quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O celular da mendiga chique



Se você anda pelo centro de Lagoa da Italianinha, cedo ou tarde vai trombar com ela.

Warlla. 

Sentada na calçada, óculos escuros, cigarro na mão e o celular na outra. 

Terno vermelho. Camisa branca. Scarpin vermelho. Bolsa vermelha do lado. Tudo sujo de barro e tempo. Mas tudo vermelho. Porque madame não perde a pose nem na queda.

O povo conta que Warlla já foi rica. Mansão, festa, nome na cidade. Perdeu tudo. Negócio que deu errado, gente que sumiu, porta que bateu e apostas. E ela foi parar na rua.

Mas tem coisa que rua não tira: a postura.

Ela não pede. Ela conversa. 

Não aceita qualquer roupa. Lava, costura, combina. 

E agora, como mostra a foto, está ali com o celular na mão. Respondendo mensagem, vendo notícia, dando like na foto da sobrinha. 

"Eu posso não ter casa, mas cabeça eu tenho", ela diz.

O cigarro é pausa. O celular é ponte. 

É através dele que Warlla ainda fala com o mundo que foi dela. 

Tem gente que olha torto. "Mendiga com iPhone?"

Tem gente que respeita. "Aquela ali já foi alguém e continua sendo."

Warlla ensina sem querer: dignidade não é ter dinheiro. É não deixar a vida te transformar em menos do que você é.

Barro na roupa? Tem. 

Mas o batom vermelho continua intacto. 

O salto continua alto. 

E o celular continua na mão.

Porque Warlla pode ter perdido tudo, menos ela mesma.


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