Se você anda pelo centro de Lagoa da Italianinha, cedo ou tarde vai trombar com ela.
Warlla.
Sentada na calçada, óculos escuros, cigarro na mão e o celular na outra.
Terno vermelho. Camisa branca. Scarpin vermelho. Bolsa vermelha do lado. Tudo sujo de barro e tempo. Mas tudo vermelho. Porque madame não perde a pose nem na queda.
O povo conta que Warlla já foi rica. Mansão, festa, nome na cidade. Perdeu tudo. Negócio que deu errado, gente que sumiu, porta que bateu e apostas. E ela foi parar na rua.
Mas tem coisa que rua não tira: a postura.
Ela não pede. Ela conversa.
Não aceita qualquer roupa. Lava, costura, combina.
E agora, como mostra a foto, está ali com o celular na mão. Respondendo mensagem, vendo notícia, dando like na foto da sobrinha.
"Eu posso não ter casa, mas cabeça eu tenho", ela diz.
O cigarro é pausa. O celular é ponte.
É através dele que Warlla ainda fala com o mundo que foi dela.
Tem gente que olha torto. "Mendiga com iPhone?"
Tem gente que respeita. "Aquela ali já foi alguém e continua sendo."
Warlla ensina sem querer: dignidade não é ter dinheiro. É não deixar a vida te transformar em menos do que você é.
Barro na roupa? Tem.
Mas o batom vermelho continua intacto.
O salto continua alto.
E o celular continua na mão.
Porque Warlla pode ter perdido tudo, menos ela mesma.

Nenhum comentário:
Postar um comentário