quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Lúcia e Cássia: uma conversa no centro de Lagoa da Italianinha



O centro de Lagoa da Italianinha num fim de tarde tem disso: movimento, gente passando, e no meio de tudo, histórias que acontecem bem ali, sentadas no meio-fio.

Foi assim que Lúcia encontrou a irmã Cássia.

Lúcia viu Cássia de longe, sentada na calçada, descalça, com a calça cheia de lama nos joelhos. Cássia estava quieta, chupando o dedo, olhando pro chão. É um jeito que ela tem desde pequena quando o mundo fica barulhento demais.

Lúcia não gritou. Não fez cena. Só sentou do lado.

“Oi, mana. O que aconteceu?”

Cássia tem transtorno mental. E junto com isso vem o jeito dela de se acalmar: tomar banho de chuva quando o céu abre, se molhar no rio, brincar no chafariz da praça, e às vezes se sujar de lama. Pra muita gente isso parece “estranho”. Pra Cássia é jeito de sentir o mundo, de esfriar a cabeça, de ser livre.

Naquele dia Lúcia precisava conversar sério. Conversar de irmã mais velha que se preocupa, que carrega medo junto. Conversar sobre remédio, sobre consulta, sobre voltar pra casa antes de escurecer. 

Cássia ouvia. De vez em quando tirava o dedo da boca só pra balançar a cabeça. Não respondia com muitas palavras, mas ficava ali. Presente.

A conversa não resolveu tudo. Conversa séria com quem a gente ama raramente resolve tudo num dia só. Mas resolveu o mais importante: as duas ficaram juntas.

Lúcia sabe que cuidar de Cássia não é sobre “consertar”. É sobre caminhar junto. É sobre entender que o banho de chuva acalma, que a lama não é sujeira é sensorial, que o chafariz é terapia. E também é sobre limite, cuidado, e rede de apoio.

Quando terminaram de conversar, Lúcia esticou a mão. 

“Vamo pra casa, mana? Te empresto uma sandália.”

Cássia sorriu. Se levantou. E as duas foram embora lado a lado pelo centro, com o sol já se pondo atrás das casas de Lagoa da Italianinha.


Sobre saúde mental: 

Cuidar é também acolher os jeitos diferentes de cada pessoa. Se você conhece alguém que precisa de apoio, procure um CAPS, UBS ou profissional de saúde. Conversar e não abandonar faz diferença.



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