Dia chuvoso em Lagoa da Italianinha. O chão brilhando, as vitrines embaçadas e a rua cheia de pressa.
No meio da correria, passa Rita de Cássia.
Descalça. Calça jeans suja de barro. Blusa preta molhada grudada no corpo. E nos braços, bem segura, a Dalila.
Dalila é a boneca dela. Não tem roupa, não tem sapato. Mas tem nome, tem história e tem colo.
Rita tem mente de criança. O povo da cidade já conhece. Ela conversa sozinha, canta baixinho e dá "mamá" pra Dalila como se fosse de verdade. Quando chove, ela não corre pra debaixo da marquise. Ela anda. Devagar. Sentindo a água no pé e no cabelo.
"Tem que proteger Dalila da chuva, né?" ela diz pra quem parar pra ouvir. E abraça mais forte a boneca.
Tem gente que desvia o olhar. Tem gente que oferece pão. Tem criança que aponta e pergunta: "Mãe, por que a tia tá com uma boneca?"
Rita só sorri. Pra ela, o mundo ainda é simples. É rua, é chuva, é boneca, é cuidado.
Em Lagoa da Italianinha, Rita de Cássia virou paisagem. Mas não é invisível. O padeiro guarda um pedaço de pão. A dona da loja empresta o banheiro quando ela pede "por favorzinho". E na praça, tem sempre alguém que pergunta: "E a Dalila, tá bem?"
Porque mesmo em dia de chuva, mesmo com a vida dura, Rita ensina uma coisa que adulto esquece: cuidar.
Cuidar de quem a gente ama, mesmo que seja uma boneca.
Cuidar com a mão, com o colo, com a paciência de criança.
Rita e Dalila caminham juntas. Molhadas, descalças, mas juntas.
E talvez seja isso que falte pra gente: um pouco da mente de criança da Rita num dia de chuva.

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