta.

Aos 66 anos, resolveu que estava na hora de "namorar". 

E escolheu Mimi.

Noite de quarta. Sala do Dr. Carneiro. Mesa de jantar com toalha de plástico.

Na frente dele, o filho. Vereador Marco Aurélio. Camisa social, gravata e cara de quem já se arrependeu de ter vindo.

Dr. Carneiro abriu a conversa com um caderno e uma calculadora.

"Marco, senta. É assunto sério. É sobre investimento afetivo."

Marco suspirou. "Pai, de novo?"

"É a Mimi." O pai ajeitou os óculos. "Aquela mulher careca que anda com um pé calçado e outro descalço. Mora no sitio e trabalha na feira."

Marco quase cuspiu a água. "Pai?! A Mimi tem quase minha idade! E ela é... diferente. Careca por opção, anda com um pé calçado e outro descalço..."

"Justamente!", bateu o Dr. Carneiro na mesa. "Pensa comigo, filho. É uma oportunidade. Vantagem dos dois lados."

Tirou a calculadora.

"Primeiro: careca. Não gasta com xampu, condicionador, creme, salão. Zero de gasto mensal com cabelo. 

Segundo: um pé calçado, outro descalço. Eu só compro UM sapato pra ela. Um! É 50% de economia no calçado. Em 10 anos a gente economiza 24 pares!"

Marco passou a mão no rosto.

"Pai, namoro não é planilha. A Mimi é gente. E ela é quase da minha idade. Além dela ser doida do juízo... Vai ficar feio."

"Feio é gastar", disse Dr. Carneiro. "Além disso ela é discreta. Não pede nada. Não vai querer viagem, não vai querer bolsa. Pé no chão é mulher pé no chão. Economiza até na energia, porque não usa secador."

Marco se levantou. "Eu não concordo com isso não, pai. Deixa a mulher em paz. E se cuide."

Saiu batendo a porta. Dr. Carneiro ficou lá, somando de novo na calculadora.

Praça 27 de Dezembro.

Mimi estava sentada no banco. Careca, brilhando no sol. Pé direito com um sapato. Pé esquerdo descalço no chão. Lendo um livro.

Dr. Carneiro chegou todo arrumado. Camisa nova - primeira vez no ano. Levou uma rosa de plástico, porque "flor natural murcha e dá despesa".

"Boa tarde, Mimi." 

Ela levantou os olhos do livro. "Boa, Dr. Carneiro."

Ele pigarreou. Sentou do lado, deixando um espaço de 3 palmos.

"Vim te fazer uma proposta. Uma proposta de vida a dois. Econômica."

Mimi fechou o livro devagar.

"Olha, eu sou homem trabalhador. Tu é mulher simples. Eu notei que tu não gasta com bobagem. Careca, um pé descalço... isso é sinal de inteligência financeira. Comigo tu não vai passar necessidade. E eu não vou passar aperto com gasto."

Ele esticou a rosa de plástico.

"Que tal a gente namorar? Eu compro teu sapato. Só um. E o xampu a gente risca da lista."

O silêncio ficou pesado. 

Mimi olhou pra ele. Dos 62 anos, da rosa de plástico.

Respirou fundo.

"Dr. Carneiro, o senhor é mais velho que meu pai. Quase da idade do pai do meu pai. E o senhor tá me pedindo em namoro por causa de economia de xampu e sapato?"

Ele assentiu, orgulhoso. "É visão, Mimi."

"Pois eu prefiro gastar meu tempo com alguém da minha idade. Rejeito sua proposta, seu pão duro."

Dr. Carneiro voltou pra casa e cortou o café da tarde pra compensar o prejuízo da rosa.

E Mimi continuou na praça.

Porque em Lagoa da Italianinha tem gente que economiza dinheiro.

E tem gente que economiza dignidade. E Mimi não abre mão de nenhuma das duas.


Taline, Teane e o sonho do Museu de Inalda



Em Lagoa da Italianinha tem uma casa grande, de janelas altas e portão de ferro. Casa antiga. Do século XX. 

Foi adquirida por duas irmãs gêmeas. Taline e Teane.

Mesmo rosto, cabelo igual, voz parecida. O que muda é o jeito. Taline fala baixo e cuida dos papéis. Teane fala alto e cuida dos quadros.

E os quadros são a herança delas. 

Foram pintados por Inalda. A bisavó. Pintora alemã judia que fugiu da Europa e veio parar em Lagoa da Italianinha. Chegou nos anos 1920, comprou a mansão, plantou roseira no quintal e passou 40 anos pintando a cidade, o Agreste, as mulheres na feira, o céu de agosto.

Atualmente a casa tem cerca de 37 quadros guardados. Alguns na parede, outros enrolados, outros embaixo da cama. Todos assinados: _Inalda, 1934. Inalda, 1941._

Taline e Teane cresceram ouvindo a história. "Sua bisavó pintava pra não esquecer de onde veio. E pintava a gente pra gente não esquecer de onde chegou."

Há anos elas guardam tudo. Limpam com pano, passam veneno contra cupim, anotam em caderno. 

Agora querem mais. Querem abrir as portas.

O plano: transformar a mansão de Inalda no "Museu da Cultura Alemã de Lagoa da Italianinha".

"Não é só sobre a Alemanha", explica Taline, ajeitando um quadro de 1938 onde Inalda pintou a praça 27 de Dezembro. "É sobre imigração. Sobre judia. Sobre mulher artista. Sobre como uma alemã se apaixonou pelo Agreste."

"A casa tem tudo", completa Teane. "Tem os quadros, tem os pincéis dela, tem as cartas em alemão, tem a cozinha onde ela fazia strudel. Só falta abrir pro povo."

Na semana passada as gêmeas foram no gabinete da *prefeita Giovanna Victorya. De salto, caderno na mão e um porta-retrato com a foto de Inalda.

"Prefeita, a gente quer ajuda", disse Taline.

"Pra fazer um museu", emendou Teane. "Sem cobrar entrada. Pra escola, pra turista, pra quem quiser conhecer."

Giovanna ouviu calada. Olhou os quadros na foto. Uma paisagem da Lagoa, outra da igreja matriz, outra de uma mulher descalça na roça. Tudo com traço europeu e cor de Nordeste.

"Minha mãe Myllena falava da Inalda", disse a prefeita. "Dizia que ela doava quadro pra festa da padroeira. Mas nunca vi pessoalmente."

A prefeita prometeu visitar a mansão. "Se a casa tá de pé e os quadros também, a gente tem que mostrar. Cultura alemã em Lagoa da Italianinha? O povo precisa saber que nossa história não é só de um povo."

Hoje a casa continua fechada. Mas Taline passa o dia limpando vidro. Teane corre atrás de documento, de lei de incentivo, de parceria com universidade.

O sonho delas é simples: abrir a porta. Colocar plaquinha. Deixar criança de escola entrar e perguntar "quem foi Inalda?"

Porque Inalda foi uma refugiada que virou lagoense. 

E Taline e Teane são duas gêmeas que não querem deixar a memória da bisavó morrer dentro de quatro paredes.

Lagoa da Italianinha já teve prefeita descalça e prefeita de sapato.  

Agora pode ganhar um museu de uma pintora alemã guardado por duas gêmeas.

Se depender de Taline e Teane, a mansão do século XX vai voltar a ter visita. E os quadros de Inalda vão sair do escuro pra contar que Lagoa da Italianinha sempre foi casa de quem veio de longe.


O Silêncio de Solange



Em Lagoa da Italianinha, todo mundo conhece Solange. 

E ninguém conhece Solange.

Ela mora na rua. Há anos. Não tem barraca, não pede, não fala alto. Escolhe uma calçada diferente a cada noite. Dorme enrolada num lençol surrado, com uma sacola do lado servindo de travesseiro.

É conhecida por duas coisas: ser misteriosa e ser discreta. 

Não dá bom dia. Não conta história. Não briga. Passa o dia sentada na praça 27 de Dezembro, olhando o chafariz. Quando chove, some. Quando o sol volta, ela tá lá de novo. Como se tivesse brotado do chão.

O povo respeita. Deixa marmita na porta da igreja. Deixa água na calçada. Ela pega de noite, quando ninguém vê.

Foi numa terça-feira. Madrugada fria.

Alguém deixou uma marmita de alumínio na calçada da padaria, bem do lado onde Solange dormia. Arroz, feijão, frango e um pedaço de laranja por cima. Tava tampada, com um bilhete: "Pra quem precisar. Deus abençoe."

Solange dormia. Não viu quem deixou.

Quando o sol raiou, umas 5h30, ela abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi a marmita. Fria. Com orvalho em cima.

O povo que passava pra trabalhar parou e olhou. "Será que ela vai comer?"

Solange não olhou pra ninguém. Sentou na calçada mesmo. Tirou a tampa devagar, como se tivesse medo de assustar a comida.

Comeu com a mão. Devagar. Um grão de arroz de cada vez. Mastigava olhando pro chão. 

Não agradeceu em voz alta. Não chorou. Não fez discurso.

Só comeu. Até a última colherada de feijão. Até chupar o osso do frango. Até guardar a casca da laranja no bolso.

Quando terminou, lavou a marmita na torneira da praça. Devolveu limpa, do lado do lixo da padaria. Pra quem deixou, saber que foi usada.

Dona Claudines da padaria perguntou: "Solange, tava bom?"

Ela balançou a cabeça. Só isso. Um sim com os olhos.

Seu Zé do táxi disse: "Quem deixou comida pra tu, Solange?"

Ela encolheu os ombros. Continuou sentada.

Ninguém sabe de onde Solange veio. Ninguém sabe por que está na rua. Ninguém sabe se tem família.

O que o povo sabe é que naquela manhã ela comeu sem fazer cena. Sem humilhar quem deu e sem se humilhar por receber.

É isso que faz ela ser misteriosa. 

Porque em Lagoa da Italianinha, pobre grita. Rico grita. Político grita. 

Solange não. Solange come calada.

E quando o prato esvazia, ela some de novo. Até a próxima madrugada. Até a próxima marmita. Até o próximo silêncio.

Na rua, Solange não pede nada.  

Mas ensina tudo sobre dignidade.

Warlla dorme na rodoviária


Warlla, a "mendiga chique", passou a noite dormindo no Terminal Rodoviário em Lagoa da Italianinha. 

A loira havia bebido excessivamente na noite anterior, e embora prefira dormir em becos, não aguentou permanecer em pé e sequer conseguiu sair da rodoviária, caindo no sono.

O vigia da rodoviária estava incomodado com a presença dela, mas como o local estava deserto, decidiu deixá-la por lá. 

Mas por volta das 3h30 da manhã, Warlla foi acordada pelo vigia, pois nessa hora ja estavam saindo os primeiros ônibus do dia. Warlla disse:

- Não pode esperar mais não? Inventa de me acordar agora?

- Eu te deixei aqui até agora, mas tu tem que ir embora!

Resmungando muito, Warlla saiu dali e foi dormir do lado de fora, no pátio da rodoviária. 

Samuel brinca no rio


O maluquinho Samuel, conhecido pelo seu jeito despojado, desafiou sua família e foi mergulhar no rio que passa pela cidade de Lagoa da Italianinha. 

Sua mãe Valéria, que vive em Londres, por ser aeromoça, não se importa muito com as maluquices do filho. Ele também sonha em conhecer a Inglaterra um dia.

Alguns que viram Samuel no rio zombavam dele, e Samuel gritava:

- Estão rindo do que? Vão procurar lavagem de roupa!

A notícia chegou a Alice, a melhor amiga de Samuel. Mateus, que também gosta de Alice, disse a ela:

- Não sei o que tu vê nesse maloqueiro. Ele não bate bem do juízo!

- Sei lá, é isso que eu mais gosto nele... 

Samuel só saiu do rio duas horas depois.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O dia que Giuliana chegou no Recife


 

O navio encostou no porto do Recife numa manhã quente de setembro de 1939. O mundo lá fora pegava fogo com a guerra, mas aqui o sol batia forte no cais e o cheiro era de sal, café e gente com pressa.

No meio dos passageiros de terno e chapéu, uma mulher chamou atenção.

Giuliana, 30 anos. Vinda de Nápoles. 

Vestido simples de chita, cabelo preso num coque, mala de papelão na mão. E os pés. Os pés descalços no chão quente do cais.

O fiscal da imigração estranhou.

"A senhora perdeu o sapato?"

Giuliana sorriu, com aquele sotaque cantado do sul da Itália.

"Não perdi, moço. Eu não uso. Pé no chão é pra lembrar de onde eu venho."

Giuliana não era senhora. Era camponesa. Filha de quem plantava tomate e azeitona nas colinas perto de Nápoles.

Cresceu descalça na terra. Subia morro, carregava água, colhia no sol. Quando a guerra começou na Europa em 1939, o medo chegou primeiro que as bombas. O pai foi chamado. A casa ficou sem homem. O medo de fome ficou maior que o medo do mar.

Pegou o pouco que tinha, um endereço de um primo que já morava no Brasil e embarcou. Sozinha. Valente.

"Na Itália o chão era pedra e frio", ela contava depois. "Aqui o chão é quente. Então eu ando. Pra agradecer."

Chegar era difícil. Mulher, sozinha, sem dinheiro, sem sapato e falando italiano misturado com um português que aprendia no navio.

Mas Giuliana tinha duas coisas: coragem e mão pra trabalho.

Foi morar num cortiço na Boa Vista com outras famílias de imigrantes. No primeiro dia já arrumou serviço lavando roupa. No segundo, já estava na feira da Madalena vendendo macarrão que ela mesma fazia. Pouco depois arrumou emprego em uma casa de família. 

O povo olhava: "Aquela italiana anda descalça!".

As patroas diziam: "Menina, calça um sapato".

Ela respondia: "Sapato é pra quem esquece a terra. Eu não esqueço."

E andava. Descalça na Ladeira da Misericórdia, descalça no Mercado de São José, descalça na areia de Boa Viagem no domingo.

Em 1940, um homem tentou tomar a banca dela na feira. Giuliana não gritou. Pegou a vassoura e botou ele pra correr. 

"Na minha terra a gente espanta lobo e soldado. Tu acha que eu vou ter medo de valentão de feira?"

Virou conhecida. "A italiana descalça". 

Cozinhava pra 10 famílias. Ensinava as vizinhas a fazer molho de tomate. Costurava, remendava, partejava. Nunca cobrou de quem não tinha.

Dizia que tinha fugido da guerra pra não ver gente morrer de fome. Então aqui ela ia fazer o contrário: dar comida.

Em 1944, foi morar no agreste de Pernambuco,  no sítio Manicoba, atual Lagoa da Italianinha. 

Danuzia e Suely se enfrentam na rodoviária



A lanchonete da rodoviária de Lagoa da Italianinha às 14h continua sendo campo minado. Café fraco, cadeira de plástico e gente esperando ônibus com mala no colo.

Foi lá que Danuzia trombou com Suely.

Danuzia. A vilã. Madame de salto agulha, bolsa de marca, cabelo de salão e óculos escuros dentro do terminal. Filha do deputado estadual Moab. Não trabalha. "Vive de administrar os bens da família", segundo ela. Na prática, vive de cartão black e de apontar defeito nos outros.

Suely. A juíza. Careca por opção. Cabeça raspada, brilhando. Descalça. Pé no chão frio da rodoviária, saia longa e blusa social, esbanjando elegância mesmo na simplicidade. Sem batom, sem joia, sem pose. Acabava de sair de uma audiência itinerante e ia pegar o ônibus de volta pro fórum.

O encontro foi inevitável. Só tinha 2 mesas livres.

Danuzia chegou primeiro. Jogou a bolsa Gucci na cadeira, pediu água com gás importada e salada sem tempero. 

Quando viu Suely entrando descalça, torceu o nariz até a alma.

Suely sentou na mesa do lado. Pediu café e pão com manteiga. Colocou os pés descalços debaixo da mesa.

Danuzia não aguentou 2 minutos.

"Com licença", disse, com aquele veneno doce de quem nunca pegou no batente. "Aqui é lugar público, né? Mas tem um mínimo de higiene. Andar descalço em rodoviária... onde passa rato, barata... gente que não tem condição..."

Suely nem levantou os olhos do café. Soprou.

"O chão tá limpo. Meus pés também. E condição eu tenho de sobra pra escolher como ando."

Danuzia riu alto, olhando pros outros da lanchonete.

"É opção, né? Essa moda de careca... parece que saiu do SUS. Se tá doente, devia era tá em casa. Meu pai é deputado, sabe? Ele arruma hospital pra quem precisa."

Aí o silêncio caiu.

Suely levantou a cabeça. Olhos calmos.

"Careca é por opção, senhora. Raspo porque não devo satisfação de cabelo pra filha de deputado nem pra ninguém. E descalça é porque cansa carregar salto 12 horas julgando processo, Inclusive processo de gente que acha que lei é pra quem não tem sobrenome."

Danuzia arregalou os olhos. "Julgando? A senhora é...?"

"Sou a juíza Suely. Da comarca. E a senhora é a dona Danuzia, né? A filha do deputado Moab. Aquela que aparece na coluna social mas nunca apareceu numa carteira de trabalho."

O copo de água com gás da Danuzia suou na mão.

Danuzia tentou se recompor. Ajeitou o óculos de 2 mil reais.

"Ah, juíza... pensei que fosse... sei lá. Uma dessas mulher que vive de bolsa. Sem padrão."

Suely limpou a boca no guardanapo.

"Padrão? O seu padrão é salto, bolsa paga pelo pai e humilhar quem trabalha? O meu padrão é a lei. E a lei diz que discriminar por aparência e condição social dá problema, dona Danuzia. Até pra filha de deputado."

A atendente da lanchonete, Deinha, parou de limpar o balcão. O povo todo escutava.

Danuzia ficou vermelha, do salto à raiz. Pegou o celular, fingiu mandar mensagem pro pai e saiu batendo o salto.

Antes de ir, jogou: "Vou falar com meu pai sobre essa rodoviária. Tá abandonada."

Suely ficou. Terminou o café, e foi embora a pé. Descalça sempre.

O povo comentou por semanas.

"Viu a filha do Moab levar esporro da juíza careca?"

"A Suely não precisou citar lei. Só citou a verdade."

Danuzia postou story no Instagram reclamando da "falta de educação no serviço público". Apagou 2 horas depois.

Suely voltou a andar descalça no fórum. Disse que "pé no chão lembra que justiça não tem sobrenome".

Em Lagoa da Italianinha tem dois tipos de poder. 

O da Danuzia: que herdou e usa pra humilhar. 

E o da Suely: que conquistou e usa pra igualar.

E na lanchonete da rodoviária, até hoje, quando alguém chega de pé descalço, a atendente Deinha serve primeiro e fala baixo: "Cuidado, a juíza pode estar por perto".



Malu e Wellia se estranham na praça

A praça 27 de Dezembro em Lagoa da Italianinha ferveu no fim da tarde de sábado. E não foi por causa da prefeita Giovanna, nem da ex-prefeita Myllena.

Foi por causa das gêmeas.

Malu estava lá. Cabelo até a cintura, blusa e saia longa, colar de sementes e pé na água do chafariz. Hippie assumida, ela defende que "a água da praça cura a alma". Proibia? Proibia. Mas Malu entrava igual. Dizia que era ato de resistência.

Ela cantava baixinho, de olho fechado, quando ouviu passos apressados no calçamento.

Abriu os olhos e gelou.

Era Wellia. A irmã gêmea. A "malvada" da família. 

Mesmo rosto, mesmo cabelo, mesmo corpo. Só que o espelho tinha virado do avesso.

Wellia chegou com a calça jeans suja. E não era barro. Era fezes. Visível. Do joelho pra baixo.

O povo na praça parou. O vendedor de picolé parou. Até o cachorro da praça parou.

Malu saiu da água na hora, água escorrendo no vestido. 

"Wellia?! Que loucura é essa?! Você se sujou de novo?"

Wellia cruzou os braços, fedendo e sem vergonha nenhuma.

"E você aí, Malu. Tomando banho de praça igual mendiga. Hipócrita. Fala de paz e amor mas vive suja de água suja."

"Essa água é sagrada!", gritou Malu, apontando pro chafariz. "Ela limpa! Diferente de você que vive suja por dentro e por fora!"

"Eu tô suja porque o mundo tá sujo!", rebateu Wellia, chutando a própria calça. "Prefiro ser real do que ficar fingindo que é florzinha. Pelo menos eu não passo o dia com animais e falando com árvore!"

Malu levantou a mão pro céu.

"O universo me trouxe até aqui pra te mostrar o reflexo da sua escuridão, Wellia! Você é meu karma!"

"E você é meu castigo!", cuspiu Wellia. "Duas loucas. Só que a sua loucura usa incenso e a minha usa a verdade nua e crua!"


Mãe e filha, estilos diferentes



Em Lagoa da Italianinha, no Agreste de Pernambuco, a política tem sobrenome e tem pé. Literalmente. 

De um lado está Giovanna Victorya, a prefeita atual. Do outro, Myllena, a ex-prefeita e mãe, que agora quer voltar à ativa como candidata a deputada estadual. O que une as duas é o poder. O que separa é quase tudo.

A diferença começa pelos pés. 

Giovanna assumiu a prefeitura e trocou o chão de terra batida pelo salto. Sapatos fechados, sociais, batendo no calçamento da cidade. É a marca dela: gestão "arrumada", postura formal, discurso de modernização.

Myllena fez o caminho inverso durante 5 anos. Governou descalça. Andava pelas ruas, entrava nas casas, atendia no gabinete de pé no chão. Dizia que "prefeito tem que sentir o chão da cidade pra saber onde aperta". E sempre quis a filha do mesmo jeito. 

Hoje o sapato virou símbolo. Pra Giovanna é organização. Pra Myllena é distanciamento. "Minha mãe acha que eu esqueci de onde a gente veio", desabafa a prefeita. "Minha filha acha que pra cuidar do povo precisa sujar o pé", rebate a ex-prefeita.

Se o sapato divide, a água separa de vez.

O ponto mais quente entre as duas hoje é o chafariz da praça central. Ponto turístico, ponto de encontro e, no verão, piscina pública. 

Giovanna quer proibir o banho. O argumento é de gestão: conservação do patrimônio, gasto com água, questão de saúde e segurança. "A praça é cartão postal, não pode virar açude", defende a prefeita.

Myllena é contra a proibição. Pra ex-prefeita, o chafariz é do povo. "Eu tomei banho ali. Meu pai tomou. O povo tem direito ao lazer. Quem tem que se adaptar é o poder público", diz.

Na prática, virou um cabo de guerra. Giovanna manda fiscal. Myllena vai na praça no domingo e deixa as crianças entrarem. O povo de Lagoa da Italianinha já escolheu lado: metade aplaude a ordem, metade sente falta da liberdade.

Apesar das brigas, ninguém nega: as duas mudaram a cidade.

Myllena ficou marcada pelo governo de proximidade. Descalça, sem assessor, resolvendo problema na porta de casa. Foi ela quem asfaltou as primeiras ruas e criou as festas de padroeira que lotam a cidade até hoje.

Giovanna herdou o nome e tentou outro caminho. Sapato no pé, projeto no papel, busca por verba e parceria. Quer deixar a cidade "apresentável" para fora. 

Agora os papéis inverteram. A filha está no executivo. A mãe quer ir para a Alepe. Myllena quer ser deputada estadual e diz que vai "levar a voz do Agreste que anda descalço". Giovanna declarou apoio, mas mantém distância. Quer apenas focar em trabalhar. 

Na cidade de 100 mil habitantes, todo mundo é parente, vizinho ou compadre de alguém. E todo mundo tem opinião.

Tem quem diga que Giovanna "envergonha a origem". Tem quem diga que Myllena "vive no passado". Tem quem só queira tomar banho no chafariz em paz.

O fato é que Lagoa da Italianinha virou caso de estudo: como uma mesma família pode representar duas formas tão diferentes de fazer política. Uma descalça e popular. Outra de sapato e técnica.

Em 2026, as duas vão estar na disputa. Uma tentando manter o legado da prefeitura. A outra tentando levar o sobrenome para o Recife.

E enquanto isso, o chafariz continua lá. Com água, com gente, e com duas mulheres decidindo o que fazer com ele.

*Pergunta que fica na praça*: Lagoa da Italianinha prefere a prefeita de sapato ou a candidata descalça?

O Aniversário de Fabíola


 Numa segunda-feira, em Lagoa da Italianinha,  a famosa vintage Fabíola fez aniversário. Completou 45 anos, mas ao invés de dizer que nasceu em 1981, diz que nasceu em 1911... 

Isso porque ela se comporta inteiramente como se estivesse na década de 50. Na forma de se vestir e no seu próprio estilo de vida - não usa tecnologia, usa máquina de escrever pra escrever seus poemas e crônicas e até dirige um fusca.

Paradoxalmente, ela é apaixonada por seu vizinho de apartamento, Tiago, que assim como ela, mora no Edifício Nápoles.  Mas a ironia é que Tiago é viciado em tecnologia e futurista ao extremo. Na cidade, muitos se questionam se esse casal daria certo.

No dia de seu aniversário, Fabíola nem foi vender seus livros antigos - que ela chama de "lançamentos novos que lançaram ". Foi apenas fazer pose na praça...

Samuel e a mulher cega


Certa manhã, em Lagoa da Italianinha, Samuel vinha da lama, onde gosta de se divertir, quando viu a cega Gilmara andando pelas ruas sozinha. 

Ele disse a ela:

- Quer ajuda, senhora?

- Sim. Eu agradeço, garoto.

- Onde a senhora mora?

- Aqui perto, na Vila Lusitânia. 

- Certo.

Alguns olhavam Samuel com desconfiança, pois pensavam que ele é menino de rua. Ao chegar na vila, Samuel deixou Gilmara em casa. 

Marcella, que mora na vila, viu os vizinhos assustados e disse:

- Esse menino não é de rua, ele é até de família rica, a tia dele é a vereadora Vanessa e a mãe dele Valéria mora em Londres, ela é aeromoça. É que ele é meio doido, gosta de se vestir e andar assim feito maloqueiro... mas ele é super do bem!

O jantar do avarento


Apesar de ser um dos empresários mais ricos de Lagoa da Italianinha, o pão-duro Dr. Carneiro não oferece jantar digno em casa.

Certo dia, ele chegou apenas com um queijo para o jantar, o qual ele dividiria entre ele e os filhos Monalisa, Josenilda, Gilvania, Branquinha, Michele e o vereador Marco Aurélio. 

Branquinha disse:

- Oxe, só isso? Um queijo pra todos nós?

- Não seja mal agradecida. Queijo é forte e um pedaço desses já mata a fome.

Marco Aurélio disse:

- Por isso que prefiro comer na casa do tio Moab, se depender do senhor, a gente morre de fome! 

- Pois va pra la, seu ingrato! 

Mesmo reclamando,  cada um pegou um pedaço de queijo. 

A estranha rotina de Danuzia


Em Lagoa da Italianinha, enquanto muitos trabalham, Danuzia, a perigosa filha do deputado estadual Moab, prefere passar o dia na piscina de sua casa. 

Enquanto ela nada, ela não gosta de ser interrompida. Danuzia fica irritada quando tem que interromper seu lazer para alguma emergência. 

Ela só sai as ruas de vez em quando. Ela é advogada formada e so atua em casos de amigos ou amigas mais próximos, envolvidos no crime em Lagoa da Italianinha. 

Mateus tenta namorar com Alice


Numa certa tarde, Mateus, o irmão mais novo da prefeita Giovanna Victorya e filho da ex-prefeita Myllena, se encontrou com Alice, a filha de Wellia, numa rua central de Lagoa da Italianinha. 

Mateus não esconde que é apaixonado por Alice. Mas ela não aceita a ideia de namorar. Mateus ainda disputa a atenção dela com Samuel, que também ama Alice. Mas nem com Samuel ela deseja namorar. 

Alice, na realidade, não quer namorar com ninguém. Ela quer focar nos estudos.

Warlla é expulsa da lanchonete de Marlene


 Num certo dia, Warlla, a mendiga chique, foi na lanchonete de Marlene, na rodoviária, e começou a incomodar por ali pedindo esmolas. Marlene se aproximou de Warlla e disse:

- Pare de perturbar, desapareça daqui.

- Oxe, isso aqui é uma rodoviária, é público.

- Mas a minha lanchonete não.  E ponha-se daqui pra fora, tu ta com catinga de merda!

Warlla desafiou:

- Agora que eu fico mesmo, só pelo seu desaforo!

Marlene empurrou Warlla pra fora da lanchonete,  e as duas quase trocaram tapas. Mas Marlene conseguiu espantar a presença indesejável. 

Danuzia tenta humilhar Sayonara

  Praça 27 de Dezembro, Lagoa da Italianinha. 9h da manhã.  Sol batendo no banco da praça e cheiro de café vindo da padaria. No banco, Sayon...