segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Regina e as alunas de piano

Por volta de 1785, em Vila Rica, Regina se via ensinando outras jovens a tocar piano. Além de Milena, uma jovem de família aristocrática da então capital mineira, a recém-chegada Jacilene, francesa que viera habitar ali, estavam entre os vários interessados a aprender piano com Regina. 

Certo dia, enquanto Regina observava sua aluna Milena tocando piano, Jacilene, sentada, via se perto como sua colega fazia. Jacilene disse:

- Sempre quis aprender piano, mas meu pai nunca quis. 

- Uma pena, pois tocar piano é maravilhoso - disse Milena. 

Regina retrucou:

- Agora, você chegou da França, e estou aqui disposta a te ensinar, também. 

Jacilene disse:

- Mas somos só eu e ela?

- Não, tem muitos outros alunos, pessoas de Vila Rica e até de outras cidade. As pessoas mais pobres eu costumo fazer um desconto. Realmente, eu desejo que mais pessoas possam aprender essa arte maravilhosa. 

Milena disse:

- Eu quero ainda ir em Viena e conhecer Mozart. 

- Dizem que ele é um gênio, já ouvi falar dele na França também - disse Jacilene. 

- Se conhecer ele, não esqueça de falar de mim - disse Regina. 

- Está certo...

Milena continuou dedilhando o piano, sendo observada por Jacilene e por sua professora Regina. 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Encontro na Cachoeira


Num certo domingo, na Cachoeira Sol Nascente, em Lagoa da Italianinha, as modelos italianas Cláudia e Érica encontraram Valdenes, que assim como elas, estava nadando ali de roupa e tudo, diferente dos banhistas que ali estavam. Cláudia disse:

- Molto bene, bagno vestiti come noi! 

Valdenes, apesar de ser neto de uma italiana a Roberta, pouco entendia o sotaque das duas. Mas entendeu que elas o elogiavam por ele estar vestido dentro da água. Ele disse, usando gestos:

- Obrigado, mas é assim que eu gosto assim mesmo, desde criança...

- Nostro migliore amico! - disse Érica. 

Os banhistas que ali estavam olhavam os três com um misto de surpresa e de zombaria. Naquele local em pleno interior de Pernambuco, eles viam quem entrava de roupa e tudo na água como "matutos". 

Valdenes avisou ás duas italianas sobre a visão das pessoas que ali estavam, mas elas disseram não se importar com as críticas. Disseram que no país delas, na região de Marcas, de onde elas tinham vindo, não era diferente. 

Cláudia e Érica se deram tão bem em Lagoa da Italianinha que decidiram viver ali, trabalhando inclusive na agência de modelos de Ilene. E Valdenes conseguiu estreitar o laço de amizade com as duas italianas. 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Jessy se arrisca no rio

 

Jessy, a jovem gari, é capaz até de se arriscar de uma forma preocupante para poder deixar qualquer ambiente limpo. Foi o que ela fez quando decidiu entrar no rio para recolher lixos jogados ali. Seus colegas garis ficaram preocupados, e um deles disse:

- Jessy, ficasse doida? 

- Nada disso, eu não suporto ver sujeira, só isso. E em vez de ficar me criticando, me ajudem. 

Jessy entrou de uniforme e botas no rio e recolhia os entulhos. Um de seus colegas tinha um saco onde ela ia colocando o que ela tirou do rio. 

Jessy, ao sair do rio, disse:

- Vamos levar isso no caminhão. 

- Jessy, cuidado, tu entrasse assim no rio sujo...

- Não tenho medo, não. Depois, vou chegar em casa e tomo um bom banho. Vamos logo com isso, pessoal. 

Pegaram o carro de lixo e circulavam pela cidade. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A freira e seu amigo


 Numa certa manhã, a freira Irmã Alcineia mandou chamar Valdenes no Colégio Irmã Renata Augusta, em Lagoa da Italianinha. Em dado momento, Valdenes ia entrando com medo, pois ele estava descalço e pensava que ia ser barrado, mas a freira disse:

- Eu removi essa proibição aqui do colégio. As pessoas podem entrar descalças, sim. Até fiz isso em memória à homenageada desse colégio, que passou metade de sua vida com os pés no chão! 

- Ah, que bom, agora me sinto à vontade. 

Irmã Alcineia disse:

- Quer um lanche? Um café?

- Aceito, irmã.

Irmã Alcineia disse:

- Vai casar quando?

- Oxe, eu nem sei. Nem imagino. A mulher de quem eu gosto eu não consigo ficar com ela porque o pai dela é deputado, e não deixa, e eu tô até tentando namorar uma florista, mas ela parece ter um gênio muito difícil. 

- Entendo. Por isso, prefiro ser freira. Relacionamento não foi feito para mim. 

- Que mal lhe pergunte, irmã, mas me lembro até quando eu morava nas ruas, que a senhora tinha um namorado, o que foi feito dele?

- Não gostaria muito de falar sobre ele. 

- Bom, me desculpe. 

- Está bem, Valdenes. Vamos conversar mais um pouco. Você trabalha?

- Sim, tô lá no escritório da doutora Suely, a juíza. 

- Essa nem preciso perguntar se ela te deixa tu ir descalço pro trabalho, pois ela mesma também anda descalça. Muito peculiar o povo daqui. 

- Pois é. 

Conversaram ali muito tempo e só depois de 40 minutos Valdenes se retirou. Irmã Elvira percebeu e disse:

- Irmã, não é por nada não, mas a senhora tem um apreço por esse rapaz...

- Sim, um amigo de infância. Nada mais do que isso. 

- Se a senhora não fosse freira eu jurava que estaria apaixonada por ele. 

- Mais respeito, Irmã Elvira. Eu fiz um voto de castidade. 

- Eu sei, desculpe, não foi por mal. 

- Tá certo, vai lá na cozinha fazer limpeza por lá antes do almoço. 

- Sim, senhora. 


O encontro das carecas


Numa certa manhã, no escritório da juíza Suely, apareceram duas amigas para conversar com ela: a Mimi e a veterinária Anna Paula. Acontece que assim como Suely, e inspiradas por ela, Mimi e Anna Paula rasparam suas cabeças e se tornaram carecas por opção, isso já há anos. Mimi é agricultora e tem uma barraca na feira, além de ter sido candidata a vereadora em 2016, quando tinha cabelos ainda, a vice-prefeita em 2020, quando já era careca, e à prefeitura em 2024, quando foi derrotada por Myllena, a irmã de Suely. 

As três trocaram ideias sobre a possibilidade de criar um grupo para elas na cidade. Suely, que já foi convidada a integrar a Sociedade dos Pés Livres, que reúne os descalços, resolveu pensar em criar uma associação que reunisse as mulheres que tomaram a decisão de abandonar os cabelos. 

Suely disse:

- Eu fui convidada por Valdenes a integrar um grupo de descalços que ainda está em formação, e eu pensei em fazer o mesmo sobre nós. Sabe, a gente sofre muito preconceito, as pessoas perguntam se estamos doentes, ou em tratamento, não entendem que eu decidi ser careca, eu quis ser careca. Minhas duas filhas seguem o mesmo estilo que eu. 

- Seria bom, não imagina as piadas que eu escuto. Mas eu não me arrependo, eu particularmente, não tenho nenhuma vontade de deixar meus cabelos crescerem de novo - disse Mimi. 

- Eu também amo ser careca, e vou continuar assim. - disse Anna Paula.

Suely disse:

- Vamos falar com as outras mulheres carecas da cidade, tipo a ex-vereadora Maria Isabel, e outras que adotaram nosso estilo. E sabe, Mimi, eu proponho que você seja a presidente da sociedade.

- Eu?????

- Sim, você tem mais condições de liderar. Eu não tenho vaidade com isso, lá mesmo no grupo dos descalços me ofereceram a presidência, mas eu não aceitei assim de cara, não. Eu posso ser a vice, com você na presidência. 

- Bom, isso é algo que ainda vamos discutir. Vamos ver primeiro as mulheres que vão topar participar. 

Anna Paula disse:

- Como são pouquíssimas mulheres carecas aqui, a gente pode chamar pessoas não-carecas, mas que também aceitem nossa luta. 

- Pode ser. - disse Mimi. 

Suely, Mimi e Anna Paula tomaram um café, e em dado momento, Anna Paula perguntou:

- Mimi poderá fazer parte do grupo dos descalços? Ela só é descalça em um pé, o outro, não. 

Mimi riu, e Suely disse:

- Sim, ela pode, sim, pelo que Valdenes me disse. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Diferente do discurso

 

Certo dia, em Lagoa da Italianinha, o jovem Venâncio, comunista de carteirinha, estava em seu quarto, quando seu pai, o ex-vereador Zé Bento, apareceu. Ele perguntou:

- Decidiu agora estudar espanhol, filho?

- Sim, pai, afinal é o idioma do país onde pretendo viver. 

- Oxe, que conversa é essa? Tu vai sair do Brasil?

- Claro, pai. Já falei isso pro meu irmão Vinícius inclusive. 

Zé Bento disse:

- Bom, então suponho que você vai morar em Cuba, já que és comunista, inclusive você tem muitas fotos do Fidel Castro. 

- Não, pai. Vou pra Espanha!

Zé Bento tomou um susto e disse:

- Mas como? Espanha é um país capitalista! E além do mais, é uma Monarquia!

- O que tem a ver, pai?

- Tem a ver que tu briga contra o capitalismo e vai pra um país capitalista? Como é que pode isso, Venâncio? 

- Pai, na Espanha tem um sistema educacional avançado...

- E em Cuba, não? 

- Pai, não é assim, vamos com calma. 

Zé Bento disse:

- Filho, vou te dizer uma coisa. Meu pai Diógenes era advogado em cartório e minha mãe Tainá era uma índia, e eles se sacrificaram muito para me criar. Confesso que na minha juventude eu exaltei ideias comunistas, nada mais belo. Mas a realidade é muito diferente. Você sabe quando caiu a ficha pra mim? Quando vi pessoas derrubando o muro da Alemanha comunista querendo ir pra Alemanha capitalista. Isso em 1989, não sai da minha cabeça. Filho, aquilo me fez pensar: como é que as pessoas podem querem trocar o paraíso e fugir pro inferno? 

- Pai, não exagera essas coisas. Não é assim...

- Escuta, filho, vou te falar uma coisa. Se tu for pra Cuba, eu te ajudo. Seja coerente. Mas se tu tiver indo para a Espanha, não estás sendo coerente, portanto, não conte comigo. 

Vinícius, o irmão de Venâncio, chegou e disse:

- O que está acontecendo aqui?

- Seu irmão é comunista, demoniza o capitalismo, mas quer estudar espanhol para ir para um país que além de ser capitalista, é uma monarquia. Falta de coerência. 

- Ué, pai, mas o senhor é anticomunista desde a queda do Muro de Berlim - disse Vinícius. 

- De fato. Sou anticomunista. Mas seu irmão é um sonhador utópico que deseja pro país dele algo que não existe no país para onde ele quer ir. Então, se ele quiser ir pra Cuba, eu ajudo, mas se estás querendo ir para a Espanha, te vira sozinho! E tenho dito!

Zé Bento saiu, e Venâncio disse:

- Pai endoidou foi?

- Quem endoidou foi tu. Tu defende comunismo e quer ir pra país capitalista. Acho isso hipocrisia. 

Vinícius se retirou, e Venâncio ficou resmungando:

- Burguês é tudo problemático...

Cássia é recebida no Café com Cultura

 

Na Biblioteca Pública Municipal de Lagoa da Italianinha, os irmãos Eraldo e Luana, Valdenes, Ana Karina e Branquinha deram as boas vindas à Cássia, que passou a fazer parte do Café com Cultura ao lado deles. 

A ideia partiu de Ana Karina, que foi aceita por todos os membros. Valdenes e Branquinha foram pessoalmente na casa de Cássia fazer o convite. Lúcia, a irmã de Cássia, disse:

- Eu fico feliz demais, isso vai distrair ela. 

Valdenes disse:

- Cássia é muito inteligente e pode contribuir ao nosso lado. 

Cássia disse:

- Eu fico feliz, porque finalmente alguém se lembrou de mim... só por causa de meus problemas de loucura, me escantearam tanto...

- Mas você tem muito a nos ajudar - disse Branquinha. 

Cássia foi para a primeira reunião, com Valdenes e Branquinha, e foi recebida por Eraldo, Luana e Ana Karina. Luana disse:

- Seja bem vinda, Cássia. 

- Eu que agradeço, apesar de eu ser meio... maluca. 

- Mas que besteira, tu tem potencial enorme - disse Eraldo.

Ana Karina disse:

- Bom, agora somos seis e espero que esse número aumente. 

- Cássia, me fale de você. - disse Eraldo. 

Cássia disse:

- Sou uma mulher feliz, apesar da minha loucura... eu amo me molhar na chuva, no rio, na cachoeira, na praia, na piscina, também gosto de me lambuzar na lama, dormir no chão e ter amigos de rua. 

- Você é uma pessoa pura de coração. Já percebemos isso - disse Luana. 

- Muito obrigada. 

A reunião foi até tarde da noite, e Branquinha levou Cássia de carona para a casa dela. Cássia finalmente voltava a fazer parte de um grupo social depois de 24 anos. 

Danuzia tenta humilhar Sayonara

  Praça 27 de Dezembro, Lagoa da Italianinha. 9h da manhã.  Sol batendo no banco da praça e cheiro de café vindo da padaria. No banco, Sayon...