Se você já passou na praça da fonte no fim da tarde, você já viu ela.
Vestido verde longo, pés descalços no chão quente de pedra, uma caixinha aberta do lado com picolés coloridos. E um sorriso que não precisa de som.
Essa é Janielle.
Muita gente em Lagoa da Italianinha lembra da Janielle de antes: moradora de rua. Dormia na marquise, sem nada. Hoje, ela tem sua história nas mãos - literalmente - dentro de uma caixinha de picolé.
Janielle é surda e muda. Não ouve o carro de som da política, não escuta a fofoca da feira. E não fala. Mas em Lagoa da Italianinha, todo mundo aprendeu a conversar com ela de outro jeito.
Como comprar picolé com a Janielle?
É simples. Você aponta. Ela sorri. Ela mostra com os dedos o preço. Você entrega o dinheiro. Ela devolve o troco certinho, conta na palma da mão.
Às vezes, uma criança tenta falar com ela em Libras que aprendeu na escola. Janielle responde. Os olhos dela brilham.
Ela não grita "Olha o picolé!". O picolé dela se vende sozinho, porque ela está sempre no mesmo lugar: na borda da fonte, com dignidade, com a caixinha organizada, com o vestido limpo.

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