Em Lagoa da Italianinha tem amizade que não cabe em rótulo.
É a amizade de Valdenes e Branquinha.
Valdenes foi morador de rua por anos. Hoje anda pela cidade descalço, com a camisa sempre na mão e um sorriso que já viu muita coisa. Conhece cada pedra da lagoa, cada trilha da cachoeira, cada canto onde a água é mais fria.
Branquinha é o oposto no papel: jovem, publicitária, família rica. Anda de chinelo, cabelo solto, e largou a agência da capital pra abrir um estúdio pequeno aqui na cidade. Podia viver de salto e reunião. Mas prefere reunião descalça ou de chinelos.
E foi assim que os dois se encontraram.
Numa tarde de calor, os dois estavam na lagoa. Branquinha tinha largado os chinelos na margem. Valdenes já estava na água. Começaram a conversar. De água, de vida, de livro, de política, de nada.
De lá pra cá virou rotina.
Quando a cabeça pesa, eles se encontram na lagoa ou na cachoeira. Entram de roupa e tudo. Ele de camisa verde, ela de preto. Ficam ali, na altura do peito, deixando a correnteza levar o que não presta.
E conversam. Muito.
Branquinha conta sobre cliente difícil e campanha nova. Valdenes conta história da rua, de gente, de como sobreviver com pouco e ser feliz com menos ainda.
Ninguém dá palestra. Ninguém salva ninguém. Eles só trocam.
O povo da cidade no começo estranhou. "O que uma menina rica quer com ele?" "O que ele tem pra ensinar pra ela?"
Hoje ninguém pergunta mais. Porque quem vê os dois rindo na água entende: amizade sincera não mede conta bancária, nem passado, nem sobrenome.
Os dois têm hábitos simples.
Ele anda descalço porque diz que "pé no chão lembra de onde a gente veio".
Ela usa chinelo porque "vida boa é vida leve".
E os dois mergulham juntos porque a água é o único lugar onde todo mundo é igual.
Valdenes e Branquinha provam que Lagoa da Italianinha é pequena, mas o coração do povo é grande.
Aqui amizade não escolhe classe. Escolhe verdade.
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