terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A Convenção dos Descalços

 

Num certo dia, a empresária Karla Patrícia, em Lagoa da Italianinha, conseguiu convidar algumas pessoas para uma convenção que reuniria os descalços da cidade. Ela, que havia fundado a Sociedade dos Pés Livres, decidiu realizar essa convenção, não só com os membros da sociedade, como com todos que amam andar descalços. 

A prefeita Myllena, descalça convicta, apareceu com seu filho Mateus. Myllena e a vereadora Vanessa, uma das fundadoras da sociedade, estavam em conflito uma com a outra, mas trocaram um cumprimento leve. A irmã de Myllena, a juíza Suely, também se fez presente, com seu funcionário Valdenes, outro descalço. Além deles, estavam a própria vereadora Vanessa, a cantora Marília do Acordeon e a simples vendedora de picolés Leila. Branco, outro fundador da sociedade, chegou depois, quando a reunião já tinha começado. 

Alguns ali contavam suas experiências de vida após ter adotado esse estilo de vida sem calçados. Contavam os preconceitos que sofriam e até as inúmeras vezes que foram barrados em alguns lugares por estar descalços. Myllena se filiou à Sociedade, e a prefeita confessou que seu sonho é conseguir fundar um partido formado por descalços. 

Apesar de ser adversária política, a vereadora Vanessa não se opôs à entrada de Myllena na Sociedade dos Pés Livres. Karla Patrícia, que se tornou a presidente da Sociedade, discursou:

- Eu quero aqui agradecer aos colegas descalços pela presença, e temos que nos unir contra toda espécie de preconceitos que sofremos. Quantas vezes nós não somos barrados? Precisamos ter a liberdade de optar em não usar calçados. Na minha loja de produtos naturais, todas minhas funcionárias andam descalças igual a mim. As pessoas nos olham como se fôssemos mendigos, mas não somos. É uma opção nossa, e calçados deveriam ser artigos facultativos, usa quem quiser, e não artigo obrigatório. 

Karla Patrícia foi bastante aplaudida. Ela facultou a palavra para alguns, e Vanessa teve a oportunidade de falar, lembrando de alguns "descalços históricos" da cidade, a exemplo de Maria Clara, a italiana Giuliana, o italiano Arthur, a freira Irmã Renata Augusta, a portuguesa Mary Dee e o avô de Valdenes, Antônio Neto, único remanescente ainda vivo desse grupo. Valdenes até disse quando falaram do seu avô:

- Puxei a ele, lógico. 

A juíza Suely também discursou, e se filiou à Sociedade com sua irmã Myllena. Suely parabenizou a iniciativa e disse que seria uma militante fiel em favor da causa. Myllena, por sua vez, estava radiante, e empolgada por ter se filiado à Sociedade dos Pés Livres, pretendia ser uma apoiadora mensal contribuindo em grande quantia, além de procurar trazer membros novos. Seu filho Mateus, embora descalço convicto como a mãe e empolgado, não se filiou à Sociedade por ser de menor. 

Ao fim da Convenção, Marília do Acordeon, sobrinha de Karla Patrícia, ainda fez seu show, animando todos os presentes. 

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