quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

As reflexões de Rita de Cássia

 

Depois de passar algumas horas dormindo na rodoviária de Lagoa da Italianinha, a mendiga Rita de Cássia, a quarentona que tem mente de criança, foi para uma praça, onde ficou sentada, com sua boneca, contemplando o céu, por volta das 3 horas da manhã. Rita, de repente, começou a falar com sua boneca:

- Está vendo, Dalila? Esse céu tão grande... tem um Pai todo poderoso que nos olha... e os seres humanos não gostam Dele... pois fazem tudo que Ele não quer... 

Rita parou de falar, e depois voltou a falar:

- Guerras, matanças, fome, pessoas passam fome, como eu... corrupção, roubalheira, racismo, xenofobia... tudo isso desagrada ao Pai... 

Rita fez mais uma pausa, e depois, disse:

- Acho que o pessoal fala tanto em fim do mundo, e ele tá perto... 

Rita se deitou, e disse para a boneca:

- Diz assim, em voz alta: "eu te amo, Jesus!" diga. 

De longe, a hippie Malu tinha acordado porque tinha ido beber um copo de água, e viu de longe Rita. Malu pensou:

- Tadinha... conversando com a boneca dela...

A Revolta de Priscila

 

Vivendo nas ruas há bastante tempo, a mendiga Priscila passou na barraca de Josinete por volta das 2 da manhã, no centro de Lagoa da Italianinha, onde pediu um café. Priscila deu um trocado, e Josinete disse:

- Moça, tu tem família? Tu está uma hora dessa na rua...

- Eu moro nas ruas, eu não gosto da minha família. 

- Credo, mas como tu fala assim?

Priscila disse:

- Eu detesto todos eles, eu apanhava que só, eu não quis nunca mais morar debaixo de um teto. 

Josinete disse:

- Acho que tu poderia mudar de vida, tu é tão jovem...

- Não tenho o menor interesse em mudar. Eu vejo as pessoas erradas tudo se dando bem, eu vou ser errada também, eu bato carteira com força, eu pego o que é dos outros, sim. E eu só poupo a senhora porque a senhora nos trata bem. 

- Qual é seu nome, hein?

- Pra que a senhora quer saber meu nome?

- Por favor, estou perguntando na boa. 

- Priscila. Por que?

- Priscila, essa vida que tu leva é perigosa, não pode continuar assim. 

- Desculpe, mas eu não tenho nada a perder. 

Priscila terminou de tomar café, e saiu dali, sem destino. 

Warlla se diverte no chafariz de noite

Em Lagoa da Italianinha, a noite estava fria, mas isso não impediu que Warlla, a "mendiga chique", entrasse no chafariz da praça para se banhar. Ela dizia na hora que entrou:

- Tô toda cagada, mijada, vou me lavar agora aqui!!!!

As pessoas olhavam com ironia e zombaria, pois alguns se lembravam dela quando ela fazia parte da alta sociedade. Warlla mergulhou algumas vezes na fonte e ao ver as pessoas que a olhavam, ela dizia:

- Estão olhando o que? Vão caçar sapo, bando de desocupados! 

Uma das mulheres falou:

- Olha quem fala, a mulher mais fofoqueira da cidade, que nem a família gosta dela, por isso, vive nas ruas. 

Warlla jogou água na mulher e nas pessoas próximas dela. Ela continuou a se divertir na fonte, enquanto algumas pessoas tiravam a foto. Ela fazia poses e parecia nem se importar o quanto estava sendo observada. 

Depois, Warlla saiu do chafariz, e caminhava encharcada pelas ruas da cidade. Só ia se deitar no chão de alguma calçada quando já estivesse seca.  
 

Amigas querem montar um novo grupo político em Lagoa da Italianinha


Preocupadas com a notícia de que a prefeita Myllena estaria pra fechar acordo com a deputada federal Sandra Valéria em Lagoa da Italianinha, cinco amigas decidiram se unir para tentar montar um novo grupo político. A juíza Suely, a vereadora Vanessa, a ex-vice-prefeita Marcella Virgínia, a líder política Mimi e a empresária Flor se reuniram na casa da Vanessa, onde conversavam sobre o quadro político da cidade. 

Mimi, a careca de um pé calçado e outro descalço, recebeu incentivo das outras quatro para aceitar o convite para ser candidata a deputada estadual. Flor ainda disse que tem amizade de infância com um deputado federal que daria apoio e suporte para uma possível candidatura dela. 

Marcella Virgínia pretende não disputar mais cargos eletivos, após ter sido vice no primeiro mandato de Myllena, quando ela mesma optou por renunciar, abrindo espaço para a indicação da filha de Myllena, Giovanna Victórya, como vice na chapa de sua própria mãe. Perguntada se estava arrependida de sua decisão, pois agora estaria para assumir a Prefeitura, já que Myllena deverá ser candidata a deputada estadual, Marcella Virgínia negou arrependimento e que se sente bem fora da política. Mesmo assim, mantém dando apoio nos bastidores. 

A vereadora Vanessa, que caso se confirme a aliança de Myllena com Sandra Valéria, deverá ser a única de oposição entre 17 vereadores, defende abertamente a candidatura de Mimi para deputada estadual. A juíza Suely está buscando mais apoios para esse possível novo grupo político. 

Preocupação com a mendiga

Quando anoiteceu em Lagoa da Italianinha, a mendiga Rita de Cássia estava dormindo no pátio da rodoviária, abraçada com sua boneca Dalila, e acabou sendo vista por Malu, Valdenes e Marlene, a dona da lanchonete da rodoviária. Marlene disse:

- Será que se acordasse ela agora, seria uma boa ideia?

- Não. Rita costuma ficar nervosa quando é acordada. - disse Malu. - é capaz até dela lascar essa boneca dela em nós três. 

Marlene disse:

- Valdenes, eu e você já vivemos nas ruas, feito ela, e já saímos, e porque ela quer ficar desse jeito?

- Ela diz que se sente mais livre assim, sem compromisso na vida... 

Malu disse:

- Tadinha, acho que ela teve muitas decepções na vida, uma eterna criança. Eu a protejo muito, ela é um amor de pessoa, sabe? 

- Mas deveria tirar ela da rua e botar numa clínica - disse Marlene. 

- Não, não devemos forçá-la a nada. Rita, se for para uma clínica, pode fugir. Não podemos forçá-la. - disse Malu. 

Marlene disse:

- Olha, eu até hoje me pergunto porque raios ela usa essa chupeta, e tem uma boneca, ela já tem mais de 40 anos, eu a conheci nas ruas já adulta. 

- Ela tem mente de criança, age como criança. - disse Valdenes. - ela sempre foi assim. 

Malu disse:

- Verdade, mas vamos deixar ela aí sossegada, dormindo. Aí onde ela está não para carro nem ônibus, deixemos ela aí. Eu sempre oro por ela para ela ser protegida nessa vida difícil que ela leva, sem ter casa nem família. 

- Verdade, Malu - disse Valdenes. 

Malu, Valdenes e Marlene saíram dali, e cada um foi para sua casa, enquanto Rita de Cássia dormia. 


 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Fátima, a mulher de duas culturas

Numa certa tarde, Fátima, a neta de Mary Dee, olhava o mar contemplando-o através de Porto, no norte de Portugal, onde vive. Fátima, que já tem 70 anos, cuida de seu pai, Manuel, que já tem 96 anos. Fátima, apesar de viver em Portugal hoje é brasileira de nascimento, tendo nascido em Recife e sido registrada em Lagoa da Italianinha, no interior de Pernambuco. Mary Dee, sua avó, fugiu do salazarismo em Portugal indo para o Brasil e levando consigo Manuel ainda menino. Fátima somente pôde ir para Portugal após a morte de sua avó. 

Fátima, atualmente viúva, assim como seu pai, que também é viúvo, embora não pense em nenhum romance, mas anda balançada em aceitar as investidas amorosas de seu vizinho Adolfo, que também é viúvo. 

Apesar da idade avançada, Fátima esbanja elegância, e é tida como uma mulher muito bonita. Há inclusive em Porto até mesmo jovens querendo um namoro com ela. Mas Fátima está mesmo balançada por Adolfo, que é da sua faixa etária. 

Fátima puxou a avó Mary Dee, que também foi tida como uma das mulheres mais bonitas de Portugal na década de 30. Mary fez sucesso como cantora, e Fátima, embora nunca tenha atuado profissionalmente como cantora, também gosta de cantar, sendo fado e forró seus ritmos preferidos: fado por ser cultura de Portugal, e forró por ser a principal cultura do lugar onde nasceu e cresceu, em Pernambuco. Fátima diz ser fã principalmente de Amália Rodrigues e Luiz Gonzaga. 

Fátima contemplava o mar, lembrando de sua avó, que chegou a conhecer ainda jovem. Mas não demorou muito para anoitecer. Fátima logo admirou o pôr-do-sol e depois pôde voltar para seu lar, onde seu pai Manuel a esperava, feliz. 



 

Jacilene rejeita um pretendente


 Numa certa noite do final do ano de 1782, numa festa da alta sociedade de Vila Rica, a francesa Jacilene, que havia chegado lá durante aquele ano, teve sua primeira aparição em uma festa, onde foi levada por Regina, sua amiga. 

Em um determinado momento da festa, um homem aproximou-se da francesa e lhe disse:

- Perdoe-me, você veio da França?

- Sim. 

- E veio habitar entre nós?

- Pois é. 

- Qual seu nome?

- Jacilene. 

Ele beijou a mão dela, e disse:

- Encantado. 

Regina observava a conversa entre os dois. De início, parecia que Jacilene estava gostando da conversa. Mas quando o homem disse:

- Olha, eu posso colocar mil escravos pra te servir, sabe como é. Você é uma dama, veio de um país da Europa, tem que ser tratada como uma rainha. 

- Não quero escravos me servindo. 

- Mas por que? 

- Porque eles são gente como eu e você. 

Ele riu e disse:

- Eles são mercadoria, moça. Coloca isso na sua cabeça. 

- Então, nossa conversa se encerra por aqui. Com licença. 

Jacilene se retirou, e o homem disse:

- Mas o que deu nela? Eu querendo oferecer tudo a ela, e ela me trata assim. 

Regina disse:

- Ela é iluminista, ela é contra a escravidão. 

- Ah, por isso ela reagiu assim. Uma pena, uma mulher tão bonita abraçando essas ideias malditas. 

Regina se retirou e foi á procura de Jacilene. Ela disse:

- Jacilene, eu conheço ele, a gente estudou junto e eu sabia que vocês não dariam certo, conhecendo suas ideias como eu conheço. Ele é senhor de escravos e é mais violento até mesmo do que a Sinhá Adriana, com quem tu mora. 

- Credo. 

- Pois é, tu ia sofrer nas mãos dele. 

- Ainda bem que eu percebi logo. 

Alvanir visita amiga depressiva


Numa certa noite no ano de 1865, numa casa grande em Fortaleza, a jovem abolicionista Alvanir - que viria a ser mãe de Mônica, avó de Antônio Neto e tataravó de Valdenes -, foi visitar sua amiga Sophia, que sofria de depressão profunda desde a morte do seu noivo amado Michael, que morreu em uma queda de cavalo em 1862, apenas três anos antes. 

Alvanir disse:

- Sophia, você tão jovem e tão bonita, eu fico triste tem te ver assim, por favor, reaja. 

- Não tenho mais vontade de viver, Alvanir. Desde que Michael morreu eu não quero mais viver. Principalmente depois do que eu descobri. 

- Descobriu o que?

- Foi minha mãe Tereza quem mandou envenenar o cavalo pra ele cair e morrer. 

Alvanir ficou assustada e disse:

- Sophia, isso é muito grave. 

- Mas eu estou sabendo de tudo. Minha própria mãe fez essa monstruosidade comigo. 

Naquela hora, estavam em casa Raul e Tereza, os pais de Sophia, e Mauro, o irmão mais velho dela, que por sinal, era apaixonado por Alvanir. Em dado momento, quando Alvanir ia embora, Tereza disse:

- Minha filha falou alguma coisa?

- Olha, essa conversa é pessoal...

- Ela por acaso disse que eu mandei matar o moço que ela gostava? 

- Disse. 

- Loucura dela. Eu nunca faria isso. Mas claro, Sophia, um estrupício desses, só pode falar besteira, mesmo. 

- Não diga assim, dona Tereza. Ela é sua filha. 

- Infelizmente. 

- Devido a esse seu comportamento, eu sou obrigada a acreditar que a senhora realmente tem algo a ver com a morte do Michael. 

- Se tu não fosse filha do barão Almir, tu ia ouvir uma resposta agora, sua insolente. E tu está proibida de pisar aqui. 

Raul e Mauro escutaram a conversa, e Raul disse:

- Nada disso,  Alvanir é a melhor amiga da nossa filha. Ela fica vindo pra cá. 

- É uma insolente. 

Mauro disse:

- Chega, mãe. Deixe Alvanir em paz.

Tereza ficou calada e Alvanir voltou para sua casa, arrasada pela forma como Sophia era tratada pela sua própria mãe. 

Encontro tenso no centro da cidade

 

Numa certa noite, Josiane e Valdenes haviam marcado um encontro em uma das principais ruas de Lagoa da Italianinha. Josiane aproveitou que seu pai Moab estava em Recife para poder ir falar com seu amado. 

Mas enquanto eles conversavam, apareceu a florista Aline Débora, que disse:

- Olha só quem eu encontro? A princesinha de Maceió querendo ficar com meu Valdenes. 

- Mas que conversa é essa? - disse Valdenes - eu não estou namorando com ninguém, caspita. 

- Ah, não? Realmente, mas você vai namorar comigo, não com essa daí. 

Josiane disse:

- Mais respeito comigo, viu? 

- Oxe, tu pensa que é melhor que eu porque é filha de deputado, é? Grande merda! 

Valdenes disse:

- Vamos parar com isso, vocês duas? Ah propósito, Aline, eu só estava conversando com a Josiane. 

- Conversando... ah tá. 

Josiane disse:

- Valdenes, eu vou indo, depois, nos falamos mais. 

- Certo. 

Josiane saiu e foi para o carro, onde o motorista a esperava. Valdenes disse:

- Aline Débora, satisfeita? 

- Ué, o que tu vê nessa doida depressiva e ansiosa? Eu não dependo de remédios feito ela nem tenho problemas mentais, e se tu namorar comigo, ninguém poderá impedir. 

Valdenes ficou sem responder e foi embora. Aline Débora dizia pra si mesma:

- Eu ainda consigo separar esses dois e ficar com ele...

Passando pela Catedral

 

Numa certa tarde, Jolanda e seu colega de classe Vitório voltavam juntos do colégio, quando quiseram parar para conversar em frente à catedral de Vitalba. Em dado momento, Jolanda disse:

- Olha aí essa igreja, meu sonho é casar numa igreja assim... 

- Sério????

- Sim, eu com um vestido de noiva bonito e com um noivo bonito, elegante e muito inteligente. Gente da Toscana, gente vindo de Siena, de Florença, ver meu casamento...

- Ora, e eu posso saber quem seria esse felizardo que se casaria com você?

Jolanda disse:

- Um certo colega meu de classe, bonito e inteligente, sabe tudo sobre Geografia e História da Itália, reis, presidentes e primeiros-ministros, que é autêntico, anda descalço direto pra todo lugar e é muito sabido e ainda é um artista, faz histórias incríveis. 

Vitório ficou sem jeito, pois ela falava dele mesmo. Ele disse:

- Puxa, eu fico até sem jeito tu falar assim...

- Não fique. Não é segredo o tamanho do carinho que eu tenho por você. 

Jolanda pegou seus cadernos e disse:

- Vou indo, a gente se vê amanhã. Minha casa fica do outro lado...

- Espere, eu vou com você. Posso?

- Claro que pode. 

Jolanda e Vitório foram até a casa dela. Jolanda perguntou:

- Eu espero que você escreva uma história e me coloque como seu par romântico. 

- Eu e você?

- Porque não? Uma linda história de romance, não acha? Faz, eu vou ficar tão feliz. 

- Tudo bem, Jolanda, farei. 

 Depois que deixou em sua casa, Vitório voltou para sua casa. Maria, sua mãe adotiva, deu uma bronca:

- Onde tu estava até agora?

- Perdão, eu estava com Jolanda, fui na casa dela com ela. 

Maria disse:

- Dessa vez, passa. Porque eu gosto muito dela. 

Embora Vitório ainda gostasse de Alessandra, sua outra colega, ele estava cansado de ser rejeitado por ela e já andava pensando em dar uma chance para Jolanda, que sempre lhe demonstrou amor e carinho. E naquela tarde, já começou a fazer alguns desenhos e escritos com ele e Jolanda como personagens.  

Kátia pensa em abandonar a política


Há alguns dias, Kátia, que atualmente é secretária de Ação Social em Lagoa da Italianinha, anda pensando em deixar a vida pública. Certo dia, ela se encontrou com sua amiga Ana Karina, a historiadora, e falou de sua intenção. Ana Karina disse:

- Mas por que????

- Porque estou cansada. Olha, as notícias aí dão conta que a prefeita Myllena tá se unindo com a deputada federal Sandra Valéria, depois de uma falar tão mal da outra por treze anos. Eu odeio isso, francamente. Você imagina, que eu perdi o mandato de vereadora, uma reeleição certa, porque Myllena faltou com a palavra, eu ia ser a vice dela, ela me deu essa palavra, aí colocou a filha pra ser vice, e eu saí candidata a vice em outra chapa, com Mimi, e nós fomos derrotadas. E eu estava tão endividada que eu acabei aceitando o convite da prefeita pra ser secretária. 

- Nossa, eu entendo. Era um mandato certo pra você. 

- Pois é, eu sinceramente me arrependo. Em 2016, eu fiquei na suplência, mas Adriana renunciou e eu entrei em 2018, e em 2020, eu fui eleita diretamente vereadora, eu poderia estar crescendo na política. 

- Pois é...

- E o que me deixa chateada é que Mimi tá sem falar comigo, ela não aceitou que fosse secretária da prefeita. Mimi me deu a mão e acreditou em mim para ser a vice dela, mas infelizmente, nós fomos derrotadas. É muita nojeira. 

- Mas o que tu tá pretendendo fazer?

- Pedir exoneração. Eu não gostei dela ter também tirado meu primo Valdenes do Turismo, Eraldo da Cultura e você da Educação, achei muita sacanagem. 

- Mas não se importe com isso, Kátia. 

- Me importo, sim. Olha, eu já tenho informações de lá de dentro que o que a prefeita queria era arruinar minha carreira política, ela nunca me perdoou por eu ter enfrentado ela em 2024. Esse lance de me chamar pra secretaria foi uma forma de me queimar perante a opinião pública, pois o povo diz: "falou mal da prefeita e agora trabalha com ela". 

Ana Karina disse:

- Kátia, não tome nenhuma medida precipitada agora. Deixe rolar pra ver o que vai acontecer. 

- Sei não... Ana Karina, tu imagina que daqui a uns dias Giovanna, a filha da prefeita, assume a Prefeitura, porque Myllena quer ser candidata a deputada estadual. Tem gente pressionando Giovanna pela minha cabeça. Eu tenho essas informações de fontes seguras. 

- É bronca, mesmo, política é um mundo cão. Eu fui candidata a prefeita e sei como é isso. Mas se acalme, não tome decisão precipitadamente. Espere, aguarde, tenha paciência...

O dia que Mônica recebeu uma italiana


Uma das maiores surpresas no sítio Maniçoba em 1944, foi a Mônica ter chamado para ajudá-la uma italiana recém-chegada, a Giuliana, que saíra de Nápoles em 1939 e esteve no Recife até 1944. Foi uma surpresa ali porque Mônica nunca gostou muito de estrangeiros e tinha forte antipatia pelas famílias italianas que ali viviam, pela família alemã e pela cantora portuguesa Mary Dee. 

Mas na sua casa naquele sítio do interior de Pernambuco, a realidade era outra: ela estava sozinha e precisava de uma ajuda. Seu filho Antônio Neto havia sido convocado para servir na Força Expedicionária Brasileira no norte da Itália. 

Mônica olhava para Giuliana, para o seu jeito simples, e em dado momento, ela perguntou:

- Tu anda assim descalça também?

- Sempre. 

- Lembrou meu filho, ele também só vive assim descalço...

- E onde ele está?

- Foi para a guerra, está lá no teu país. 

- Nossa...tomara que ele volte vivo e em paz. 

Mônica pediu para Giuliana fazer-lhe um almoço. Mônica gostou tanto que contratou Giuliana, que se mudou para lá com mala e cuia. Giuliana ficou lá até a volta de Antônio Neto, alguns meses depois, já em meados de 1945. Depois, Giuliana ficou por lá, indo trabalhar com os seus conterrâneos que ali viviam. 

Rita de Cássia e Warlla se estranham na rodoviária


Numa certa tarde, as mendigas Rita de Cássia e Warlla estavam na lanchonete de Marlene, na rodoviária de Lagoa da Italianinha. Rita, com sua inseparável boneca Dalila e sua mente de criança, estava frente a frente com Warlla, a "mendiga chique", que se vestia como se fosse madame mesmo morando nas ruas. 

Ao ver as duas num mesmo ambiente, Marlene ficou preocupada, pois sabia que as duas mendigas não se davam bem. Warlla, em tom provocativo, disse:

- Tu ainda com essa chupeta na boca e essa boneca encardida? 

- Isso não é da sua conta - disse Rita.

- Tu é uma doida, mesmo. Minha chupeta é essa - disse mostrando o cigarro que estava fumando. 

Rita disse:

- Sim, a chupeta do diabo, como dizem por aí. 

Warlla disse:

- Eu às vezes acho que tu se faz de doida, tu é muito insolente. 

- Olha quem fala. Uma dondoca que ninguém gosta! - disse Rita. 

- Claro, vocês, mendigos, me odeiam, porque eu sou mais linda e mais chique. 

- Oxe, como assim "vocês mendigos"? tu não é mendiga, não? Tu dorme nas ruas também, piniqueira! - disse Rita. 

Marlene disse:

- Querem parar vocês duas? Vocês estão em um lugar público. 

- Não se preocupe, eu não quero briga com essa dondoca - disse Rita. 

- Claro, sabe que eu ganho. Eu sou mais tudo que vocês de rua. 

- Deve ser a até a mais suja, tu tá mais suja e mais fedida que a Rita, Warlla - disse Marlene. 

- Não tem problema, eu posso ser a mais suja, a mais fedida, com prazer, desde que eu seja mais que todos os outros, não importa o que seja. - disse Warlla. 

Rita de Cássia disse:

- Tu é uma metida, isso sim. Tu é moradora de rua, feito eu, dorme em calçadas feito eu, come comida do lixo, pede esmolas, leva chuva sol, sereno, e tu se banha em chafariz ou no posto de gasolina feito eu. Tu se acha melhor que eu só porque tu já fosse rica algum dia enquanto que eu sempre fui pobre? Grande bosta! 

- Pare de me desafiar, senão eu tomo essa sua boneca encardida. 

- Venha! Venha que tu entra bem!

Marlene disse:

- Chega, saiam daqui, vocês duas! 

- Eu vou sair, dona Marlene, não quero me contaminar com a prepotência dessa dondoca suja. - disse Rita.

Enquanto Rita ia se afastando, Warlla disse:

- Vai embora, invejosa, que tu não é chique feito eu!

- Chega, vá embora! - disse Marlene. 

Warlla saiu dali, por outro lado. 

Bronca de irmão


 Numa certa manhã, o clima era de tensão na lanchonete da rodoviária. Isso porque Valdenes estava tendo uma conversa tensa com sua irmã Vitória. Ele perguntou:

- Me responda uma coisa, mas eu não quero mentiras. Eu fiquei sabendo que tu está saindo com um vereador de Vila Dourada, isso procede?

- Mas quem disse isso? 

- Não importa. Eu quero saber se é verdade. 

Vitória disse:

- Valdenes, eu e você moramos nas ruas muito tempo, agora eu estou numa casinha, com você e acho que tenho todo direito de crescer na vida, não acha? 

- Oxe, e é logo com esse vereador que é casado?????? 

- Ele não gosta da mulher dele, ela é uma songa monga, feia parece um camarão com asma, veja, eu sou muito mais bonita que ela! 

- Não importa. Eu não quero ver irmã minha virando amante de homem casado. Já não basta tu ser uma preguiçosa que não quer trabalhar e agora me inventa mais essa. 

- A vida é minha, irmão. 

- Oxe, a vida é sua, mas tu está na minha casa, tu mora comigo, e eu exijo que você tenha um comportamento digno de uma mulher. 

- Já acabou seu sermão, irmãozinho? Agora, com licença!

Valdenes disse:

- Vou só te avisar uma coisa. Se tu não terminar esse romance, eu te mando de volta pra rua! Vai voltar a dormir nas ruas. 

- Você seria capaz de fazer isso com sua própria irmã? 

- Oxe, eu já tenho um irmão que mora na rua, mesmo, ele não quis sair da rua. Um a mais, um a menos, que diferença faz, né? 

- Você não seria capaz de fazer isso comigo. 

- Se tu destruir uma família, servir de arma do demônio pra destruir uma família, eu faço isso, sim. Eu exijo que você pare de sair com esse vereador de Vila Dourada. 

- E se não quiser? 

- Vai voltar à mesma vida que tinha antes de 2022. 

- Ah, mas ele vai me dar muita grana. 

- Vai nessa. Esse vereador tem histórico já de ter muitas amantes e depois, deixou elas na sarjeta. 

Vitória saiu dali, nervosa. Valdenes, irritado, pagou o café e voltou para o escritório de Suely. 

Cássia brinca no rio diante de espectadores


 Numa certa manhã, Cássia saiu de casa sem avisar aos irmãos e foi até uma ponte longe do centro da cidade, onde pulou em um rio. Ela nadava no rio, e brincava bastante, sendo que de cima da ponte, algumas pessoas a observavam. Uma delas dizia:

- Veja que doida varrida, nadando no rio, assim. 

- Essa não tem juízo, todo mundo conhece ela em Lagoa da Italianinha. 

Uma outra gritava:

- Sai do rio!!!!!!

Cássia nem ligava. Ela mergulhava e nadava. Mais de duas horas depois, quando ela saiu do rio, ela viu essas pessoas e perguntou:

- Que foi? Nunca viram ninguém tomando banho de rio?

Eles riam dela, e Cássia saiu dali, sem se importar com a ironia deles. 

Andreza e o banho na rodoviária


Numa certa manhã, uma cena chamou atenção no pátio da rodoviária em Lagoa da Italianinha. A mendiga Andreza estava tomando banho, com a ajuda de Cida, uma mulher que mora dentro de um tonel. 

Andreza pediu ajuda para Cida:

- Me ajuda aí, nem sei onde Guilherme está, e quero tomar um banho, tô toda cagada, mijada, pelo menos, diminuir esse fedor que eu tenho. 

- Certo, tira aí a roupa, os sapatos...

- Oxe, e eu vou ficar nua em público, é? Nada disso, é com roupa e tudo, mesmo. 

- Então, tire os sapatos. 

- Nem isso eu tiro, Cida. 

- Oxe, que coisa... 

- Vai, arrume um balde com água e sabão, vamos. Jogue água em mim, sem medo, do jeito que estou mesmo, com roupa e sapatos. E arrume sabão também! 

Cida arrumou o balde e molhava Andreza, que se "lavava". Alguns olhavam de longe a cena e ficavam rindo principalmente de Andreza. 

Foram muitas as vezes que Cida precisou trazer baldes de água para molhar Andreza. Por fim, depois do último, Andreza disse:

- Agora, vou andar por aí, muito obrigada. 

- E vai rolar um trocado não? 

Andreza disse:

- Eu até ia te dar um trocado, mas me lembrei de uma coisa.

- Do que?

- Eu tenho 2 reais, mas está no bolso da minha calça... e eu estou toda molhada. 

- Que doida, porque tu não tirou antes?

- Me esqueci, só isso. 

- Me dê molhado, mesmo. 

Andreza pegou a nota e deu, molhada, para Cida, e foi embora. Cida pendurou a nota no seu tonel, e dizia:

- Essa daí não gira bem do juízo, oxe... eu sou doida, mas acho que ela ganha de mim. 

Uma elegância diferente


A juíza Suely, conhecida por seu visual excêntrico, sempre chama atenção das pessoas. Ela, que vai ao fórum ou ao seu escritório a pé, pois sua casa fica próxima dos dois locais, não consegue andar pela ruas sem chamar atenção, não só por sua simplicidade e sua recusa em usar carro para ir para um lugar tão perto, mas por seu visual, sem cabelos e de pés no chão. 

Suely decidiu ser careca desde 2017, e desde então, ela raspa a cabeça de dois em dois dias. E diz que não sente falta de cabelos. Já anda descalça há anos, assim como sua irmã, a prefeita Myllena, e também diz que se sente bem sem sapatos. 

Suely já foi alvo de processos administrativos, onde alguns juízes achavam que ela tem um comportamento "incompatível" com a magistratura. Mas Suely foi absolvida diversas vezes, pois o desembargador não viu nela nenhum tipo de comportamento que fosse digno de repúdio. Na verdade, esses juízes que a julgavam eram movidos pela inveja. 

Na igreja evangélica onde congrega, também é alvo de muitas desconfianças. Não só ela, como suas filhas Sara e Diná, também são carecas por opção, e ali Suely, que costuma louvar, também é vista com desconfiança. Suely é membro da Sociedade dos Pés Livres, que reúne os descalços da cidade e também deseja formar um grupo de mulheres carecas. 

Mas mesmo quem acha estranho o visual dela concorda que ela é elegante, e ela chama atenção por isso. Uma das pessoas que mais a admira já disse em público: 

- A doutora Suely não precisa de cabelos nem de sapatos para ser elegante. Ela já é por natureza. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A mendiga na barraca


Numa certa noite, no centro de Lagoa da Italianinha, a mendiga Juliana foi na barraca de Josinete e pediu um  café. Mas Juliana só tinha 40 centavos, e Josinete disse:

- Guarde seus trocados, querida, pega um café. 

- Obrigada, dona Josinete. 

Josinete olhava Juliana e seu tom sofrido. Josinete disse:

- Tu tem família? 

- Não. 

- Nem casa, nem família, nem ninguém?

- Ninguém, sou sozinha. 

- Mas como é que tu nasceu, hein? 

- Eu me perdi dos meus pais lá em Caruaru e vim pra cá. 

Josinete disse:

- Tu sabe ler ou escrever?

- Sei, não... só sei meu nome, Juliana, só isso. 

- Tadinha...

Juliana terminou de tomar o café, se levantou e disse:

- Dona Josinete, se importa se eu me deitar aqui do lado? 

- Não, não me importo. Pode se deitar ali. 

- Obrigada. 

Juliana se deitou na calçada e logo pegou no sono. Josinete não parava de olhar para a mendiga. 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Uma amizade forte


Em Lagoa da Italianinha, alguns comentam sobre a grande amizade existente entre Valdenes e Branquinha, a jovem publicitária. Os dois costumam se encontrar com frequência, além de fazerem parte do Café com Cultura, juntamente com Ana Karina, Cássia e os irmãos Eraldo e Luana. 

Certo dia, Cássia insinuou para eles que os dois "dariam um bom par". Mas Valdenes disse:

- Impossível, Branquinha é só minha amiga, ela é prima da Josiane, minha amada das antigas. 

- É verdade. - disse Branquinha. 

Mas conta-se que também Josiane anda um tanto incomodada com a aproximação entre sua prima e Valdenes. 

Certo dia, Valdenes viu Branquinha e contou sobre o que o povo falava. Branquinha disse:

- Oxe, eu nem ligo para as fofocas desse povo, deixe eles falarem. 

- Espero que nossa amizade não seja atingida por isso - disse Valdenes. 

- Jamais, longe de mim tal coisa. Esses vagabundos não pagam minhas contas, não é mesmo? 

- Verdade... 

Branquinha, por sinal, não deseja namorar com ninguém. Solteira e sozinha, quer investir apenas na sua carreira de publicitária. 

A portuguesa descalça

Numa tarde no ano de 1936, a cantora portuguesa Mary Dee estava no interior de Pernambuco, onde se estabelecera recentemente, chegando com italianos. Certo dia, ela foi para Vila Dourada com a professora Issa e a cantora Adelma, com quem ela fez uma amizade mais forte. Mas tanto a professora como a cantora ficaram surpresas porque Mary Dee foi descalça. A portuguesa disse:

- Espero que não se importem porque estou descalça...

Issa disse:

- Não, meus antepassados que foram escravizados inclusive andavam assim descalços. Mas porque você anda assim?

Mary Dee disse:

- Nunca gostei de usar sapatos.. Eu quando era criança, os meus pais proibiam-me de andar descalça, mas eu saía para as ruas do Porto descalça sem eles saberem, escondida deles. 

- Eita, que coisa - disse Adelma. 

Mary Dee retrucou:

- E hoje é a minha marca artística. Se calçar sapatos, não sou eu. E só faço espetáculo e canto descalça, mesmo. Eu até tenho sapatos, sabes, mas só os uso numa ocasião demasiado especial... a última vez que usei sapatos foi no ano passado, quando cheguei aqui com os italianos. 

- Bem diferente, mesmo... mas não se preocupe, Mary Dee, apenas, seja você. - disse Adelma. 

Issa disse:

- Lá no sítio Maniçoba mora uma jovem que só anda assim descalça, o nome dela é Maria Clara, eu nunca a vi nem de sandália. E ela diz que se sente bem assim. Acho que tu vai se dar bem com ela. 

- Acredito que sim. 

- E o seu marido que ficou lá em Portugal e seu filho pequeno Manuel que veio com você, eles andam descalços feito você?

- Não, não...até queria que meu pequeno andasse assim de pés no chão feito eu... mas eles respeitam meu jeito...

Atualmente, em Lagoa da Italianinha, antigo sítio Maniçoba que se emancipou de Vila Dourada, os descalços da cidade também relembram de Mary Dee, sendo que alguns deles, como as irmãs Myllena e Suely e o Valdenes sequer haviam nascido quando ela morreu. Mary Dee também nomeia um bairro na cidade, além dela ter doado um terreno para construir um hospital, que também leva o nome dela e fica no bairro do mesmo nome. 


 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

De noite no chafariz


Numa certa noite, no centro de Lagoa da Italianinha, a mendiga Rita de Cássia estava no chafariz de noite, se divertindo na água. A mendiga Renata passava por ali, e disse:

- Rita, tu no chafariz essa hora?

- Sim, é hora boa que não passa polícia...

Renata disse:

- Mas tá um frio, hoje, choveu, e tu no chafariz essa hora?

- O que é que tem? Tô me divertindo. 

Renata disse:

- Eu não gosto de tomar banho nem com clima quente, imagina com frio. 

- Não sabe o que está perdendo, Renata... entra no chafariz agora, querida. 

- Oxe, nem pensar. Não quero entrar na água, não. 

Rita se levantou da água, e tentou puxar Renata, dizendo:

- Venha, venha...

- Nada disso, quero não, nem coloque suas mãos molhadas em mim. 

- Poxa, Renata...

Renata disse:

- Desculpa, amiga. Mas eu acho loucura tu ficar aí essa hora, mas divirta-se. Eu vou andar por aí. 

- Tá bom...

Rita ficou mais tempo no chafariz, enquanto Renata foi perambular pelas ruas. 

Dani Cruel tenta encurralar Leila

 

Numa certa noite, no Alto do Cruzeiro, em Lagoa da Italianinha, a perversa Dani Cruel foi na casa da Leila, sua inimiga declarada, que vende picolés pelas ruas da cidade. Dani Cruel disse:

- Escuta aqui, barbie, eu tô sabendo que tu anda desafiando minhas ordens do toque de recolher. Tu te liga, viu?

- Oxe, eu sou sertaneja, tenho medo de tu, não, Dani Cruel. 

- Pois devia ter. Não estou pra brincadeira. 

Leila disse:

- Tu se incomoda demais, Dani, porque alguém aqui não baixa a cabeça pra tu, né? Mas eu não baixo, não. Tu não é autoridade aqui, tu é uma moradora simples feito eu. E não adianta me ameaçar, não tenho medo de tu. 

- Tá certo. Mas tá avisada. Eu estou com a paciência me esgotando por conta de tu. Não me desafie, por favor. 

- Pois eu não tenho medo de você, volto a dizer. 

- Tá avisada. 

Dani Cruel saiu dali, nervosa, e foi para casa. Leila apenas ria. 

A Luta de Lucélia


Nascida nos arredores de Berlim em 1890, a jovem Lucélia foi criada no judaísmo por seus pais judeus. Ela frequentava a mesma sinagoga que Inalda e Danielly, que eram primas uma da outra, e Stella. 

Lucélia passou um longo tempo solteira, e sempre foi considerada uma mulher bonita e inteligente. Mas ela não imaginava o inferno que viveria por questões políticas. Nessa época, a Alemanha, tomada pelo antissemitismo, estava dando espaço a um partido extremista que pregava abertamente a exclusão dos judeus da comunidade alemã. 

Mas Lucélia nunca teve medo. Ela nunca escondeu suas crenças, e exibia em público. Por sua coragem, Lucélia passou a ser mais perseguida, especialmente, a partir de 1933, quando o tal partido alcançou o poder. Não escapou de um campo de concentração, seguindo o mesmo rumo de Stella e de Alessandra, uma jovem comunista. Inalda estava no Brasil e Danielly, depois da Noite dos Cristais e com o começo da Segunda Guerra Mundial, conseguiu fugir para o Brasil. 

Lucélia, porém, conseguiu escapar do campo de concentração em 1943. Não tinha mais a mesma beleza de antes, estava magra, pálida e muito doente. Mas conseguiu se refugiar e fugiu para a Palestina. Stella morreu em 1945 e Alessandra foi libertada pelos soviéticos. Nessa ocasião, Inalda, Danielly e Alessandra pensavam que Lucélia estava morta, mas ela havia fugido, como foi dito acima. 

Lucélia finalmente conseguiu viver em paz e passou o resto de sua vida no Estado de Israel, que surgiu em 1948. 

Warlla importuna Valdenes


Numa certa tarde de sábado, na rodoviária de Lagoa da Italianinha, Warlla, a "mendiga chique", que estava bêbada, viu Valdenes ali tomando café e foi incomodá-lo. Valdenes ficou incomodado com a presença de Warlla, que exalava um mau cheiro insuportável. Ele disse:

- O que você deseja?

- Nada... mas veja tu, que estranho. Tu descalço, parece um pobretão, misericórdia...

- Oxe, e tu que tá aí mais suja que ficha de deputado em mira de CPI? 

Warlla disse:

- Eu sou suja e fedida, mas sou chique. 

Warlla fumava, e Valdenes disse:

- Desculpe, não aguento cigarro perto de mim.

- Oxe, tu morou na rua tanto tempo e nunca fumou, maloqueiro? 

- E quem disse que quem mora na rua tem que fumar? Isso é sua ideia. 

Warlla disse:

- Valdenes, parece que tu ficou muito nariz empinado depois que saiu da rua. Agora tu tá se achando muito... 

Valdenes terminou logo de tomar café, e Warlla disse:

- Oxe, já vai embora?

- Vou... tu tá com uma catinga terrível, oxe. 

Marlene, a dona da lanchonete, apareceu: 

- O que está acontecendo?

- Estou pagando meu café - disse Valdenes. 

Warlla disse:

- Paga um lanche pra mim?

Valdenes disse:

- Você não é chique? Você diz que não perde a pose? Então, se tu tem dinheiro pra comprar cigarro e bebida, deve ter dinheiro pra comprar lanche. 

- Mas é muito insolente. 

- Bom, com licença. 

Valdenes se retirou, e Marlene disse para Warlla:

- Warlla, se tu seguir importunando meus clientes, eu juro que vou tomar uma medida contra você. Não se esqueça que além de dona dessa lanchonete, eu sou diretora nessa rodoviária. 

- Vai me barrar? Isso aqui é público. 

- Vaza daqui, vaza! Suma! Te encanta!

Warlla saiu dali, cambaleando, e do lado de fora da rodoviária, acabou se deitando. 

Cássia corre na chuva

Mais um dia de chuva forte em Lagoa da Italianinha, e a maluquinha Cássia, como sempre, sai de casa para se divertir no meio do temporal. 

Mas ela fez mais: saiu correndo na chuva, e se divertia, pulando nas poças de água pelas ruas movimentadas da cidade. Muitas pessoas a chamavam de "louca", mas ela não parecia se importar com nenhuma das críticas. 

Cássia gritava:

- Chuva, te amoooo, não vá embora!!!!!!

Cássia chegou até mesmo a se deitar em uma poça de água numa das ruas centrais da cidade. Mas a alegria dela durou pouco: sua irmã Lúcia apareceu de carro, e brigando com Cássia, a levou de volta para sua casa. 

 

Briga no bar de Ed


O ano era 1937, e Ed, em seu humilde bar no sítio Maniçoba, no interior de Pernambuco, viu ali pessoas de diferentes culturas em um mesmo ambiente. Naquela tarde, estavam ali o coronel Jefferson, cearense e nordestino da gema, Jadiael, o imigrante italiano, Inalda, a pintora artista plástica e judia alemã, Mary Dee, a cantora portuguesa, e Maria Clara, a humilde camponesa filha de índios também nativa do Nordeste, daquele mesmo local. 

Mas o que podia ser motivo de orgulho para Ed virou preocupação. Isso porque Jefferson e Jadiael começaram a discutir. Desde 1935, ou seja, dois anos antes, eles já estavam em guerra por causa dos limites de suas terras, e um ameaçava tomar a terra do outro. 

Mary Dee, que chegou ali com os italianos, ficava preocupada, ao ver tal cena. Ed, de trás do balcão, observava, assim como Maria Clara. 

Mas Inalda disse:

- Parem com essa briga, de que adianta isso? 

- Inalda, isso não é problema teu - disse Jefferson. 

- Mas têm que chegar a um acordo. 

Jadiael disse:

- Não tem acordo com esse coronel. Quando cheguei aqui já me disseram que esses coronéis são piores que o ditador lá da Itália. Ecco! 

Mary Dee disse:

- Mas vamos ter calma. 

Maria Clara disse:

- Brigam por terras, por coisa que vocês não vão nem levar. Pra que tanto ódio só por isso? Tudo isso vai ficar aqui. Vocês são pais de famílias, de diferentes origens. Mas são chefes de família. 

Ed disse:

- Maria Clara disse tudo. Jefferson, Jadiael, vamos parar com essa briga. 

Jefferson e Jadiael tiveram que ceder, em respeito aos quatro que ali estavam no bar. Jefferson se retirou, e foi para sua casa, enquanto Jadiael ficou mais um tempo ali antes de ir embora também. Quando o imigrante se retirou, Inalda disse à Mary Dee:

- Eu cheguei aqui bem antes de vocês, lá em 1915, e não tive problemas com isso quando comprei a casa onde moro hoje. 

- Mas esse coronel diz que foi erro do cartório, não sei nem explicar essas coisas. 

- Eu fico triste com essa briga... - disse Maria Clara. 

Ed disse:

- Acho que isso vai longe... 

Encontro de duas inimigas de infância


Certa noite, ao caminhar pelas ruas de Lagoa da Italianinha, a vereadora Vanessa encontrou-se por acaso com Tatiane, que foi sua inimiga desde os tempos de escola. Vanessa olhou Tatiane de cima a baixo, surpresa e assustada, pois ela estava suja, encardida e malcheirosa. Vanessa disse:

- Que aconteceu com você, Tatiane? Você virou um lixo. Me contaram que tu está morando no esgoto, é verdade isso?

- Claro que sim! Por sinal, estou muito bem. 

- Tô vendo... envergonhando sua família. 

Tatiane riu e disse:

- Tu se acha só porque tu é vereadora, né? Mas te liga, que esse teu nariz em empinado vai durar muito não. 

- Eita, Tatiane, já vi que tu não mudou mesmo. Continua com a mesma inveja de mim. 

- Inveja eu???? Tu é uma reles vereadora, eu sou a rainha do esgoto, eu mando até nos ratos de lá, eles me temem! 

- Credo, você é louca, mesmo.

- Sou nada, sou corajosa. Agora, com licença, vou para o meu lar doce lar... mas me aguarde, vou acabar com você. 

Vanessa ficou horrorizada quando viu Tatiane entrar dentro de um bueiro. Vanessa dizia, consigo mesma:

- Sempre foi invejosa e fofoqueira, merece mesmo estar onde está...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O sono pesado de Warlla


 Depois de passar a madrugada perambulando pelas ruas, Warlla, a "mendiga chique", acabou caindo no sono no meio do Pátio Verona, no centro de Lagoa da Italianinha. 

Warlla, que como se sabe, já foi rica e era muito requisitada, agora encontra-se ignorada. Muitos passam por ela e sequer a olham. 

Apesar de seu passado rico e seu gênio complicado, Warlla não esconde sua atual condição, não tendo medo nem mesmo de dormir nas ruas em público, como geralmente acontece com quem já esteve na riqueza algum dia e tenha perdido tudo, que tenta esconder sua condição pobre de alguma forma. 

Mas alguns não conseguem ignorar uma mulher vestida como madame de forma elegante, mas muito suja e deitada em uma rua ou calçada qualquer. 

Warlla dormiu no pátio por volta das 4 da manhã e só acordou ás 11 horas, ou seja, estava dormindo no principal horário de pico. Como se trata de um pátio, onde carros não passam, ela não teve problemas para ficar ali. 

A teimosia de Rafinha


 Numa certa tarde, Rafinha, que estava bastante suja, chegou na escola de música de Eraldo, pedindo um copo de água. Clíntia, a secretária, meio assustada com o estado da mulher, permitiu. Mas estava se incomodando com o cheiro forte dela. Nessa hora, Eraldo apareceu, e perguntou:

- O que está acontecendo?

- Essa mendiga veio tomar água, e eu não pude negar...

- Bom, ela não é mendiga. 

- Não?

- Não, é Rafinha, que tem problemas mentais. A família dela é rica, ela é irmã da vereadora Vanessa, e tem uma irmã residindo em Londres, a Valéria, e outra em Berlim, a Milady. 

- Nossa. E ela tá com uma catinga insuportável... de fezes. Acho que ela evacuou nas calças. 

Rafinha ia saindo, e Eraldo disse:

- Rafinha, você está bem?

- Claro que estou. 

- Mas não parece. Olha, você é de família rica, tem uma irmã na Inglaterra e outra na Alemanha, tu pode se tratar, e...

Rafinha disse:

- Não é da sua conta. Cuide da sua vida que eu cuido da minha!

Rafinha saiu dali, e Clíntia disse:

- Mal-educada, hein? Nem agradeceu pela água. 

- Teimosa que nem uma mula... por isso anda por aí parecendo mendiga. E tem noite que ela dorme na rua, mesmo, mas ela costuma dormir em casa. 

Fabiana no chafariz


Numa certa manhã, em Lagoa da Italianinha, no chafariz no meio da praça, a mendiga venezulana Fabiana estava tomando banho na fonte. Ela reclamava o calor e não resistiu à entrar na fonte para se refrescar. 

Algumas pessoas olhavam a mendiga, e até tiravam fotos ou gravavam vídeos com ela brincando na água. Um deles dizia:

- Essa maluca veio lá da Venezuela e tá por aí nas ruas, olha a situação dela. 

Mas pouco depois, chegaram os policiais Júnior e Ana Clécia. Júnior disse:

- Não pode ficar aí, dona. 

Fabiana ainda não conseguia entender direito o sotaque português, mas Ana Clécia fez gestos. Fabiana disse

No sabía que estaba prohibido. Voy a salir.

Eles a observavam enquanto ela, saía, e Fabiana disse:

- Lo siento!

Fabiana, molhada, foi circular pelas ruas para pedir esmolas.

Dormindo na rodoviária


 Numa certa tarde, na rodoviária de Lagoa da Italianinha, Valdenes foi tomar café e se deparou com uma mendiga dormindo perto do balcão da lanchonete. Era a mendiga Priscila. Ele disse à Marlene:

- Priscila tá dormindo aí, Marlene, tu viu?

- Sim, depois eu vou enxotar ela daí. 

- Eu quando morei nas ruas, conheci muito ela, mas ela parece que não sai da vida errada. 

- Imagina, os pais dela são pobres, mas pessoas honradas, né? Devem ter vergonha de ter uma filha assim vivendo desse jeito, dormindo nas ruas e fazendo coisas erradas. 

Priscila tinha o sono pesado, e não acordou nem mesmo com barulhos grandes por ali, pois estava muito movimentado. 

Mas muito tempo depois, quando Valdenes já tinha ido embora, Marlene foi acordar Priscila, e disse:

- Priscila, aqui não é lugar de dormir, vai procurar outro lugar. 

- Oxe, logo no meu melhor sono, tu me acorda. Francamente, não poderia esperar mais um pouco?

- Tu é mais folgada que calça de palhaço, oxe. Chispa daqui, vaza!

Priscila saiu dali, olhando Marlene com raiva, e depois, se deitou perto de um muro do lado de fora da rodoviária. Marlene dizia:

- Preguiçosa, não, se amostra...

Inalda e suas tradições


No ano de 1940, a pintora alemã Inalda fez 45 anos de idade morando no interior de Pernambuco, no sítio Maniçoba, atual Lagoa da Italianinha. Apesar da cidade preservar muito a cultura italiana por conta de seus fundadores, foi Inalda a primeira estrangeira a residir ali. Ela foi morar no sítio do agreste de Pernambuco, que na época, pertencia a Vila Dourada, com apenas 20 anos de idade, em 1915, vinte anos antes da chegada dos imigrantes italianos e portugueses. 

Inalda, mesmo morando em uma região altamente católica, preservou sua tradição judaica. Uma das razões de ter escolhido Pernambuco como seu lar é porque em Recife localizava-se a primeira sinagoga do continente americano. 

Ela lia a Torá diariamente e preservava suas raízes, já que ela também era filha de judeus. Sofreu muitos preconceitos principalmente por parte da beata Lady Andréia, católica roxa e que passou parte de sua vida perseguindo Inalda. Durante a guerra, Lady Andréia chegou a denunciar Inalda, pois ela era de um dos países do Eixo - Alemanha - o que levou Inalda, duas famílias italianas e uma humilde família japonesa que residia em Vila Dourada ter seus rádios confiscados. Inalda também ensinava sua arte, tendo sido Maria Clara, uma humilde camponesa, uma de suas alunas. 

Inalda ainda sofria muito pelos judeus que viviam sendo perseguidos pela ditadura alemã. Ela havia escapado porque já morava no Brasil há anos, mas se preocupava com sua prima Danielly e suas amigas Lucélia, Stella e Alessandra, sendo que esta última não era judia, e sim, comunista. 

Apenas Stella morreu no período, mas as outras conseguiram sobreviver. Lucélia foi para Israel, Danielly para Pernambuco, viver junto com Inalda e Alessandra foi para Alagoas. 

Inalda sempre foi muito querida em Lagoa da Italianinha, e hoje suas bisnetas Taline e Teane tentam abrir um museu na casa onde Inalda morou. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Warlla e a nostalgia dos tempos de rica


Era mais ou menos 00h em Lagoa da Italianinha, e a "mendiga chique" Warlla passou em frente a uma mansão e viu uma família entrando ali. Logo, Warlla se lembrou dos tempos que era rica. Warlla se recordou, de que como aquelas crianças que estavam entrando numa mansão, cresceu no luxo e cercada de fartura. 

Warlla se recordava de quando dormia em cama quente, contrastando com a atual situação, onde dorme em calçadas no meio da rua. 

Uma das crianças percebeu e ficou com medo, e disse para sua mãe: 

- Mãe, tem uma mulher suja olhando pra gente. Tô com medo. 

Ela olhou e viu quem era, e levou as crianças para dentro. Warlla saiu dali, sem falar com ninguém. 

O dono da casa disse para sua esposa e os filhos:

- Aquela mulher ali eu conheço ela, ela já foi rica, mas ela hoje mora nas ruas, desde 2022. Ela é muito problemática e orgulhosa, nem os pais gostam dela, os pais foram pra Caruaru e não querem nem saber dela. Ela gosta de semear contendas, de fofocas e de fazer o mal. Por isso ela foi castigada, mas não se emenda. Vive nas ruas, mas continua de nariz empinado! 

Warlla, enquanto isso, estava em um beco, e dizia, sobre a família que vira:

- Tudo amostradinho... 

Mimi é estimulada a ser candidata a deputada estadual

 

Numa certa tarde, a juíza Suely foi na casa de Mimi, no sítio Mandacaru, ao lado da vereadora Vanessa. Mimi recebeu as duas, que foram falar com ela para implorar que ela saia candidata a deputada estadual. 

Suely disse:

- Eu estou sabendo, minha colega careca, que fosse convidada para ser candidata a deputada estadual. Você já aceitou?

- Não. 

- Pois seja. 

- Oxe, doutora Suely. 

Vanessa disse:

- A prefeita Myllena deverá sair candidata a deputada estadual do lado da Sandra Valéria como federal, e até mesmo Moab e Janayna deverão estar juntos com elas. A oposição não tem mais candidatos aqui em Lagoa da Italianinha. 

- Mas isso é especulação, não acha?

- Não. - disse Suely - a prefeita é minha irmã e eu estou sabendo dos bastidores. Ela anda se encontrando com a deputada de quem ela falou tão mal por treze anos. 

- Puxa, eu fico até desconsertada. 

Vanessa disse:

- Mimi, se tu aceitar o convite e ser candidata, tu já tem meu apoio e o da doutora juíza Suely, e nós vamos atrás de mais apoios. Por favor, a oposição só tem você, não nos abandone. 

- Mas isso é surpreendente - disse Mimi. 

Suely disse:

- Eu tenho algumas divergências com as ideologias que tu defende, mas eu reconheço que você é uma grande líder, e se só tiver você contra os grupos aí tudo se unindo, eu estou com você. 

- Bom, preciso pensar melhor... - disse Mimi. 

- Pense e nos responda - disse Vanessa - já teve deputado me procurando e eu já disse que estou apoiando outra pessoa, e é você quem eu quero apoiar. E não estamos aqui pra pedir cargo nem dinheiro pra você, queremos alguém representando a oposição. 

Suely disse:

- Sim, Mimi. Escute, pense com carinho e venha com a gente nessa luta. 

Elas almoçaram juntas e depois, Suely e Vanessa foram embora, enquanto Mimi ficava pensando. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A resistência de Alessandra

 

Os seis anos que Alessandra passou em um campo de concentração - os mesmos anos da Segunda Guerra Mundial - foram os mais terríveis na vida de jovem alemã descendente de indianos. Além de sua etnia, ela ainda era militante comunista e era perseguida pela ditadura. 

Alessandra tornou-se um símbolo de resistência, que não se entregou fácil. Ela emagreceu, ficou careca, adoeceu diversas vezes, viu a morte de perto em vários momentos. Chegou a ser condenada a execução, mas que foi suspensa por causa do mau tempo. 

Certo dia, em 1942, um dos soldados a viu toda magra, pálida e sem forças, e disse:

- Eita, que tu vai morrer logo, viu? Já está morta, só falta enterrar. 

- Cuidado, tu pode morrer antes de mim...

- Isso é impossível. Sou um dos melhores atiradores da Alemanha, e minha saúde é de ferro. Jamais isso nem passa pela minha cabeça. 

Ele saiu, não sem antes provocar:

- Fica aí, morimbunda, vou gozar de minha vida longa. 

Alessandra resistiu. Em 1945, esse soldado acabou morto em uma batalha contra os soviéticos, enquanto Alessandra sobreviveu ao campo, foi salva, e foi morar em Maceió, no Brasil, onde conseguiu viver até o começo da década de 90, passando dos 90 anos de idade e testemunhando até mesmo a unificação da Alemanha. 

O dia que Bianca foi jogada na lama


O ano era 1949, e a imigrante italiana Bianca estava prestes a ir embora do Brasil. Ela nunca se acostumou com o interior de Pernambuco, para onde foi com seus pais Hélio e Suzana, e seu irmão mais novo Kayque, em 1935. 

Bianca, porém, diferente de seus pais e seu irmão, era muito detestada no sítio Maniçoba, atual Lagoa da Italianinha. Bianca sempre falava mal do povo local, e era muito antipática. 

Pouco antes de ir embora, começou a provocar a camponesa Maria Clara, dizendo:

- Uma louca suja, do pé sujo, olha que tipinho que vive por aqui. 

- Tu se acha muita coisa, né, Bianca? 

- Eu não me acho! Eu sou! 

- Olha, se eu caisse naquele chiqueiro de porcos, eu ficaria suja. E você... também. 

- Ah, não venha com suas filosofias...

- Quer apostar?

Maria Clara começou a empurra Bianca, que disse:

- Pra onde está indo? Me solta!

Maria Clara jogou Bianca entre os porcos, na lama. Alguns viram e riram bastante. Bianca disse:

- Tu vai me pagar, sua fedida. 

- Vá embora, antes que eu afunde mais ainda sua cara na lama!

Bianca saiu dali, vaiada. Maria Clara disse:

- Ela é assim, mas a família dela é maravilhosa. Ainda bem que ela vai embora. Mas os pais e o irmão vão ficar. 

- Já vai tarde essa abusada! - disse um dos que ali estavam. 

Bianca chegou em casa, e sua mãe Suzana disse:

- O que aconteceu?

- Não interessa, quero tomar banho, eu tô fedendo a chiqueiro! Aquela camponesa pé sujo me paga! 

Bianca tomou um banho e se limpou. Suzana repreendeu a filha por tratar mal as pessoas que os acolheram no sítio. No dia seguinte, Bianca arrumou as malas e voltou para a Itália, indo morar em Tirano, perto da fronteira com a Suíça. Hoje, é a neta de Bianca, Nonna, quem vive lá. 

O plano sujo de Wéllia

 


Numa certa tarde, na agência de publicidade, Wéllia estava ali, com olhar maldoso, fumando, e rindo muito. Geisy, a sua ajudante, vendo a cena, disse:

- O que aconteceu, dona Wéllia? Não me diga que a senhora está feliz por ter.. é... feito isso nas calças, se é que me entende. 

- Também, querida, mas aqueles que riem de mim por eu fazer cocô nas calças estão fazendo o mesmo agora. 

- Como assim?????

- Eu coloquei purgante na mesa de algumas pessoas... minha irmã Malu, minha filha Alice, minha mãe Selma nós tomamos café juntas e aproveitei pra elas fazerem o que eu faço... 

- O que???? 

- Sim, ahahahah, eles devem estar experimentando o quanto é bom. 

Naquela hora, chegou Malu, a irmã gêmea de Wéllia, e disse:

- Wéllia, explica isso, como é que tu colocou purgante na minha comida quando eu tomei café na sua casa hoje? Tu me convida pra tomar café pra me aprontar uma dessas? Eu devia ter desconfiado! 

- Calma, irmãzinha... você viu como é maravilhoso isso?

- Não achei nem um pouco bom, minha saia tá suja de...não precisa dizer de que, né? Ah, e lá no colégio, me contaram que Alice também está com a calça suja, pois é, riram dela porque ela cagou nas calças. 

- Não é nada demais, é muito bom. 

Malu disse:

- Wéllia, sinceramente? Tu precisa se tratar. Tu não é normal, mesmo. Tu tem esse costume nojento e quer que outros também tenham. 

- Não acho nada disso nojento, ao contrário...

`Pouco depois, apareceu Alice e disse:

- Mãe, porque tu fez isso com a gente? Tô com a calça melada de... merda. 

- Ué, o que tem demais?

- Ficaram rindo de mim, mãe, por isso. 

Wéllia disse:

- E a minha mãe Selma?

- Com ela não aconteceu nada, porque ela correu logo pro banheiro. Mas eu espero que isso não se repita, Wéllia. Se tu quiser bancar a ridícula fazendo cocô nas calças, é um direito seu, mas não queira que outros sejam igual a tu, não. E vamos embora, Alice. 

- Pra onde tu vai levar minha filha?

- Pra minha casa. Tu não está normal, Wéllia. E se isso se repetir, eu não respondo por mim!

Malu e Alice saíram, e Wéllia disse:

- Voltem aqui!

Geisy disse:

- Wéllia, tu não acha que exagerou?

- Não. Não exagerei e não me arrependo. 

Geisy começou a ficar assustada com Wéllia. 

Warlla enfrenta outros mendigos

 

Numa certa madrugada, alguns moradores de rua estavam em um beco em uma das principais vias centrais de Lagoa da Italianinha, e em conflito com Warlla, a "mendiga chique". Warlla, como se sabe, já foi rica, mas perdeu tudo, menos a pose, e hoje vive nas ruas andando como se fosse uma madame chique. Ela é rejeitada também por outros moradores de rua, sem contar que a própria Warlla os rejeita, chamando-os de "pobres nojentos", mesmo ela estando entre eles. 

Rita de Cássia, Solange, Deza, Guilherme, Warlla, Fábia, Renata e Esvalda estavam ali por volta de 2 da manhã, e brigando. Renata, entre os mendigos, era a quem mais enfrentava Warlla. Rita e Solange estavam sentadas observando, Deza e Guilherme também enfrentavam Warlla, Fábia, mesmo sentada, também a enftentava, e Esvalda ficava observando. 

Warlla disse:

- Vocês são uns pobres, nojentos, tudo inútil, não tem como, eu jamais poderia me misturar a vocês!

- Deixa de tua besteira, doida, que tu mora nas rua feito a gente, tu não tem onde dormir e fica aqui nas calçadas! - disse Renata. 

- Mas eu sou uma mendiga chique!

- Tu é muito metida a besta, isso sim! - disse Fábia. 

Warlla disse:

- Eu não sou igual a vocês, entendam. Eu sou melhor, superior. Eu ando pelas ruas, as pessoas me olham, eu chamo atenção. 

- Deve ser pela sua besteira e teu nariz empinado - disse Guilherme. 

Deza retrucou: 

- Essa daí é muito sem noção. 

- Sem noção são vocês! - disse Warlla. 

- Tu se acha melhor que a gente, mas tu tá suja, fedendo, por sinal, só eu estou fedendo mais que você - disse Esvalda. 

- Não falo com mendigas encardidas. Fica na tua! 

Solange se levantou e disse:

- Sabe o que eu faço com uma besta feito tu? Eu meto um tabefe!

Rita se levantou, tirou a chupeta da boca e disse pra Solange:

- Deixa, dona Solange. Não vale a pena se sujar por essa bruaca! 

Warlla disse:

- Vocês morrem de inveja de mim, isso sim. 

Renata perdeu a paciência e empurrou Warlla, dizendo:

- Saia daqui! Saia!

Warlla foi empurrada por todos os outros sete mendigos, e ela dizia:

- Vocês me pagam!

Warlla foi dormir em outro beco, escuro e deserto, enquanto os outros mendigos se sentiram aliviados após a saída dela. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

De volta ás aulas


 De volta às aulas, os amigos Samuel, Alice, Mateus e Tontom novamente se encontraram no colégio onde os quatro estudam, no Colégio de Freiras Irmã Renata Augusta, dirigido pela Irmã Alcineia. 

Tontom na verdade é novo no colégio, tendo sido matriculado agora. Mas os outros três já estudam lá há algum tempo. 

Samuel, filho de Valéria, é amigo inseparável de Alice, a filha de Wéllia, apaixonado por ela, mas o Mateus, filho da prefeita Myllena, também quer namorar com ela. Mas Alice rejeita ambos, pois quer priorizar o estudo em detrimento do namoro. 

Tontom, o filho de Mimi, se juntou a esses amigos e tem se divertido muito com eles. Mas apenas os três primeiros estudam numa mesma classe, e Tontom estuda em outra classe, fazendo com que eles se vejam apenas no recreio. 

Giovanna rumo à chefia da Prefeitura

 

Vice-prefeita de Lagoa da Italianinha, Giovanna Victórya já está se preparando para assumir o cargo de prefeita quando sua mãe Myllena renunciar para disputar o mandato de deputada estadual. Giovanna, inclusive, já dá algumas ordens na Prefeitura, e ela é obedecida. 

A expectativa na cidade com Giovanna é muito grande. Inclusive, até mesmo a deputada federal Sandra Valéria, adversária de Myllena, já se rendeu ao carisma de Giovanna e anda tentando convencer Myllena a voltar a seu grupo político depois de 13 anos, de olho em um apoio à Giovanna em 2028, quando poderá tentar um mandato completo. 

Até mesmo algumas pessoas que não votam em Myllena estão tendo expectativas positivas com Giovanna, acreditando que ela fará um trabalho ainda melhor que a mãe descalça. Giovanna, inclusive, já é presidente do partido na cidade, secretária de Governo e tem estudado cursos de formação política e de gestão para governar bem Lagoa da Italianinha. 

Apesar das preocupações e dos medos de Myllena, Giovanna anda provando que está muito preparada e vai querer fazer a diferença. Uma das grandes diferenças entre a mãe e a filha é que Myllena tem um gênio muito forte, ás vezes explosiva, enquanto Giovanna costuma calcular melhor as emoções e tomar decisão sempre de cabeça fria. 

A proposta ousada de Sandra Valéria


Decidida a disputar mais um mandato de deputada federal, Sandra Valéria convocou as três principais lideranças de Lagoa da Italianinha para seu escritório de Recife. Longe dos holofotes, ela recebeu o deputado estadual Moab, a prefeita Myllena e a deputada estadual Janayna. 

A expectativa era pela presença da prefeita Myllena, que atualmente, é adversária ferrenha da deputada. Mas a prefeita descalça compareceu ao encontro. Myllena é pré-candidata a deputada estadual, e Janayna, pré-candidata a deputada federal. 

Mas Sandra Valéria quer o apoio dos três à sua candidatura. Ela disse:

- Eu recebo vocês aqui, com muita alegria, e não precisam dar a resposta. Mas estive fazendo as contas, se vocês três forem candidatos a deputados estaduais, poderão ser eleitos os três juntos. Como se sabem, o atual deputado federal Arinaldo, meu amigo, está deixando a vida pública e vai me apoiar. 

- Mas Janayna não será candidata a deputada federal? - quis saber Myllena. 

- Janayna já está recebendo convites para tentar uma vaga na Assembleia Legislativa. 

- Sim, é verdade, Myllena. - disse Janayna - e as chances de chegar são grandes. Federal é algo muito grande. 

Moab disse:

- Confesso que sua proposta é muito ousada, amiga. 

- Sim, mas é possível conseguir. Além do mais, vocês são majoritários em algumas cidades próximas. Você, por exemplo, é majoritário em Serra Grande, Myllena é majoritária em Vila Dourada e Janayna é majoritária em Nova Humaitá. 

Myllena disse:

- Sandra, eu e você somos adversárias políticas. 

- Sim, e daí? O atual presidente e o vice-presidente foram adversários políticos. E olha, Myllena, eu estou disposta a esquecer tudo que aconteceu, vamos voltar ao tempo que fomos aliadas, como você, chegou a ser minha vice quando eu fui prefeita, e eu estou disposta a ajudar sua filha Giovanna quando ela te substituir na Prefeitura. Eu já orientei ao meu grupo não fazer oposição contra ela. 

- Bom, isso é algo muito sério... o povo não vai entender. 

- Desde quando tu se preocupa com a opinião das pessoas, Myllena? 

Moab disse:

- Bom, eu já escutei aqui em Recife que Mimi, que foi candidata a prefeita, deverá ser convidada pra ser candidata a deputada estadual. 

- Sério? - disse Janayna. 

- Sim, e se isso acontecer, não vou impedir. Acho que precisamos deixar nossas diferenças de lado e fortalecer Sandra Valéria. Temos nós três chances reais de sairmos vitoriosos. 

- Bom, eu preciso realmente pensar mais um pouco - disse Myllena. 

- Pense direitinho. O tempo tá passando - disse Sandra Valéria. 

A deputada federal serviu um almoço para os convidados e depois eles voltaram para Lagoa da Italianinha. 

Mimi recebe convite para se candidatar a deputada estadual


Numa certa tarde, Mimi estava em sua casa quando recebeu representantes de um partido que foram procurá-la onde mora, no sítio Mandacaru, na zona rural de Lagoa da Italianinha. Um deles disse:

- Mimi, nós viemos aqui pra lhe fazer um convite.

- Convite para que?

- Viemos do Recife agora e vemos que seu nome está bem cotado para uma possível candidatura a deputada estadual. 

Mimi levou um susto:

- Eu???? Mas eu não ganhei nem pra vereadora. 

- Mas teve 23 mil votos para prefeita na última eleição. 

Mimi se levantou e disse:

- Olha, eu estou praticamente fechando com Moab para apoiá-lo. 

- Mas Moab é de direita, querida. Nós o conhecemos muito bem. 

- Eu sei, mas ele abraçou minha candidatura a prefeita, avalizou meu nome quando muitos que me apoiaram ainda resistiam. Ele acreditou em mim, na minha força, no meu potencial. Eu sou tão grata a ele que essa questão da visão ideológica dele diferente da minha fica em segundo plano. 

O homem disse:

- Mimi, entendemos sua gratidão a ele, mas precisamos de uma representante do nosso partido para nos representar nessa disputa. Você tem potencial, você tem votos em Lagoa da Italianinha, Vila Dourada, Serra Grande do Agreste, Nova Humaitá, Cumaru, Passira, Bezerros, Gravatá...

- Tá, tá. Olha, preciso pensar, ok? E preciso falar com Moab. Não vou ser ingrata com ele. 

- Está bem, como quiser. Mas seja rápida. 

Eles saíram, e Mimi pensava consigo mesma:

- Eu acho que eles estão tentando preencher a cota feminina... 

As reflexões de Rita de Cássia

  Depois de passar algumas horas dormindo na rodoviária de Lagoa da Italianinha, a mendiga Rita de Cássia, a quarentona que tem mente de cri...