segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A bipolaridade de Margarete


Da pra entender Margarete?

Outro dia, rejeitou Waldo com um recado grosseiro. 

Mas andando pelas ruas de Berlim, fez cara feia ao vê-lo com Karola, com quem está namorando. 

Se ela não o quis, ela não deveria ficar assim.

Vai entender Margarete...


O Quarteto de Vitalba


 No Colégio em Vitalba, na Toscana, quatro amigos inseparáveis. 

Winnie, jovem que sonha em ser veterinária; Vitório, que sonha em ser artista; Raschele, que sonha em trabalhar na saúde; e Joni, que sonha em ser psicólogo. 

Vitorio e Raschele, por sinal, vivem discutindo um com o outro, pois ambos falam muito na classe. Mas se respeitam como bons amigos. 

Uma nova amizade que incomoda


Rute, a filha de Valdenes, chegou recentemente de Lajedo, e começou a ter uma aproximação com Samuel, seu primo distante, pois ele é filho de Valéria, também prima distante de Valdenes. 

Mas a conversa entre Rute e Samuel estava sendo observada por outra pessoa. A Alice, filha de Wellia, estava visivelmente incomodada. 

Quando Rute se retirou, Alice se aproximou de Samuel e disse:

- Parece que tu arrumou uma amiga mais interessante...

- Oxe, Alice. Rute é minha prima, ela é filha do Valdenes, primo da minha mãe. 

- Sei...

Samuel disse:

- Tais com ciúme ou é minha impressão?

- Oxe, ciúme? Nada a ver. 

Alice se retirou e Samuel ficou rindo.

A Revolta de Warlla


 Numa tarde nublada em Lagoa da Italianinha, Warlla, a "mendiga chique" observava as pessoas passarem.

Com sua roupa elegante e fumando cigarro, Warlla observou que algumas pessoas que passaram por ela e que lhe viraram a cara eram pessoas amigas suas quando era rica.

Warlla dizia:

- Povinho falso. Quando eu era rica viviam me bajulando. Agora to na rua, sem casa, suja, fedendo a merda, fingem que nem me conhecem...

Warlla se sentia tão revoltada que nem queria ver a cara dessas pessoas. Pretendia até mesmo se vingar delas.

Elegância na água


Na lagoa perto de Lagoa da Italianinha, Danuzia não perde a pose dentro da água. 

Trajando blusa preta, paletó preto, saia longa preta e sapatos salto alto, a madame chamava atenção por ter entrado na água exatamente assim. 

Ela sempre diz que "é chique até embaixo d'água ".

Motivo de ironias, mas ela não se importa. Afinal ela é partidária da seguinte máxima:

- Falem mal, mas falem de mim!

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Manuel e Fátima recebem Adolfo


Certa tarde, em seu apartamento em Porto, Manuel e sua filha Fátima receberam Adolfo, que é vizinho deles e nutre amor por Fátima. 

Manuel, filho da portuguesa Mary Dee, ja tem 97 anos, e sua filha Fátima tem 70 e já é viúva. Fátima nasceu no Brasil enquanto seu pai morava lá. Vale ressaltar que Manuel era pequeno quando sua mãe Mary Dee deixou Portugal para ir para Pernambuco durante o regime salazarista.

Manuel voltou para Portugal depois que seus pais José Maria e Mary Dee morreram, e Fátima so veio se casar quando já morava em Portugal. 

Hoje, ela é viúva e é amada por Adolfo, também viúvo. Fátima ama Adolfo, mas não quer descuidar de seu pai. Por isso mesmo, Manuel tem incentivado que sua filha se case com Adolfo. 

O encontro entre eles foi de muita prosa agradável e chegaram a fazer um lanche juntos. 

Myllena tenta o apoio de suas irmãs


Candidata a deputada estadual por Pernambuco, Myllena e sua irmã Karoline mandaram chamar suas irmãs Ilene e Suely para uma reunião. Myllena soube que não teria o voto de suas duas irmãs. 

Ilene e Suely não votam em Myllena por motivos diferentes: Ilene está revoltada com sua sobrinha, a prefeita de Lagoa da Italianinha, Giovanna Victorya, a filha de Myllena, que excluiu Ilene de sua gestão. 

Já Suely é mais movida por idealismo. Ela, que é juíza, costuma dizer que o tipo de política que Myllena pratica é o que sempre ela condenou.

A conversa entre as irmãs foi muito tensa, com Ilene e Suely reafirmando suas posições. Karoline, entretanto, fez propostas financeiras, e Ilene ficou de pensar, enquanto Suely rejeitou mesmo.

Janielle - O sorriso que vende picolé em Lagoa da Italianinha


Se você já passou na praça da fonte no fim da tarde, você já viu ela.

Vestido verde longo, pés descalços no chão quente de pedra, uma caixinha aberta do lado com picolés coloridos. E um sorriso que não precisa de som.

Essa é Janielle.

Muita gente em Lagoa da Italianinha lembra da Janielle de antes: moradora de rua. Dormia na marquise, sem nada. Hoje, ela tem sua história nas mãos - literalmente - dentro de uma caixinha de picolé.

Janielle é surda e muda. Não ouve o carro de som da política, não escuta a fofoca da feira. E não fala. Mas em Lagoa da Italianinha, todo mundo aprendeu a conversar com ela de outro jeito.

Como comprar picolé com a Janielle?

É simples. Você aponta. Ela sorri. Ela mostra com os dedos o preço. Você entrega o dinheiro. Ela devolve o troco certinho, conta na palma da mão.

Às vezes, uma criança tenta falar com ela em Libras que aprendeu na escola. Janielle responde. Os olhos dela brilham. 

Ela não grita "Olha o picolé!". O picolé dela se vende sozinho, porque ela está sempre no mesmo lugar: na borda da fonte, com dignidade, com a caixinha organizada, com o vestido limpo.


terça-feira, 25 de agosto de 2026

O sono no caos

A mendiga Rita de Cássia, que tem mente de criança, parece não se importar com barulho. 

Mesmo no dia de movimento grande no centro de Lagoa da Italianinha, Rita dorme na calçada ao lado de Dalila, sua inseparável boneca.

 Rita de Cássia, que segue sendo uma criança mesmo com 44 anos, não se importa com a zoada das ruas. 

De Verona para Lagoa da Italianinha


O ano era 1935. Uma bela família teve que se mudar de seu próprio país e foi para terras estranhas. 

Jadiael era um jovem socialista, casado com Lanie, de família rica de Verona. Tinham dois filhos: Alycia, que tinha 5 anos, e Arthur, que só tinha um ano.

A perseguição fascista transformou a vida da família em um verdadeiro inferno. 

Sem ter outra solução, deixaram Verona rumo a Nápoles, de onde partiram pegando um navio. Desceram em Recife. 

Mas não ficaram na capital de Pernambuco. Foram pro interior. Lá, conseguiram levantar o sitio, que hoje, virou a cidade de Lagoa da Italianinha.  

Rotina pela justiça

 


Valdenes segura as folhas. Um processo novo que chegou. Caso de terra entre duas famílias da zona rural de Lagoa da Italianinha. Complicado.

"Juíza, a família da Dona Cícera trouxe mais documentos", ele diz.

Suely ouve. Olha nos olhos dele. Não é aquela juíza distante que bate martelo. É a Suely que fundou um projeto de mediação na cidade: antes de julgar, tenta fazer o povo conversar.

"Valdenes, marca uma conversa com as duas famílias aqui no escritório. Sem beca, sem medo. Quero que eles se olhem descalços também, se precisarem. Justiça não precisa de salto alto."

Por que fora do Fórum?

Porque Suely acredita que dentro do Fórum o povo tem medo. E com medo, ninguém fala a verdade.

No escritório dela, o povo entra, e caso queira, tira o sapato na porta, toma um café e conta a história real.

Valdenes é a ponte. Pobre, da cidade, conhecido de todo mundo. Ele traduz o "juridiquês" pra linguagem da feira.

"Ela é juíza, mas é gente da gente", ele fala pros vizinhos.



*Você já viu uma juíza atender descalça?* Em Lagoa da Italianinha, isso é normal. E é por isso que a gente ama essa cidade.


#RompendoDistâncias #JuizaSuely #Valdenes #LagoaDaItalianinha

Discussão no Colégio


Um certo dia, no Colégio Irmã Renata Augusta, em Lagoa da Italianinha, Isaías começou a zombar de sua prima Dina, que é careca por opção. Ele dizia:

- Quando é que tu vai deixar de parecer uma ET?

- Eu amo ser careca e vou continuar assim. 

Mas nessa hora, apareceram Rute, Samuel e Alice, defendendo Dina. 

Rute disse: 

- Isaías, tu ainda quer namorar comigo desse jeito? Humilhando sua própria prima tão doce?

- Não se meta, Rute!

Samuel ia bater em Isaías, mas Alice segurou. Samuel disse:

- Deixa eu quebrar a cara desse abusado!

- Não vale a pena!

Eles foram vistos por uma professora, que os levou até a diretoria. A própria Irmã Alcineia, a diretora do colégio, deu uma bronca em Isaías e o ameaçou de suspensão.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Cássia e as duas horas dentro da banheira



Em Lagoa da Italianinha tem gente que toma banho de rio, de tonel, de chuva. Cássia toma banho de pensamento.


Faz duas horas que ela está ali. De roupa e tudo - camisa cinza, calça jeans, cabelo molhado com espuma - sentada na banheira cheia. A água já esfriou. A torneira ainda pinga.

Do lado de fora, em pé, a irmã Lúcia. Jaqueta azul marinho, calça jeans, sapatilha. Não fala alto. Só espera. Porque quem ama de verdade sabe quando a outra precisa de silêncio.

O que prende Cássia na água?

Não é a sujeira. É a tristeza do mundo.

Cássia hoje viu uma cena na rua: uma senhora pedindo água e todo mundo passando direto. Ninguém parou. E aquilo grudou nela.

"Por que a gente esqueceu de amar o próximo, Lúcia? Por que tá todo mundo tão duro?"

Lúcia abaixa a cabeça. Ela conhece a irmã. Cássia sente demais. Carrega a dor dos outros como se fosse dela.

E quando sente demais, ela trava.

Lúcia, a irmã que fica

Lúcia não entrou na banheira. Ela ficou de pé. Vigilante.

"Cássia, já deu. Duas horas, irmã. Você precisa sair, tomar seu remédio, se trocar e dormir. Amanhã você continua pensando nisso, mas com a cabeça descansada."

Cássia olha pra água cheia de espuma.

"Mas se eu sair, o mundo continua igual, Lúcia. Sem amor."

"Continua. Mas você precisa estar forte pra colocar amor nele. E forte você fica quando se cuida."

Na série Rompendo Distâncias, Cássia representa muita gente que a gente conhece: aquela pessoa sensível, que chora com notícia, que sofre pelo vizinho. E Lúcia representa quem segura essa pessoa: a irmã, a amiga, que não julga, mas lembra do básico - remédio, roupa seca, sono.

Cássia finalmente mexeu os joelhos. A água fez barulho.

"Me ajuda a levantar?"

Lúcia sorriu pela primeira vez na noite:

"Sempre."

E assim, em Lagoa da Italianinha, uma banheira fria virou lembrete: pensar na falta de amor do mundo é importante. Mas começar o amor por nós mesmas - tomando remédio na hora, se trocando, dormindo - também é amor ao próximo.

Porque ninguém consegue dar o que não tem.


#RompendoDistâncias #CássiaELúcia #LagoaDaItalianinha #SaúdeMental

Valdenes e Josiane: o amor que se encontra quando a cidade dorme

 


Em Lagoa da Italianinha todo mundo sabe. O amor mais falado é o que não pode ser falado.

Ele: Valdenes. Camisa verde, calça azul, pé descalço no chão da praça. Pobre, trabalhador, que conta as moedas no final do dia.

Ela: Josiane. Vestido branco longo, sapatilha clara, filha única do Deputado Estadual Moab. Rica, criada entre segurança e sobrenome.

O pai dela não queria. Nunca quis. "Minha filha não vai namorar pé-rapado", ele dizia nos almoços da família.

Por isso eles aprenderam a brincar com o perigo.

A janela

O deputado Moab tinha sumido da cidade essa semana. 

Carro de som, comício, bandeira. Estava em campanha pela reeleição, gravando vídeo em Caruaru na feira, e à tarde discursando em Limoeiro. O palanque chamava, a eleição apertava.

E quando o gato sai, o coração da filha ganha coragem.

Lagoa da Italianinha ficou em silêncio. Luz amarela do poste da praça. Banco vazio.

Foi ali que Valdenes e Josiane se encontraram escondidos.

Sem motorista. Sem assessor. Sem sobrenome.

Só os dois, testa com testa, como na foto.

"Você veio descalço de novo?", ela riu, com a mão no peito dele.

"Vim. Se eu correr, corro mais rápido", ele respondeu.

Ela, a menina que tem tudo, encontrou nele o que dinheiro não compra: paz.

Ele, o menino que tem pouco, encontrou nela o que nunca teve: alguém que olha pra ele, não pro bolso dele.

Brincar com o perigo

Eles sabem que é perigoso.

Se o povo conta pro deputado, vira escândalo em Lagoa da Italianinha. Se o motorista dela vê, conta. Se a mãe dela descobre...

Mas ali, por cinco minutos, não existe deputado, não existe pobre e rica. Existe só um abraço apertado na praça vazia.

Josiane sussurrou:

"Quando meu pai voltar de Caruaru, eu vou ter que fingir que não te conheço de novo."

Valdenes segurou a cintura dela:

"Então deixa eu te guardar agora, que depois a saudade é grande."

Na série Rompendo Distâncias, esse é o núcleo mais perigoso e mais bonito. Porque mostra que em Lagoa da Italianinha, mesmo quem tem tudo e quem tem nada, sente a mesma coisa quando o amor aperta.

E você? Acha que o amor deles vai sobreviver à campanha do deputado Moab?

#RompendoDistâncias #ValdenesEJosiane #LagoaDaItalianinha

O buquê de Samuel e o "não" de Alice



Na praça de Lagoa da Italianinha, no meio do caminho da escola, Samuel esperou.

Ele estava daquele jeito dele: camisa azul manchada de lama, calça branca suja do jogo da manhã, um pé de chinelo. E nas mãos, um buquê. Não de rosas caras de floricultura, mas de flores do mato - margarida, girassol miúdo, flor roxa que ele mesmo colheu perto do rio.

Do outro lado vinha Alice, de moletom rosa, jeans e tênis branco bem limpo. Caderno na bolsa. Cabeça nos estudos.

"Pra você", ele disse, tímido, atrás dos óculos tortos.

Alice sorriu. Pegou o buquê. Cheirou.

"Obrigada, Samuel. Tá lindo. De verdade."

E foi aí que ela fez o que muita gente adulta não tem coragem de fazer: foi honesta.

"Samuel, eu gosto de você. Muito. Mas eu gosto como amigo. Agora eu quero só estudar, passar de ano, entrar no curso que eu quero. Eu não quero namorar. Pode ser?"

Samuel ficou quieto um segundo. O sorriso dele não sumiu, mas mudou.

"Pode. Claro que pode."

O que é "não desistir" de verdade?

Muita gente pensa que "não desistir" é ficar insistindo, mandando mensagem todo dia, ficando bravo.

Samuel fez diferente. Ele entendeu que o "não desisto dela" dele não era sobre namoro. Era sobre amizade.

Desde aquele dia, ele continuou sendo o amigo:

1.  Respeitou o tempo dela: Não ficou cobrando resposta diferente. Aceitou o "somos amigos".

2.  Virou parceiro de estudos: Se Alice prioriza estudar, ele ajuda. Senta do lado na biblioteca, divide resumo, explica matemática. 

3.  Guardou o carinho: O buquê que ela aceitou virou o primeiro de muitos, mas agora sem pressão. Um dia é flor pra comemorar nota boa, outro é flor porque "vi e lembrei de você".

Alice olhou pra ele ali na praça, segurando o buquê, e respondeu:

"Se for pra ter um amigo que me ajuda a focar nos meus sonhos, eu quero você por perto."

E Samuel, com a camisa suja de lama e o coração limpo, respondeu:

"Então eu fico. Amigo também ama. E amigo torce pra ver o outro crescer."

Em Lagoa da Italianinha, as meninas comentam: "Alice recusou o Samuel". 

As mais velhas corrigem: "Não recusou. Ela escolheu o futuro dela. E ele escolheu respeitar."

Porque na série Rompendo Distâncias, amar também é saber esperar. E às vezes, a melhor forma de ficar é aceitando ficar como amigo.

O que você acha? Samuel fez certo em continuar a amizade sem insistir no namoro?


#RompendoDistâncias #SamuelEalice #LagoaDaItalianinha

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Myllena e Mateus: café, terno e conversa de futuro em Lagoa da Italianinha

Cafeteria tranquila. Mesa pequena, café na xícara, livro em cima da mesa. Luz amarela.

De um lado Myllena. 

Ex-prefeita da cidade, hoje candidata a deputada estadual. Blazer preto, blusa amarela, cabelo solto. Sorriso calmo, mas olhar de quem já carregou prefeitura nas costas.

Do outro Mateus.

14 anos, terno azul-marinho, gravata, livro debaixo do braço. Postura séria demais pra idade. Filho caçula.

E os dois... descalços. Porque em casa e nos lugares que importam, Myllena ensinou: "a gente conversa melhor com o pé no chão."

Na cidade todo mundo comenta: "A prefeita atual é a Giovanna Victorya, filha dela. Por que Myllena fala tanto do Mateus?"

A resposta veio nessa tarde de café.

"Filha, a Giovanna tá fazendo um ótimo trabalho", Myllena disse, mexendo o café. "Ela tem cabeça, tem pulso. Eu tenho orgulho."

Mateus ficou quieto.

"Mas mãe, por que você me chama pra essas reuniões então?"

Myllena olhou pra ele. 

"Porque eu te vejo, filho. Eu vejo em você a vontade de perguntar o 'porquê' de tudo. A Giovanna executa. Você questiona. E política precisa dos dois."

"Mas eu sou só adolescente, mãe."

"E eu fui prefeita com 28. Idade não é crachá, Mateus. É responsabilidade."

O povo de Lagoa da Italianinha torce, critica, opina. 

Mas dentro daquela mesa, era só mãe e filho planejando. Sem câmera, sem discurso.

Myllena quer ser deputada pra levar a voz da cidade pro estado. 

E no fundo, ela já sonha alto: "Se um dia Mateus quiser, que ele entre na política não por sobrenome. Mas porque ele escolheu."

Mateus fechou o livro e sorriu. "Tá bom. Mas primeiro eu termino a escola, combinado?"

"Combinado", ela respondeu, e bateu o pé descalço no dele por baixo da mesa.

Porque legado não é empurrar. É preparar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Flávia e Gigi: duas descalças, duas histórias, um terminal



Fim de tarde no terminal de Lagoa da Italianinha. Terra no chão, ônibus parados, e duas mulheres frente a frente. Descalças.

De um lado, Flávia. 

Hoje advogada e vereadora. Camisa vermelha, calça preta suja de barro. O povo esquece, mas Flávia já dormiu nesse mesmo chão. Já foi mendiga. Já comeu do que achava. Já ficou sem banho, sem porta, sem nome. Estudou de madrugada, passou na OAB, entrou na política. E nunca tirou o pé do chão. Literalmente.

Do outro, Gigi. 

Jardineira jeans e camiseta branca suja. Cabelo solto, mão aberta falando. Gigi também vive na rua. Mas diferente de Flávia, ela não quer sair.

E foi por isso que a conversa ficou tensa.

"Gigi, vem pro abrigo pelo menos enquanto chove", disse Flávia, a voz baixa. "Eu consegui verba. Tem cama, tem comida, tem banheiro. Você não precisa mais passar por isso."

Gigi balançou a cabeça e deu um passo pra trás.

"Flávia, eu te respeito. Você saiu e deu certo. Mas eu não quero casa. Eu não quero regra. Eu quero a rua. É aqui que eu sou livre. É aqui que ninguém manda em mim."

Silêncio. 

Flávia entendeu. Porque ela sabe como é. Sabe o frio, a fome, a humilhação. E sabe também o peso de ter que se encaixar.

"Então me deixa te ajudar do seu jeito", Flávia respondeu. "Banho quando quiser. Documento. Atendimento. Sem te tirar da rua. Só pra rua não te matar."

Gigi olhou nos olhos dela. Duas mulheres que já dividiram o mesmo barro, agora em lados diferentes da mesma luta.

"Tá. Mas sem promessa de abrigo, viu?"

E as duas ficaram ali. Uma querendo tirar a outra da rua. A outra escolhendo ficar.

Lagoa da Italianinha viu essa cena e entendeu: nem todo mundo que está na rua quer sair. E nem toda vereadora esquece de onde veio.

Flávia virou as costas e foi pro gabinete. Gigi ajeitou a jardineira e seguiu pro viaduto. 

Mesmo chão. Caminhos diferentes.


Alice, o cachorro e as duas irmãs: Wellia e Malu

 


Na foto, fim de tarde. Rua tranquila, folhas no chão e sol batendo de lado. 

Alice vai correndo, blusa rosa, jeans e sorriso aberto. Do lado dela, o cachorro que ganhou de presente. Lingua pra fora, rabo abanando, coleira na mão dela. Leveza total.

Só que por trás dessa cena simples tem uma história de família.

O presente veio de Wellia. 

A mãe. A vilã da cidade. Mulher de negócio frio, olhar duro e fama de não perdoar. Wellia deu o cachorro pra Alice. Dizem que foi pra "educar a menina pra responsabilidade". Dizem que foi pra mostrar que até vilã tem coração. Ninguém sabe.

O que todo mundo sabe é que Alice se dá melhor com a tia Malu. 

Malu é irmã gêmea de Wellia. Mesma cara, alma diferente. 

Enquanto Wellia fecha contrato, Malu abre a porta da cozinha. Enquanto Wellia cobra, Malu abraça.

É na casa da tia que Alice conta os segredos. É Malu quem leva ela pra passear, quem compra ração, quem ensina o nome dos comandos pro cachorro. 

"Tia, por que mãe é assim?" Alice pergunta. 

"Porque sua mãe esqueceu de ser criança, filha. Mas você não vai esquecer."

E ali, no passeio da foto, está tudo. 

O presente da mãe que não sabe demonstrar. 

O carinho da tia que sabe cuidar. 

E Alice no meio, crescendo, correndo, escolhendo ser leve mesmo com duas mulheres tão diferentes criando ela.

O cachorro não escolhe lado. Ele só abana o rabo pros dois. E talvez seja isso que a casa precise.

Porque família é isso: gêmeas opostas, uma menina no meio, e um cachorro pra lembrar que amor também late.



O celular da mendiga chique



Se você anda pelo centro de Lagoa da Italianinha, cedo ou tarde vai trombar com ela.

Warlla. 

Sentada na calçada, óculos escuros, cigarro na mão e o celular na outra. 

Terno vermelho. Camisa branca. Scarpin vermelho. Bolsa vermelha do lado. Tudo sujo de barro e tempo. Mas tudo vermelho. Porque madame não perde a pose nem na queda.

O povo conta que Warlla já foi rica. Mansão, festa, nome na cidade. Perdeu tudo. Negócio que deu errado, gente que sumiu, porta que bateu e apostas. E ela foi parar na rua.

Mas tem coisa que rua não tira: a postura.

Ela não pede. Ela conversa. 

Não aceita qualquer roupa. Lava, costura, combina. 

E agora, como mostra a foto, está ali com o celular na mão. Respondendo mensagem, vendo notícia, dando like na foto da sobrinha. 

"Eu posso não ter casa, mas cabeça eu tenho", ela diz.

O cigarro é pausa. O celular é ponte. 

É através dele que Warlla ainda fala com o mundo que foi dela. 

Tem gente que olha torto. "Mendiga com iPhone?"

Tem gente que respeita. "Aquela ali já foi alguém e continua sendo."

Warlla ensina sem querer: dignidade não é ter dinheiro. É não deixar a vida te transformar em menos do que você é.

Barro na roupa? Tem. 

Mas o batom vermelho continua intacto. 

O salto continua alto. 

E o celular continua na mão.

Porque Warlla pode ter perdido tudo, menos ela mesma.


O encontro: Lidyanny e Anna Paula frente a frente na praça



A praça estava cheia de sol. Bancos vazios, cafés abertos, gente passando. Mas no meio do calçamento, o tempo parou.

De um lado, Lidyanny. 

Vestido preto longo, bota, batom escuro. Cabelo loiro curtinho e uma estrela marrom na lateral da cabeça como assinatura. O olhar frio, direto, sem piscar. Vilã assumida. Não grita, não ameaça. Só encara. E quando ela encara, a cidade treme.

Do outro lado, Anna Paula. 

Veterinária. Camisa rosa, saia azul, sandália baixa. Cabeça raspada, postura firme. E nos braços, um gato rajado, protegido como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.

Elas se encontraram ali. Sem querer. Ou será que foi de propósito?

O gato olhou pra Lidyanny e se encolheu. Anna Paula apertou mais o abraço.

"Solta o caso dos animais da prefeitura, Lidyanny", disse Anna Paula, baixo mas firme. "Já chega de licitação fraudada e canil fechado."

Lidyanny sorriu de canto. Só um canto.

"Anna Paula... sempre salvando todo mundo. Até quando?" 

"Até o dia em que você parar", respondeu a veterinária.

Ninguém gritou. Ninguém encostou na outra. 

Era só o silêncio tenso entre duas mulheres que representam tudo o que a outra odeia. 

Lidyanny: poder, jogo sujo, interesse. 

Anna Paula: cuidado, vida, verdade.

As pessoas ao redor fingiam não ver. Mas todo mundo sentiu. Aquela praça ficou menor por alguns segundos.

No fim, Lidyanny virou e foi embora, salto batendo na pedra. Anna Paula ficou. Ajeitou o gato no colo e respirou fundo.

Porque tem briga que não se resolve com grito. Se resolve com presença.

E Anna Paula estava ali. De pé. Protegendo quem não tem voz.



Rita de Cássia e Dalila: chuva, rua e um amor de criança



Dia chuvoso em Lagoa da Italianinha. O chão brilhando, as vitrines embaçadas e a rua cheia de pressa.

No meio da correria, passa Rita de Cássia. 

Descalça. Calça jeans suja de barro. Blusa preta molhada grudada no corpo. E nos braços, bem segura, a Dalila.

Dalila é a boneca dela. Não tem roupa, não tem sapato. Mas tem nome, tem história e tem colo.

Rita tem mente de criança. O povo da cidade já conhece. Ela conversa sozinha, canta baixinho e dá "mamá" pra Dalila como se fosse de verdade. Quando chove, ela não corre pra debaixo da marquise. Ela anda. Devagar. Sentindo a água no pé e no cabelo.

"Tem que proteger Dalila da chuva, né?" ela diz pra quem parar pra ouvir. E abraça mais forte a boneca.

Tem gente que desvia o olhar. Tem gente que oferece pão. Tem criança que aponta e pergunta: "Mãe, por que a tia tá com uma boneca?"

Rita só sorri. Pra ela, o mundo ainda é simples. É rua, é chuva, é boneca, é cuidado.

Em Lagoa da Italianinha, Rita de Cássia virou paisagem. Mas não é invisível. O padeiro guarda um pedaço de pão. A dona da loja empresta o banheiro quando ela pede "por favorzinho". E na praça, tem sempre alguém que pergunta: "E a Dalila, tá bem?"

Porque mesmo em dia de chuva, mesmo com a vida dura, Rita ensina uma coisa que adulto esquece: cuidar.

Cuidar de quem a gente ama, mesmo que seja uma boneca. 

Cuidar com a mão, com o colo, com a paciência de criança.

Rita e Dalila caminham juntas. Molhadas, descalças, mas juntas.

E talvez seja isso que falte pra gente: um pouco da mente de criança da Rita num dia de chuva.



O poder da aeromoça



Domingo no lago. Decisão rápida: "Bora se molhar, filho?"

Valéria, aeromoça, e Samuel entraram na água de roupa e tudo. Igual criança. Igual mãe e filho que não perdem a chance de brincar.

Só que quando saíram, aconteceu a parte que Samuel ainda não entende.

Ele saiu pingando. Camiseta encharcada, bermuda pesada, cabelo escorrendo. O menino típico depois do banho de lago.

Valéria? 

Saiu, balançou o cabelo, deu dois passos... e estava seca. 

Blazer preto impecável. Camisa azul sem uma marca d’água. Calça social e até o salto alto intacto. Como se nunca tivesse entrado no lago.

Samuel parou na margem e olhou pra mãe: 

"Mãe... como você faz isso?"

Valéria só riu e estendeu a mão pra ele.

"Filho, é o trabalho. Depois de anos entrando e saindo de avião, com conexão em cima da outra, a gente aprende a se virar. A água não pode me atrasar."

Ela chama de "poder da aeromoça". Samuel chama de magia.

A verdade é que Valéria aprendeu a resolver tudo rápido. Mala, voo, fuso horário, casa, filho. Se molhou? Seca. Se atrasou? Corre. Se sujou? Resolve. 

Agora os dois estão voltando pra casa pela estrada de barro. Ele todo lambuzado de lama e orgulho do banho. Ela limpa, sorrindo, olhando pra ele de lado.

"Mãe, me ensina esse poder?" 

"Te ensino sim. Começa secando essa roupa e deixando de pisar em poça."

E os dois riem.

Porque no fim, o verdadeiro poder da Valéria não é secar rápido. 

É transformar qualquer banho de lago em memória, e qualquer dia corrido em tempo com o filho.


A coragem de Sara Jéssica

 



7h da manhã. Diner antigo, banco vermelho, piso xadrez e cheiro de café passado.

Na mesa do canto está Sara Jéssica. 

Jardineira jeans, blusa branca, tênis limpo e uma caneca nas duas mãos. Cabeça raspada, postura reta. Antes de encarar o dia, ela toma o café dela em silêncio.

Filha da juíza Suely, Sara cresceu vendo a mãe dizer que beleza é escolha. E escolheu a dela: careca. Igual à mãe. Por opção. 

"Meu cabelo não me define. Minhas atitudes definem", ela costuma dizer.

E olha as atitudes dela...


Sara é modelo. Anda na passarela de cabeça raspada, batom forte e atitude. Quebra padrão e mostra que elegância não depende de peruca.

Sara é empresária. Tem uma marca de roupas autorais aqui em Lagoa da Italianinha. Peças simples, confortáveis e com caimento pra todo tipo de corpo. "Roupa tem que caber na vida da gente", diz ela.

E Sara é vereadora. A mais jovem da câmara. Chega cedo, ouve o povo, e não tem medo de votar contra quando precisa. Herdou da mãe o senso de justiça e o jeito direto de falar.

Na foto ela está só tomando café. Mas é nesse intervalo que ela se prepara pra três trabalhos. 

Pra desfilar e representar mulheres que não se veem nas revistas. 

Pra abrir a loja e gerar emprego. 

Pra ir pra câmara e cobrar escola, saúde e respeito.

O garçom já sabe: "o de sempre, Sara?". Ela sorri, agradece, e sai. Jardineira, tênis e cabeça erguida.

Sara Jéssica prova que dá pra ser muitas coisas ao mesmo tempo. E que ser careca, ser mulher e ser jovem na política não é frescura. É escolha. É força.

É café antes da luta.

Amizade que a vida aprova



Em Lagoa da Italianinha tem amizade que não cabe em rótulo.

É a amizade de Valdenes e Branquinha.

Valdenes foi morador de rua por anos. Hoje anda pela cidade descalço, com a camisa sempre na mão e um sorriso que já viu muita coisa. Conhece cada pedra da lagoa, cada trilha da cachoeira, cada canto onde a água é mais fria.

Branquinha é o oposto no papel: jovem, publicitária, família rica. Anda de chinelo, cabelo solto, e largou a agência da capital pra abrir um estúdio pequeno aqui na cidade. Podia viver de salto e reunião. Mas prefere reunião descalça ou de chinelos. 

E foi assim que os dois se encontraram.

Numa tarde de calor, os dois estavam na lagoa. Branquinha tinha largado os chinelos na margem. Valdenes já estava na água. Começaram a conversar. De água, de vida, de livro, de política, de nada.

De lá pra cá virou rotina. 

Quando a cabeça pesa, eles se encontram na lagoa ou na cachoeira. Entram de roupa e tudo. Ele de camisa verde, ela de preto. Ficam ali, na altura do peito, deixando a correnteza levar o que não presta.

E conversam. Muito.

Branquinha conta sobre cliente difícil e campanha nova. Valdenes conta história da rua, de gente, de como sobreviver com pouco e ser feliz com menos ainda. 

Ninguém dá palestra. Ninguém salva ninguém. Eles só trocam.

O povo da cidade no começo estranhou. "O que uma menina rica quer com ele?" "O que ele tem pra ensinar pra ela?"

Hoje ninguém pergunta mais. Porque quem vê os dois rindo na água entende: amizade sincera não mede conta bancária, nem passado, nem sobrenome.

Os dois têm hábitos simples. 

Ele anda descalço porque diz que "pé no chão lembra de onde a gente veio". 

Ela usa chinelo porque "vida boa é vida leve". 

E os dois mergulham juntos porque a água é o único lugar onde todo mundo é igual.

Valdenes e Branquinha provam que Lagoa da Italianinha é pequena, mas o coração do povo é grande.

Aqui amizade não escolhe classe. Escolhe verdade.


*

Wrialle e Fabiana: uma história de dois países, um só amor



Na foto, Filadélfia, 1827. Luz entrando pela janela, móveis de madeira, retratos na parede. Sentados no sofá, lado a lado, estão Wrialle, 73 anos, e Fabiana, 70.

Mas a história deles começa muito antes e cruza o Atlântico duas vezes.

Wrialle era jovem quando pegou em armas. Lutou na Revolução Americana pela independência dos Estados Unidos. Depois da guerra, com o coração inquieto, decidiu atravessar o oceano. Veio parar em Vila Rica, no Brasil. Minas Gerais, ouro, igrejas barrocas e uma vida completamente diferente da que ele conhecia.

Foi lá que ele conheceu Fabiana, uma simples camponesa. 

Dizem que foi num baile, dizem que foi na porta da igreja. O que importa é que os dois se acharam. Ele com o sotaque estrangeiro e as histórias de batalha. Ela com a força das mulheres de Vila Rica. Casaram, construíram família e criaram raízes.

O tempo passou. Filhos cresceram. 

Alguns ficaram no Brasil, em Vila Dourada, uma cidade recém emancipada em Pernambuco. Plantaram chão, formaram família e deram continuidade ao sobrenome por aqui.

E Wrialle e Fabiana? 

Em 1824, já idosos, decidiram voltar. Pegaram a estrada de volta para os *EUA*. Aos 73 e 70 anos, como mostra essa foto, eles estavam em Filadélfia novamente. Cansados? Talvez. Mas com o olhar de quem viveu duas vidas em uma só.

Olha pra eles na imagem. Ele de casaca, sério, mas com a mão perto da dela. Ela de vestido de seda, postura firme, olhando pra ele como quem diz: "a gente conseguiu".

São duas cabeças brancas, dois países no currículo e uma família espalhada entre Pernambuco e a América.

Wrialle e Fabiana provam que lar não é um lugar. Lar é com quem você escolhe envelhecer.

E que história cabe numa única fotografia, né?


Fabíola e seus livros


Se você for ao centro de Lagoa da Italianinha num sábado de manhã, é capaz de ver ela.

Vestido rodado até o joelho. Luvas brancas. Chapéu com véu. Salto impecável. E nos braços, uma pilha de livros antigos que ela jura que "não se lê em Kindle".

Essa é a Fabíola. A vintage maluca da cidade.

Fabíola vive como se fosse 1955. De propósito.  

Enquanto todo mundo corre de tênis, fone e mochila, ela atravessa a rua com a postura de quem saiu de um filme em preto e branco. Cumprimenta o padeiro de "bom dia, senhor". Pede "por obséquio" na farmácia. E paga tudo com dinheiro trocado, guardado numa carteira de couro, dirige fusca e só escreve em uma máquina de escrever. 

“Eu não sou doida, eu sou de outra época”, ela diz rindo.

O contraste fica mais bonito ainda aqui. Porque Lagoa da Italianinha é moderna. Tem food truck, tem Wi-Fi na praça, tem grafite no muro da escola. E no meio disso tudo, Fabíola. 

Um vestido branco cortando o calor, os livros debaixo do braço, e aquele batom vermelho que não borra nem com o vento da serra.

As crianças acham que ela é personagem. Os idosos chamam ela de "minha senhora". E os jovens? Os jovens param pra tirar foto. Porque Fabíola lembra todo mundo de uma coisa que a gente esqueceu: elegância não sai de moda.

Ela carrega livros porque diz que "ideia boa precisa de peso". Carrega chapéu porque "cabeça merece coroa". E carrega essa personalidade porque "viver é chato demais pra ser igual".

Fabíola não está presa no passado. Ela trouxe o melhor do passado pra hoje.

E Lagoa da Italianinha ficou mais bonita por causa disso.



Ilene, Isaías, Dina e Suely: beleza é escolha


 

Na casa de Suely teve visita da irmã Ilene com o filho Isaías.

No meio da conversa, Isaías olhou pra prima *Dina* e zombou:

“Você parece um ET”.

Dina e Suely são carecas. Mas não por tratamento. Por opção mesmo. Elas gostam assim. Se acham lindas, práticas e livres.

O rosto de Suely, que é juíza, ficou sério na hora.

“Irmã, educa teu filho. Aqui em casa a gente respeita a escolha do outro.”

Ilene ficou sem graça. Puxou Isaías e foi embora.

Depois que as duas saíram, Suely sentou com Dina. Brincando, disse:

“E aí, que tal deixar crescer um pouquinho o cabelo?”

Dina riu, passou a mão na cabeça e respondeu:

“De jeito nenhum, mãe. Eu amo ser careca. E linda. Igual você.”

E as duas se olharam e sorriram. Porque pra elas, beleza não é padrão. É escolha.

Mais tarde Ilene ligou. Disse que conversou com Isaías sobre respeito. Sobre não zoar o corpo e as decisões dos outros. Porque o que é diferente pra uns, é autoestima pra outros.

Dina continua a mesma: vaidosa, de brinco grande, batom vermelho e cabeça raspadinha.  

Suely também. Duas mulheres que decidiram que careca é poder.


Fica a reflexão:

Zoar não educa. Respeitar educa.  

E ser feliz do seu jeito incomoda quem ainda não se encontrou.


Lúcia e Cássia: uma conversa no centro de Lagoa da Italianinha



O centro de Lagoa da Italianinha num fim de tarde tem disso: movimento, gente passando, e no meio de tudo, histórias que acontecem bem ali, sentadas no meio-fio.

Foi assim que Lúcia encontrou a irmã Cássia.

Lúcia viu Cássia de longe, sentada na calçada, descalça, com a calça cheia de lama nos joelhos. Cássia estava quieta, chupando o dedo, olhando pro chão. É um jeito que ela tem desde pequena quando o mundo fica barulhento demais.

Lúcia não gritou. Não fez cena. Só sentou do lado.

“Oi, mana. O que aconteceu?”

Cássia tem transtorno mental. E junto com isso vem o jeito dela de se acalmar: tomar banho de chuva quando o céu abre, se molhar no rio, brincar no chafariz da praça, e às vezes se sujar de lama. Pra muita gente isso parece “estranho”. Pra Cássia é jeito de sentir o mundo, de esfriar a cabeça, de ser livre.

Naquele dia Lúcia precisava conversar sério. Conversar de irmã mais velha que se preocupa, que carrega medo junto. Conversar sobre remédio, sobre consulta, sobre voltar pra casa antes de escurecer. 

Cássia ouvia. De vez em quando tirava o dedo da boca só pra balançar a cabeça. Não respondia com muitas palavras, mas ficava ali. Presente.

A conversa não resolveu tudo. Conversa séria com quem a gente ama raramente resolve tudo num dia só. Mas resolveu o mais importante: as duas ficaram juntas.

Lúcia sabe que cuidar de Cássia não é sobre “consertar”. É sobre caminhar junto. É sobre entender que o banho de chuva acalma, que a lama não é sujeira é sensorial, que o chafariz é terapia. E também é sobre limite, cuidado, e rede de apoio.

Quando terminaram de conversar, Lúcia esticou a mão. 

“Vamo pra casa, mana? Te empresto uma sandália.”

Cássia sorriu. Se levantou. E as duas foram embora lado a lado pelo centro, com o sol já se pondo atrás das casas de Lagoa da Italianinha.


Sobre saúde mental: 

Cuidar é também acolher os jeitos diferentes de cada pessoa. Se você conhece alguém que precisa de apoio, procure um CAPS, UBS ou profissional de saúde. Conversar e não abandonar faz diferença.



Danuzia, a banheira e o convite mais divertido do mundo



Na casa da família tem sempre aquela pessoa que quebra o gelo. Que transforma o comum em história pra contar depois.

Na casa da tia Ana Patrícia, essa pessoa é a *Danuzia*.

Era uma tarde quente. Aquelas tardes de domingo que só pedem água, risada e nada de fformalidade. Ana Patricia queria tomar banho. Ela disse:

"Vou tirar a roupa pra ir para a banheira!"

Danuzia disse:

“Oxe, tia, tirar a roupa pra que? Entra de roupa feito eu! É muito bom!” 

Ana Patrícia parou na porta do banheiro e riu. Estranhou, claro. Quem é que entra na banheira vestida? Mas Danuzia fazia aquilo direto. Pra ela, tomar banho de roupa era bonito. Era liberdade. Era se jogar sem se preocupar se o cabelo ia molhar ou se a blusa ia grudar.

“Mas Danu, a roupa vai ficar toda molhada...”  

“E daí, tia? Depois a senhora estende no varal!”

E foi assim que, entre um “tô com vergonha” e outro “para com isso Danu”, Ana Patrícia acabou cedendo. Entrou na banheira. De roupa. Igual a Danuzia.

Nos primeiros segundos foi estranho. A água fria, a roupa pesada. Mas 30 segundos depois? Só tinha risada. Salpicos. Foto torta pro grupo da família. E uma lembrança que vai virar clássico nas festas.

Danuzia não estava ensinando ninguém a tomar banho. Ela estava ensinando a não levar a vida tão a sério. A achar bonito o que é diferente. A convidar mesmo quando a resposta pode ser “não”.

Hoje Ana Patrícia conta essa história e já fala: “Eu achei estranho no começo... mas com a Danuzia a gente acaba entrando na brincadeira”.

Porque tem gente que entra na banheira de roupa.  

E tem gente que te puxa junto, pra você descobrir que também é divertido.

Malu e o encontro que mudou uma tarde em Lagoa da Italianinha



Tem gente que passa pela vida correndo. E tem gente que para.

Malu é veterinária. Mas antes de qualquer diploma, CRMV ou jaleco branco, ela é daquelas pessoas que param.

Foi numa terça-feira comum que isso aconteceu em Lagoa da Italianinha. Malu estava voltando da clínica, com a cabeça cheia de consultas, vacinas e um plantão ainda pela frente. O sol já baixava e pintava o céu da serra de laranja.

No meio do caminho de terra, encostado na sombra de uma árvore, estava ele: um vira-lata caramelo, magro, com o pelo cheio de poeira e um olhar que misturava medo e cansaço.

A maioria só olha e segue. Malu parou o carro, que era digerido por seu namorado Vinícius. 

Ela desceu com a caixa de primeiros socorros que vive no porta-malas — porque veterinária nunca desliga de verdade. O cachorro recuou no começo, assustado. Malu não forçou. Sentou na terra, abriu um pacote de biscoito e começou a conversar com ele, como conversa com seus pacientes: com calma, com respeito.

“Oi, garoto... tá doendo? Vem cá...”

Aos poucos a confiança veio. Era desidratação, algumas feridas nas patas e muita fome. Malu limpou os machucados ali mesmo, deu água, ofereceu comida e o levou no banco de trás. Não tinha como deixar ele ali.

Na clínica, depois do expediente, ela fez curativo, vermífugo e uma boa tosa. Deu um nome pra ele: Italianinho. Em homenagem ao lugar onde se encontraram.


Italianinho ficou 15 dias em lar temporário na clínica da Malu. Ganhou peso, pelo brilhoso e um rabo que não parava de abanar. Hoje ele tem uma família. Dorme em cama, come todo dia e corre na Lagoa toda manhã.

Malu diz que não fez nada demais. "Eu só parei", ela fala, dando de ombros.

Mas é exatamente isso que faz a diferença.

Em Lagoa da Italianinha, onde todo mundo se conhece e a vida corre no ritmo da serra, a história da Malu e do Italianinho virou conversa de padaria. Porque às vezes o ato mais simples — parar pra cuidar — é o que transforma o dia de alguém. De um cachorro. E até o nosso.


Se você encontrar um animal de rua:

Água, comida e, se possível, ajuda veterinária. E se não puder adotar, compartilhe. Um lar pode estar a um post de distância.

Confronto na rua

Certo dia, Malu estava caminhando por uma rua de Lagoa da Italianinha quando viu sua irmã gêmea Wellia maltratando a mendiga Rita de Cássia,...